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terça-feira, 22 de novembro de 2016

Off Topic| Festinha anos 90 na sua timeline

Tenho evitado as redes sociais e só observado mais ao meu redor, falado pouquíssimo e buscando reencontrar comigo mesma no meio de toda loucura que esse ano já foi e tem sido. Mas entre as raras passagens pelo feed de notícias do Facebook, percebi que não vivo na tão exaltada bolha onde existe respeito e preconceito não é tratado como opinião pessoal. As máscaras caíram e cada dia mais as pessoas estão com menos vergonha de dizer que não há nada de mais grave na eleição de Trump, que bandido bom é bandido morto, que Direitos Humanos é coisa para delinquente e Bolsonaro 2018. Todos os pensamentos putrefatos da classe média com síndrome de Estocolmo transbordando em likes.

Sobre a relativização da eleição de Trump: vamos parar de papel de escroto, por mais que Hillary não tivesse a plataforma política dos sonhos, dentro das possibilidades reais de eleição -não no mundo ideal, onde Sanders seria presidente- ela era a única alternativa mais do mesmo. O velho perfil de político ruim, ideias de manutenção dos interesses dos EUA no Oriente Médio e muito, mas muito dinheiro jorrando da indústria bélica feliz satisfeita com o feijão requentado à moda Democrata. Eleger Trump foi um tiro no pé. Ele é um uma surpresa de Smurf que pode custar caríssimo aos valores que a sociedade norte-americana sempre se gabou de defender. Ele aponta para alianças políticas duvidosas e tem discurso incoerente quando o assunto é política externa. Se tudo se resumisse a isso, seria bom. Mas ele não venceu as eleições por visões de igualdade e mudança de panorama na política norte-americana no geral, ele foi eleito por uma parcela de estadunidenses convencidos de que o país passa por uma crise de valores morais e que isso tem alicerçado uma derrocada econômica. É gente que acredita que as palavras estapafúrdias de Trump surtirão efeitos messiânicos. Pessoas que, como diriam os americanos, são o nextdoor. É gente comum, gente de bem e que perdeu as esperanças. Pessoas que perderam casas por hipotecas não pagas, ou que estão vendo suas pequenas empresas falirem por dificuldades no mercado.  O que essas pessoas não conseguem enxergar, é que fazem parte de um sistema caótico e que é programado para auto sabotagem de tempos em tempos. O capitalismo é a piada que mais deu certo na história da humanidade. Gente sem perspectiva e salvadores da pátria sempre rendem histórias catastróficas que depois todos prometemos jamais repetir.

São esses mesmos que votam em figuras messiânicas que enchem a boca para falar que bandido bom é bandido morto, ou soltam o famigerado “leva pra casa” e o ainda mais famoso “direitos humanos só serve para bandido”. Falácia. Países com os melhores índices educacionais tem cerrado as portas do sistema carcerário, mas a nossa burguesia ultrapassada, com publicidade no esquema Cidade Alerta, continua por insistir que a resolução do problema é a construção de mais penitenciarias. É como se eu tivesse tentando enxugar a casa com a mangueira ligada. Ideia pra gente no mínimo mal intencionada (para não dizer que é coisa de gente mau caráter). O que mais assusta é saber que isso não é coisa de gente declaradamente extremista, mas sim daquele seu vizinho gente boa, do seu colega de tempos de escola, aquele primo que jogava futebol de botão contigo. Não é nada extraterrestre, é a realidade onde só existem duas possibilidades: ou eu tô muito maluca e acreditando na existência de coisas impossíveis, como por exemplo existe sim preconceito no Brasil, ou toda essa gente que eu me cerquei a vida toda é tudo imbecil e preconceituosa mesmo e eu vou ter de repensar as parcerias.
No último final de semana foi o dia da Consciência Negra, que em tese seria um marco para problematização das questões de segregação no Brasil. Mas eis que me deparo com inúmeras postagens debochando da data, que é de fato simbólica, ou aqueles que vivem no mundo de Poliana, dizendo que precisa de dia da consciência humana. Minha chave geral desligou aí, gente boa.

Esses são os famosos cagões de regra que acham que tudo é mimimi. Eu pensava que essa galera tinha dormido na virada dos anos 90 e que se perderiam por lá, mas até que eu me deparei com pulseiras de mola colorida nas Lojas Americanas e percebi que entramos num túnel do tempo do capeta direto para os tristes anos que “piada” com negro pode, o PMDB voltou ao poder (saiu algum dia???), FHC é considerado um gênio e José Serra é Ministro. Se essa festinha retrô 90 tivesse parado nas boybands, salto plataforma e no título brasileiro do Palmeiras eu até estava tranquila, mas perceber que todos os discursos sebosos e carregados de falta de respeito, fascismo e estupidez voltaram me fizeram ter a certeza que esse foi o gigante que acordou há 3 anos.

O mais desesperador é notar que esse conjunto da obra pode alavancar a campanha do nosso troll nacional. O queridinho da geração Counter Strike/Paintball tem forrado seu berço de eleitores com muita falta de ideias e um caminhão de asneiras. O que amedronta são os sinais de apatia que já foram dados nas eleições municipais. Quem de fato poderia fazer a diferença não foi as urnas, ou votou na malfadada terceira via –que já sabemos muito bem que não leva a lugar nenhum e que tende a ser cosplay dos podres poderes (leiam Marina Silva e todos aqueles candidatos fofinhos de partidos sublegenda) - e que no final do dia a inércia entendida como pseudo boicote ferrou você mesmo.


