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terça-feira, 4 de setembro de 2018

Caetano Veloso | Penso em ficar quieto um pouquinho



Depois de “parir” uma dissertação que se apresentou para mim desde o início como um rito de passagem, alguns elementos passaram a ser componentes da minha própria descoberta, do que sou como cientista e ser humano. A solidão do processo de escrita nos coloca para pensar muito além do texto, mas no derredor, em si e no outro. É um tempo silencioso, onde é possível quebrar e remendar nossos conceitos. A gente senta para escrever as linhas do papel e termina por se reescrever.

Entre essa valsa que é um procedimento de construção e desconstrução, passei a dançar no ritmo de Caetano. Decidi passar a escutar um álbum diferente da sua discografia todos os dias na jornada de escrita durante as últimas semanas. Ouvi músicas que não conhecia, relembrei canções que há muito não ouvia e ressignifiquei meu ritual em frente ao computador. O silêncio tornou-se diálogo.

Penso em ficar quieto um pouquinho
Lá no meio do som
Peço salamaleikum, carinho, bênção, axé, shalom
Passo devagarinho o caminho
Que vai de tom a tom
Posso ficar pensando no que é bom

                Nu com a minha música foi um desses diálogos das madrugadas. Presente no disco Outras Palavras (1981), a canção foi escrita durante uma turnê onde Caetano percorreu o interior do estado São Paulo e é claramente a reflexão de alguém que se deparava com uma serenidade ideológica e a certeza que não tinha mais que provar nada para ninguém. Nas linhas esboçadas no quarto de hotel em Presidente Prudente, Caetano indicava que não precisava seguir as bandeiras de ninguém e também não precisava ser seguido, se afirmava muito certo que as verdades são individuais e que cada um que carregue sua bagagem.

                Em 2016 experimentei o sabor agridoce da vida. Eu que já conhecia o amargo e o ácido, e que estava começando a me acostumar com o doce da vida, me deparei com um novo vazio e que trouxe consigo nuances que eram até então desconhecidas. Em meio a tudo isso, terminei uma fase da minha vida acadêmica e já me vi lidando com outra. Nem posso dizer que foi um atropelo, porque hoje não saberia nem dizer como todo processo ocorreu, logo nem sou capaz de nomear o que aconteceu. Eu só fui seguindo um fluxo, uma força muito maior do que eu mesma e que foi me guiando diante do completo blackout mental que eu me encontrava.

Deixo fluir tranquilo
Naquilo tudo que não tem fim
Eu que existindo tudo comigo, depende só de mim
Vaca, manacá, nuvem, saudade
Cana, café, capim
Coragem grande é poder dizer sim


           Os dois anos foram passando e com eles parágrafos que se moveram com a força de muitos. Não falo isso dá broca para fora e por sensacionalismo, mas de fato o trabalho que me propus fazer só se tornou papel por todos que direta ou indiretamente me motivaram e guiaram-me durante o solitário processo de escrita. A minha “coragem grade”, como diz o compositor de Santo Amaro da Purificação, foi dizer sim. Foi dizer sim para minhas impossibilidades, aceitar o que não estava alcançável e me acolher diante de tudo isso e aceitar que estaria tudo bem em não ser “perfeita”. O mundo acadêmico espera ações de super-heróis quando na verdade só nos dá espaço, apoio e liberdade para sermos figurantes em meio a citações e curriculum Lattes. A Academia não foi feita para os sonhos, idealismos e devaneios, mas sim para aprumar todos em uma forma digna de regras da ABNT. O mundo acadêmico tem tolhido mais do que libertado, mas mesmo assim tende a cobrar de nós o novo, o inédito e o inquestionável.

         E por não pensar que devo fazer média para “as pessoas da sala de jantar” é que quero ficar “nu com a minha música”, pelo menos por um curto espaço de tempo. O que se espera no mundo acadêmico não é respeito, mas subserviência o que definitivamente não nasci para ser. Carrego comigo esse “defeito” de fábrica que me impede ser superficial em meio à pessoas rasas.

            Não há de ser por muito tempo, até porque meu amor pela História e a certeza que precisamos ser a subversão entre os que pregam uma pseudo intelectualidade que mais aparta do que constrói novas vias de conhecimento. É uma pausa para mim, é um silêncio externo para acalmar uma barulheira sem tamanho que se formou nos últimos anos dentro de mim.

