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quarta-feira, 14 de dezembro de 2016

Lady Gaga| Seguir em frente, seguir o som.


Aprendemos com a TV que dezembro tem cara de retrospectiva. Fazer balanços do ano já se tornou uma tradição implícita na demanda popular. A cada ano se repetem as ladainhas da dieta nova que precisa ser feita, dos projetos que não se concluíram e que precisam ser concretizados no ano que vai se iniciar. Dezembro sempre é um misto de lamentação pelos feitos não alcançados e promessas pelos planos desejados.

É bem verdade que se criou um simbolismo enorme nessas datas, um rito de passagem que envolve memórias, histórias e recomeços. Mas no final do dia, foi apenas mais um ano, mais um trecho de canção mal ou bem cantada. Só mais um caminho cheio de aridez ou ladrilhado. Não sei, cada um tem seu ano, suas experiências e viveu nele a parte que lhe cabia nesse latifúndio. Como já me disse a senhora dos cabelos cor de prata “a gente acaba por coloca peso nas coisas”. A gente ressignifica e põe sentido naquilo que nos convêm e nos que desagradam. A gente se reinventa, e isso é bom, mesmo que para isso a dor se torne apenas cicatriz e a tristeza se transforme em lembrança.

Lembranças, talvez seja a palavra que melhor possa definir esse ano para mim. Nada de nostalgia dolorosa, mas a memória do que de tão bom não poderia ir, mesmo em meio a tanta porrada. É coisa de dentro, como os sabores da infância, os sons da adolescência e os prazeres que a juventude nos proporciona. São coisas que a gente não desliga ou apaga da mente, simplesmente relembra a cada gatilho disparado.

If you could
I know that you'd stay
We both know
Things don't work that way
I promised I
Wouldn't say goodbye
So I grin
And my voice gets thin

Em meio a essas lembranças estão aquelas que gostaríamos de ter a eternidade para senti-las. Não é tristeza, é saudade. Cada um manifesta no seu tempo e do seu jeito. Eu sempre fui uma pessoa silenciosa, ninguém me ensinou que era melhor observar mais e falar menos, eu simplesmente nunca suportei qualquer tipo de exposição. Mesmo sendo professora e tendo que lidar com as demandas acadêmicas, ainda tenho crises de ansiedades terríveis para falar em público.Então, sempre fui a ouvinte. 

Em meio a todos os fatos e a minha natureza, desde fevereiro vi tudo virar de cabeça para baixo, inclusive em ver que o meu silêncio tinha se tornado um turbilhão transposto em ideias e palavras, mesmo que em meio a um público que tem a síndrome de Zé das Medalhas. Mesmo com todo recolhimento, sempre vão haver momentos de parar e respirar para não pirar. Isso nada tem a ver com as lembranças, pois elas nos afagam, isso tem a ver com a falta de sensibilidade e noção das pessoas que estão ao nosso redor. Mudar o disco, o ritmo e sorrir mais, mesmo em meio ao caos, tem sido uma boa saída. Talvez as pessoas não percebam que não precisam mexer com ferida para que ela melhore, basta deixar ela quietinha cicatrizando no seu tempo.

Joanne traduz minha voz engasgada. Em outubro, Lady Gaga lançou seu quinto álbum e eu que sempre fui quase apática para os trabalhos dela – com exceção do disco Cheek to Cheek em parceria com Tony Bennett- tive que parar e ouvir, mas ouvir repetidamente e nem tão parada assim. Diamond Heart, AY-O e Dancin' in Circles já se tornaram hinos e são capazes de arrancar qualquer pessoa da monotonia. Mas é um trabalho muito para além do “fervo”, tem uma profundidade que vai da sensualidade à reflexão. Em meio a essa reflexão, encontramos a saudade.

A canção que dá nome ao álbum soou como um abraço apertado em manhã de sábado para mim. Não se trata apenas do segundo nome na certidão de nascimento de Stefani Germanotta, mas sim uma homenagem a sua tia falecida em decorrência do lúpus. A faixa título, que tem a pegada country que Gaga derramou por todo esse trabalho, não é questionamento post mortem, mas um diálogo de despedida. É um ter de dizer adeus sem o desejo de deixar ir. Ao mesmo tempo que existe a angustia pela partida, por toda a incerteza que isso envolve, deixar ir representa libertação. É dar a liberdade para quem precisa partir e é entender que os que ficam precisam seguir.


Honestly I know where you're goin'
And baby you're just movin' on
And I'll still love you even if I can't
See you anymore
Can't wait to see you soar


Não é um até breve, não é um já volto, é simplesmente seguir e cultivar as memórias. O amor, assim como a lembrança, não pode ser levado de nós, até porque não são matéria, são a sutileza do nosso ser. 

Muitas músicas rolaram, textos também, mas nenhuma poderia traduzir de melhor forma esse “agora”. A vida é marota, ela nos deixa provar da felicidade e memorizar bem suas nuances, mas ela não nos prepara para a despedida. Como lidar? Cada um aprende com suas experiências, a minha é silenciosa, mas revolta dentro de mim.