O derradeiro desabafo é: se você não tem disposição, coragem ou ambas de ser frente de luta, como são esses jovens que ocupam centros de ensino por todo país, não venha cagar regra. Acho muito engraçado o fato de alguns ficaram dizendo “ah..mas eles só tão lá por farra” ou “isso não vai dar em nada”. Tá bom, expertão/expertona, é tu sentado no teu sofá de casa que vai mudar alguma coisa. E para os que simplesmente abominam as manifestações só lembrem de uma coisa, se meus alunos de 6º ano (com 11 e 12 anos) conseguiram entender que desde a antiguidade que algumas conquistas só eram alcançadas através de rebeliões, e não chamando o rei para tomar um chá, você também consegue entender. 

quarta-feira, 15 de junho de 2016

Off Topic| Qual o problema em enxergar o Higienismo de Haddad?


Nos últimos dias tem se travado um imenso e acalorado debate nas redes sociais acerca da falta de medidas públicas em relação aos moradores de rua em meio a uma das piores frentes frias dos últimos anos em diversas partes do Sul e do Sudeste do país. O número de mortos por falta de acolhimento e tomada de medidas por parte dos governos estaduais e municipais trouxeram à tona algumas chagas que andavam bem escondidas por trás dos panos políticos.

Nesse teatro que é a política nacional acabamos por comprar a ideia de personagens, de fato nós crescemos sobre a cultura novelística de separar as figuras em mocinhos e vilões, fórmula essa que é irracional quando o assunto é plano político e estratégias de poder. Mas quando as cortinas se fecham, ou nas coxias se circula, sabemos muito bem que não há lugar para romantismos. Política partidária não é livro Sabrina ou Poliana.

Entre as grandes questões do momento estão as reações de caráter higienista do atual prefeito da cidade de São Paulo, Fernando Haddad. Enfim, vamos primeiramente deixar algumas coisas claras: discordar de ações de Haddad não me faz menos de esquerda e não existe em mim a menor vergonha em assumir que sim, eu já o aplaudi algumas vezes. Ok, mas o que se desenha agora é tosco, falar em temor à “refavelização” das praças públicas foi como um soco no estômago e se desprende totalmente da visão arraigada ao social e das demandas populares historicamente ligadas à esquerda.

Haddad faz o mesmo caminho que vem sendo trilhado desde o século XIX por todos que se dizem defensores da modernização e da higienização das cidades. Basicamente, essa linha de pensamento se traveste de preocupações com saúde pública e combate a epidemias, mas vou citar dois fatos históricos amplamente conhecidos que foram defendidos por higienistas e que mostram que só há um único combate em meio a essa luta: aos pobres, não à pobreza.

Em seu livro O Quinze, Rachel de Queiroz narra uma das maiores secas que acometeram o sertão do Nordeste. O que talvez não fique claro para os leitores são as condições em que os flagelados da seca eram tratados naquele contexto. A criação de campos de concentração no sertão do Ceará é uma das páginas mal lidas da nossa história. Conter os flagelados que fugiam da seca nessas estruturas criadas pelo governo serviam acima de qualquer coisa para não os deixarem chegar até a capital, que assim como as outras capitais brasileiras da época estavam em busca do “afrancesamento”. Os higienistas davam seus pareceres médicos e sanitários, sobre os “riscos” dessa população flagelada chegando a Fortaleza, mas tudo fazia parte de um ideal que cruzava a eugenia e os valores higienistas.

Alguns anos antes, em 1893, o prefeito Barata Ribeiro mandava pôr abaixo o mais famoso cortiço do Rio de Janeiro em nome da higiene e da contenção de epidemias. O cortiço Cabeça de Porco no centro da cidade do Rio na verdade recebia olhares da especulação imobiliária e daqueles que avistavam ali a “doença” mais temida do século: os pobres. Quando Sidney Chalhoub, em sua obra prima Cidade Febril narra os acontecimentos que levaram até a destruição do cortiço e os desdobramentos das políticas higienistas no final do século XIX e no início do XX, fica claro que assim como a febre amarela e a varíola, a pobreza também era uma doença aos olhos dos gestores “modernos” daquele período. Ser pobre e negro era ser apartado dos ideais que se sustentavam naquele momento. A preocupação com a febre amarela não se estendia para a tuberculose. Motivo? A tuberculose acometia em maior número a população negra.  

O Higienismo é uma visão liberal e vem atrelada às ditas gestões modernas que beberam na fonte das reformas de Haussmann, em Paris. Esconder o pobre, o negro, o mendigo, a criança sem-teto que vaga pelas ruas das grandes cidades é passar a impressão de que ali tudo está bem. A morte dessas pessoas por “questões climáticas” é a causalidade do destino que esses gestores querem as deixar à mercê. Dessa maneira, eles se esquivam de questões sociais graves, como a falta de estrutura de acolhimento para as comunidades carentes das metrópoles e “limpam” seus redutos políticos fazendo lobby pra burguês ver.

Por fim, é justamente por ser de esquerda que estou escrevendo esse texto, estamos aqui para dar voz, dar espaço para as demandas das minorias, principalmente quando aqueles que disseram estar no poder por elas se calam  e, pior, as matam por omissão.