           Trabalhar com ciência e construção de conhecimento em nosso país é tarefa árdua. Em momentos onde se prega a velha austeridade neoliberal que mais parece disco arranhado se repetindo nos tempos de crise, os meios de fomento à pesquisa são os primeiros atingidos, como se fossem os supérfluos da lista de compra da nossa mãe na hora de passar a “feira” no caixa do supermercado, essa tarefa se parece ainda mais hercúlea. 

          No Brasil, ciência é artigo de luxo e até por isso deve ser controlada por uma meia dúzia de pessoas que a tratam como negócio. Em meio a esses negócios só há espaço para as Ciências Humanas e Sociais quando convém, quando contrário, os cientistas de humanas e sociais são rotulados “vagabundos” e filiados a “doutrinação comunista” (quem me dera...). O incêndio do Museu Nacional desnudou não apenas todo tipo de discurso (dos relevantes e dos incompromissíveis) , mas também trouxe à tona a sensação de que estamos nadando contra uma correnteza e que ela exige de nós uma saúde mental que no momento eu não disponho. Sendo assim, até breve, Academia. 

        


terça-feira, 23 de agosto de 2016

Aquelas canções que você, universo, fez pra mim



Música é algo absurdamente familiar para mim. Por mais que eu divague sobre isso ou tente entender qual o sentido ou como essa relação surgiu, nunca vai ter uma explicação concreta. Pouco me importa. Música tem essa subjetividade intrínseca, as entrelinhas não escritas, mas contidas de alguma forma entre os versos quando eles se deparam com nossos ouvidos e enchem nossa mente. Música não é raciocínio lógico ou formula matemática, tá para além de axiomas e postulados. Música é uma enorme porção de inspiração de alguém e conspiração do universo. Ela chega e nos toca deixando a mais pessoal das mensagens: eu te traduzo, pode ficar em silêncio.

Quando as canções passam a fazer parte do nosso cotidiano desde muito cedo, podemos traçar um caminho a onde cada passo é seguido por uma nota, um riff e uma melodia. As letras são as nossas falas em vozes múltiplas e que nunca saíram das nossas gargantas, mas correspondem fielmente a cada pensamento que circulou em nossa cabeça e poderia tranquilamente ter saído por nossa língua. As músicas parecem ser ladrilhos assentados na estrada da vida.

Marisa Monte foi a pedra fundamental. Na construção de uma consciência musical que começou no carinho de bebê, ela foi a que chegou primeiro, ainda para me ninar. Para mim, ela sempre será música afetiva. Sei lá, tem aquele embalo de berço. É sono de criança de colo após sopinha de feijão. Não dá pra explicar, porque rememora um período para qual eu retornaria sem pensar duas vezes. Uma fase sem atrelo a responsabilidade, sem traumas e desconhecendo a maldade humana. Minhas melhores memórias têm som de Cor de Rosa e Carvão.

Os primeiros passos de um ser humano podem ser errantes, mas definem os caminhos que ele tende a querer seguir. Tomo nota disso quando percebo que o começo da caminhada veio permeada de regionalismo. Eu enterrei meu umbigo na minha terra. A poeira do chão do Nordeste grudou na minha sandália e não há de sair nunca. Parece infantil, mas Frevo Mulher, na voz de Amelinha, me emociona tanto. É abstrato e nem eu consigo transpor isso para frases. Só escuto.

No sentido de pertencimento, Galope Rasante, de Zé Ramalho, também bate forte aqui dentro. Me remete ao caminho sinuoso até o interior dos meus avós. Era exatamente o tocava no carro durante essa viagem. É aquela fase da vida que a gente desconhece a real importância das coisas, incluindo a parte que odiávamos fazer esse caminho que hoje fica só na lembrança.

Foi nessa época também que eu me deparei com as antigas fitas k7 da minha mãe e do meu primo Toni. Uma em especial era tocada frequentemente, com direito a performance de lipsync com o controle remoto. Lado A e lado B tomados por uma gravação dos hits do Guns n Roses. Agora a banda virou coisa pra gente poser que acha que sabe alguma coisa de Rock, talvez seja o que a galera velha guarda também sempre pensou sobre eles, mas para mim naquele momento era uma descoberta incrível. A gente quando não dá a sorte de começar a vida por Led Zeppelin, tem de aprender a curtir atirei o pau no gato.