Vida que segue...

domingo, 24 de julho de 2016

Led Zeppelin| Aqueles dias que não temos muito a dizer



Ontem eu sentei, mas nenhuma linha saiu. Nenhum toque nas teclas ou qualquer pensamento que fluísse para esboçar um texto. Nada. Com o tempo a gente aprende a respeitar nossos próprios momentos, nossos próprios silêncios. Tem dias que a gente só levanta e sai da cama para viver o inesperado, sem os planos que a sociedade espera da gente. Temos dias que não há muito o que dizer, a gente vai dando um passo de cada vez e vendo no que dá.

Hoje algumas nuances foram diferentes. Acordei e coloquei os riffs do Jimmy Paige para gerar. Se você não ficar louco com os sons do Led Zeppelin precisamos sentar e ter uma conversa. Isso é Rock de primeira linha nível mitológico. O resto é suco Tanjal com dois litros de água. Robert Plant simplesmente causa orgasmos sonoros a cada linha cantada. É música para chutar as portas e sair da friendzone. É Rock faixa etária 18+.

Na Londres de 1968, surgiu, nasceu ou estreou- porque só podemos pensar que o universo já havia conspirado para essa união- a banda formada por Jimmy Page, Robert Plant, John Bonham e John Paul Jones. Levando em consideração que o plano anteriores de Page era ter o jovem Keith Moon comandando as baquetas, podemos pensar que nada poderia ser diferente do que realmente foram os Zeppelins. Moon foi lendário para o The Who e a história do Rock, mas dá para imaginar a banda britânica sem a bateria pesada de Bonham? Tanto não daria, que foi justamente após sua morte que o Led se dissolveu, vindo a se reunir esporadicamente anos depois com Jason Bonham, filho de John, nas baquetas.

Uma música em especial tocou repetida vezes hoje. Since I've Been Loving You foi uma obra prima do Zeppelin, lançada em 1970 no álbum Led Zeppelin III. A composição pertence a Jones, Plant e Page. Com um solo enlouquecedor de Page, que reza a lenda quase desistiu de gravar a música em estúdio, entrou para o hall de uma das melhores gravações do grupo britânico. Tendo influência do Blues e utilizando um amplificador ligado a guitarra de Jimmy, é impossível não querer bater cabeça de tanta paixão ouvindo esse som.


Baby, since I've been loving you, yeah
I'm about to lose my worried mind, oh yeah
Everybody trying to tell me
That you didn't mean me no good
I've been trying, Lord, let me tell you
Let me tell you I really did the best I could


A letra é quase uma repetição da vida. Quem nunca caiu nas artimanhas do coração e se achou o ser humano mais idiota da face da Terra que me condene. A verdade é que a gente tá na vida para essas coisas mesmo. Reza a lenda que o importante é ter saúde. Não acredito que podemos nos dar ao luxo de sentirmos culpa ou de não pregarmos os olhos a cada noite achando que estamos vivendo ilusões delirantes. A paixão existe e normalmente não vem acompanhada de doses de amor próprio.

O Sol pode até estar alinhado com Leão –que grande bosta, alguns podem pensar- mas estamos aqui é para ir no contrassenso e chutar o balde. Um dia o amor próprio chega e a gente senta, cata nossa dignidade no chão e aceita que nossa missão é ser “trouxiane” mesmo. Fazer o que, né?

Eu prefiro fazer as vezes de “sim, eu tentei” do que ficar por aí derramando lamentações de covardia. No meio disso tudo surgiu uma nova playlist para já sair do leito Morfeu sacudindo a vida e juntando os cacos. E até que essas músicas recarregam as energias e dão aquela força para minha Vênus em Aries que anda meio recatada -sim, hoje eu tô bem Maluca dos Signos, porque eu sou dessas- e só beijando mão. No final das contas eu sei muito bem porque ela anda assim. Saudades.


Everybody trying to tell me
That you didn't mean me no good
I've been trying, Lord, let me tell you
Let me tell you I really did the best I could


Entre mortos e feridos, ainda tem o bom e velho Rock N Roll para afogar as magoas em riffs e amplificadores. Sabe o que é bom mesmo? Se apaixonar. Sim, cata mesmo os papeis de trouxa e depois escreve aquele livro de autoajuda ao bom estilo Comer, Rezar e Amar, mas por hora a gente se joga no que pode e vai vivendo o que dá para viver. Porque antes ficar com sorriso besta na cara do que viver nos esconderijos. Amor, paixão, apego, ou o bom e nordestino xodó é coisa para se agarrar e viver. Jogo de sedução cansa, bate uma revolta sometimes, mas é o que dá história para contar depois. Se deixem vivenciar isso tudo, é bom, não mata e no mínimo saímos da dureza fria da vida por alguns instantes.