Minha adolescência foi um tumulto que reverbera até hoje. Tento lidar com os ecos dos meus 13 anos. Foi de uma turbulência e magoa tão absurda que Tristeza Pés no Chão, de Clara Nunes, se tornou a tradução mais pura, nua e cortante dessa época. Escutava repetidas vezes, porque as vezes a gente só quer sentir, mesmo que o sentimento que venha seja o da dor.

A vontade de correr chutando lixeiro era seguida pela guitarra de John Frusciante. Otherside é um clássico de quem se apaixonou pelo rock desbocado do RHCP no final dos anos 90 e começo dos anos 2000. Era a tradução de uma rebeldia com causa, mesmo que silenciosa e não aparente, mas que desengasgava na voz de Anthony Kiedis. Era uma rebelião interna que explodia no rock de skate da Califórnia.

A percepção da vida como algo muito maior veio com uma iluminação. Cada um tem um modelo, um padrão ou alguém que é a quebra dos padrões, em que você olha e pensa “é isso que eu quero ser quando crescer”. Na cabeça de uma criança vheada, Boy George é o maior dos nirvanas que se pode ter na vida. Já contei a história aqui em outro post. Ele não foi como uma lâmpada que se acendeu na minha cabeça, mas sim uma corrente de pisca-pisca inteiro. E It’s a Miracle é o hino. Amém.

Se Boy George foi a figura inspiradora, foi com Rihanna que sai de Nárnia para mim mesma. We Found Love, que também já foi motivo de postagem anteriormente, é uma ode a “bateção” de cabelo tão necessária em algum momento da vida. É música de liberdade, de corpo e espirito.

Eu também redescobri a MPB na sua essência. Foi quando voltei ao Bê-á-bá pra reencontrar a Bossa Nova. Estrada do Sol, que é uma composição de Dolores Duran e Tom Jobim, é de uma leveza tão necessária para quem já carregou tantas pedras que a vida atirou. É marco de mudança, de giro de chave. Caminho em direção a um horizonte que a gente almeja, mas ainda não enxerga, mas continua na estrada.

Uma das paradas, em meio a toda essa estrada que percorri e continuo percorrendo, foi a cidade de São Paulo. Foi o palco dos dias mais intensos da minha vida e o começo de um ciclo que se estende. Alice Caymmi foi de onde recomecei esse blog. Iansã, na interpretação dela, sempre vai ser música de reencontro com meu coração que foi bater me outro plano. Sempre. Mas os dias em São Paulo ficaram marcado por Como Vês. Não lembro porque, mas sei onde. Tem som e cheiro da Avenida Paulista tomada de gente aos domingos. Com sabor de café na Stabucks em frente ao Hcor após uma caminhada solitária da Haddock Lobo até o Paraíso pós chope na Bella Paulista. Dá uma saudade danada. Que dói, do medo das lembranças que vou reencontrar por lá, mas a cada frase cantada por Alice, eu quero voltar para sentir o ar queimando a narina novamente nos caminhos inclinados até a Paulista. São Paulo, só em menção, movimenta minha cabeça.

Não teve hiato pós fevereiro. Teve um turbilhão de coisas, não exatamente conectadas, mas cheias de significados. O interessante foi ter de lidar com alguns fechamentos de portas e a abertura de outras novas. Algumas pessoas brotaram se maneira linda na minha vida, em um jardim que a dor e minha confusão interna custa a regar, mas que recebo com uma gratidão enorme. Foram momentos de Rapidez, de fechar e abri de olhos e se deparar com o novo. Eu que nunca fui acostumada com o novo, tenho me encantado com suas nuances. Meia Lua Inteira, interpretada por Caetano, simboliza isso, a chegada do novo, que é belo e astuto, mas que entorpece.

 E sabe o que eu aprendi no meio da jornada? Que tudo é mais fácil quando a gente encara a vida como um rolê. Uma caminhada sem pretensões, sem vaidades, mas plena. Sendo guiado pelos instintos e pela sabedoria moldada pelas quedas que sofremos no meio da estrada.


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segunda-feira, 1 de agosto de 2016

Caetano Veloso| Rapidez



Os dias passaram e as férias acabaram. Junto com tudo isso veio uma ressaca criativa, um atropelo de pensamentos e uma fadiga de escrita. Não sei. Não veio nada mesmo, nem uma palavra na mente para dizer um oi. As ideias estavam distantes do jorro e bem perto de um silêncio ensurdecedor. Deixei para lá e fui dormir esperando ter algo para dizer a mim mesma, porque antes de qualquer coisa, eu escrevo para mim. Sim, escrevo para organizar as ideias e entender meus próprios sentimentos. Sabe as vezes, quando o turbilhão toma conta, eu sinto a necessidade de transcrever tudo, é como se cada flash de memória ou extensão de pensamento ganhassem formas, curvas e sombras. Eu escrevo para desanuviar a mente.

Me acostumei com a inércia das pessoas, fazer tudo no meu tempo e ditar meu próprio ritmo. Sempre foi assim. Acho que foi um lugar tão natural na minha vida, a posição de responsabilidade e de ditar ritmos para os que estão comigo andarem, que bateu um cansaço. Não sei se você me entende, leitora ou leitor, mas eu peguei abuso de me enfiar em relações em mão única. Chega uma hora, que mesmo que você seja um ser muito seguro de si e muito cheio de “eu mesmo”, você vai sentir a necessidade de parar e perguntar “o que eu faço agora? ”. Pois bem, não sei se foi reflexo de todas as rasteiras que o universo me passou, ou se é uma fase, mas meu ar imperativo deu tchau.

Das coisas da vida que mais me trouxeram fascínio e desnudaram reais belezas para mim, essa permissão de enxergar o “eu mesmo” nos outros. Tem pessoas que tem isso em si, chegam e roubam todo ar por onde andam. Exalam personalidades únicas e intempestivas. São de uma astúcia alucinante e de uma aura fugaz. É gente de rapidez lucina.


Meia Lua Inteira sopapo
Na cara do fraco
Estrangeiro gozador
Cocar de coqueiro baixo
Quando engano se enganou...


Para essas almas envoltas no 220v e que me deixam sem saber a próxima palavra a dizer, eu dedico os astros. Em 1987, no disco Estrangeiro, Caetano Veloso trabalhou com um verdadeiro squad e nos presenteou com uma obra feita a 6 mãos, juntamente com Peter Scherer e Arto Lindsay. Em 9, das 10 faixas do álbum, a percussão esteve sendo orquestrada por Naná Vasconcelos ou Carlinhos Brown, eixo Recife-Salvador que deu o tom certo e cercou o trabalho de originalidade e ritmo. Mas foi justamente a nona música que me trouxe para esse texto, uma letra e arranjo de Brown que, para mim, definem com sons alegres essa sensação de mergulho de apneia que essas pessoas causam.

Meia lua inteira é uma música de Carlinhos Brown, e que também teve uma regravação interessantíssima do Chiclete com Banana nos anos 80, porém na minha memória musical é a voz de Caetano que sempre rodeia. Não sei se são os jogos de palavras, o ritmo ou as duas coisas juntas, o certo é que tenho sempre a sensação de levar uma rasteira e ficar admirando o céu de boca aberta. Não é uma daquelas músicas cheias de “pra que isso” e significado, é coisa que remete a roda de capoeira onde algum bobo vai rodar.

Tem pessoas que a gente olha e são translúcidas, enxergamos com clareza e sabemos o próximo passo. Mas outras são enigmas ambulantes, nos deixam perdidos no meio da roda e nos passam o “rodo” sem nem sentirmos. Saem e não vimos nem de onde vieram. É gente que passa, toma as palavras e somem antes que você possa sonhar em responder.

Mas sejamos bem sinceros, tem momentos na vida que quase pedimos para levar essas porradas, não é? Principalmente quando sabemos que parte de nós ficou inerte, ou quase morta durante algum tempo. É quando a gente se joga no trilho sabendo os segundos que faltam para o trem passar. É loucura para gente consciente do que é a dor.
                      


PS.: Essa música, esse texto e minha mente, que são esse eterno ajuntamento de delicadeza e pulsão, vão dar forma, corpo e alma para esse EU visceral em mais dois textos. No total serão 3 textos, 3 canções e um EU traduzido e interpretado por mim. Rapidez é a forma, o jeito, a nuance que me inquietou a escrever esse texto. A pessoa elétrica a quem agradeço por sempre me deixar sem saber o próximo passo, a próxima palavra e me render bons momentos de escrita e canções. 

quarta-feira, 13 de julho de 2016

Playlist| Uma playlist para correr da bad



Seguindo a linha de pensamento que a música cura, estamos aqui para dar um chute na sua bad. Porque é julho, temos férias e não estamos em condições de perder tempo. Não estamos aqui para fazer ode as dores de cotovelo e muito menos lobby para os dias ruins. Sim, os dias ruins existem, são até necessários para reflexão e a busca por algo que a gente não presta atenção no barulho da euforia dos dias bons, mas se afundar na tristeza, principalmente quando essa tristeza tem nome e telefone, não está valendo.

Eu tenho uma preguiça grande de montar playlist, porque minha memória é terrível, então eu nunca consigo fechar imediatamente uma seleção de músicas. Por incrível que pareça, para quem acompanha o blog, eu sou péssima para indicações. Eu nunca lembro ou sei o que dizer imediatamente. Mas com um pouquinho de calma e boa vontade a gente monta uma playlist para todo mundo se amar no final do dia.

Essa seleção, em especial, tem CEP. E como eu não queria ser repetitiva em falar e escrever, resolvi que mandaria as energias e coraçõezinhos de Panda em forma de músicas. A gente faz o que pode, né mores? Se pudéssemos dar um grito no ouvido das pessoas, daríamos também. Mas vamos no amor, porque tem muito disso envolvido.

Drake abre as porteiras como Hotline Bling. Eu poderia acordar dançando todos os dias com essa música. Não sei vocês, mas tem gente que deixa as pessoas bem bobas assim, querendo acordar com musiquinha animada –olha que heresia... a taurina querendo acordar- A sessão continua com Rihanna e Work, porque estamos nessa vida para enaltecer a rainha. Demi Lovato, Miley Cyrus, Minaj e Beyoncé continuam na pegada do “vamos curtir, porque o resto está difícil”.

Caetano, Gil, Bethânia e Gal chegam para mudar o tom da conversa. A lista vira conversa ao pé do ouvido, porque as vezes é difícil se fazer entender. Estamos aqui esperando a deusa Ártemis aguçar a rapidez dos pensamentos. Muito Obrigado Axé é como um mantra em meio a toda agitação, de canções e da própria vida.   

Minha Lua em Peixes aparece sorrateiramente nas vozes de Caetano e Gadú. Rapte-me, Camaleoa é uma abertura de sentidos impressionante, não é coisa para iniciantes, é música para sentimento bem adulto.

Os amados e animados anos 80, que eu só posso viver musicalmente, vem com o new wave do Bow wow wow e sua I want candy, mas é com Cyndi Lauper que a festa acontece. Quem acha que o Girl Power é coisa de Wannabe para cá, nunca vai saber o que é sentir liberdade ao ouvir Girl Just Wanna Have Fun.

Enfim, foi uma playlist diversa, cheia de ondulações que nos levam desde a agitação até os momentos que a gente só quer falar algo ao ouvido. Mas acima de tudo, essa é uma lista para dar um tapa na cara da tristeza e se recusar a perder os dias ensolarados. E se faltar o sol, abra um guarda-chuva. Não estamos em condições de ficar de boca aberta esperando a vida passar.


sexta-feira, 24 de junho de 2016

Playlist| A playlist para um dia agridoce



Tem dias que a gente não sabe o que dizer. Hoje eu fiquei sem palavras. Foi um dia com sabor estranho, diferente. Teve outros sons, outras cores, e nada do que estava planejado nesse espaço/tempo aconteceu. Experimentei minha própria companhia, sorri sozinha. Me dei o direito ao ridículo e chorei como criança que descobre a vida pela primeira vez. Foi um dia agridoce.

A inquietude que dominou minha manhã me levou a oscilar entre Cultura e Civilização, de Gal Costa e o álbum Dois amigos um século de música, dos geniais Gil e Caetano. De um lado um espirito querendo vibrar bem alto ao som psicodélico de Gal. A outra parte de mim queria serenidade. Hoje foram vários anos em um dia. Foi como estar dentro de um labirinto em mim buscando não a saída, mas um começo. Tudo muito intenso, tudo muito louco, tudo muito agitado.

No caminho pra casa e na expectativa do almoço com as companhias mais lindas que a vida poderia me presentear, fui ouvindo Rihanna. We Found Love sempre será a música que me leva de volta para 2012, me joga para meu descobrimento pessoal. Um dia preciso escrever sobre essa música e a que ela me remete. Mas por hora, podem saber que ela significa liberdade para mim.

Uma parada no supermercado. Agitação, filas e treta no estacionamento, era o prenúncio de que os planos tomariam outros rumos. Sai de lá. Olhei para o celular e vi uma série de mensagens nas redes sociais. Eu sabia o que elas queriam avisar. Fechei os vidros e me permiti. Alice Caymmi cantou Iansã e eu desejei poder ter meu pai Tiago de volta porque um dos dias que ele mais sonhava havia chegado. Como um raio é intenso, me deixei fluir. Chorar não é algo fácil para mim, mas simplesmente corriam lágrimas no meu rosto e deixei cair uma por uma até que eu tomasse novo fôlego. Cheguei em casa.

Não dava para cozinhar. Eu só poderia ficar sentada na poltrona, atônita, e tudo que eu desejei foi um abraço. Não deu. Quis o destino, que é capcioso, que eu ficasse comigo mesma. Enquanto cozinhei meu almoço escutei Bethânia e Ivete Sangalo se derramarem com Muito Obrigado Axé. Restaurei as forças.

Me dei a chance de sorrir. Assisti as bobagens e cafonices diárias da TV. Me senti viva. Foi uma sensação única. Foi como permitir pequenos prazeres, sem culpa. Zero, de Liniker, tocou e eu tive doces e dourados pensamentos. Me fez pensar sobre uma Vésper feroz que agita minhas ideias. Me banhei e me deixei cochilar.

O dia que planejei foi diferente do dia que vivi. Não podemos cobrar tanto da vida, as pequenas felicidades são vitorias diárias em meio a tantas agruras. Um novo caminho se projeta, e mesmo que eu ainda não possa mensurar aonde tudo isso pode me levar não quero o alvoroço ou o medo do que não se vive. Tenho pavor da presunção humana em definir as rotas do futuro como se fossem estradas de ferro. A vida é cortada por caminhos diversos. Ora é asfalto, leve e liso. Mas também pode se apresentar como rotas lamacentas. Às vezes a vida tem som de festa, por vezes prefere o silêncio. O sabor, esse nunca será o mesmo. Ele é acentuado por nossas aflições e euforias. Quando tudo isso se encontra, surgem os dias agridoces. 

sexta-feira, 10 de junho de 2016

Jaloo| "Em átomos, palavras, alma, cor"


No álbum dos Doces Bárbaros, em 1976 uma canção soava profética. Teve até quem dessa a ela ares apocalípticos, mas nada poderia parecer mais lindo e mais brasileiro. Um índio também foi faixa de um dos melhores discos de Caetano, Bicho, em 1977. 40 anos depois, a profecia de Caetano tomou forma, som e ritmo, ou como a própria canção já dizia “Em átomos, palavras, alma, cor”.

O índio de Caetano desceu de fato de uma estrela, bem em cima do Pará. Foi iluminado pelo tecnobrega, as aparelhagens e fez de todas as referências locais a ponte para encontrar algo muito maior: a sonoridade própria. O paraense Jaime Melo deu vida a essa persona única e com uma musicalidade transcendente. Jaloo nasceu parido de um misto de aparelhagem, MPB e Bjork, mas se engana quem acha que artisticamente é apenas isso.

Virá
Impávido que nem Muhammad Ali
Virá que eu vi
Apaixonadamente como Peri
Virá que eu vi
Tranqüilo e infálivel como Bruce Lee
Virá que eu vi
O axé do afoxé Filhos de Gandhi
Virá

Jaloo é um choque visual e uma caricia sonora. Ele não é o obvio, mas também choca por não ser algo que nós não poderíamos esperar da música brasileira. Ele choca por ser síntese de tudo que somos, como historiadora enxergo ele como uma das mais belas personificações da mestiçagem brasileira. É tudo que nós já conhecemos, mas ao mesmo tempo é novo. Ele é um soco no estômago, por ser tudo que parte da nossa sociedade quer jogar para debaixo do tapete. Ele é um retrato da construção e da desconstrução da nossa sociedade.

Insight foi como ele chegou até mim. Luiza Possi regravou em uma versão linda, mas burocrática, porém foi daí que vi o original. Eu fiquei alguns segundos tentando processar as imagens do vídeo, porque sempre fui esteticamente atraída por figuras que a maioria da sociedade consideraria “exóticas”, mas não acho que essa palavra se encaixe, nem em Jaloo, nem para as taitianas de Gauguin. É um conceito superado e arraigado com o pensamento do XIX. Jaloo é arte.


Um índio preservado em pleno corpo físico
Em todo sólido, todo gás e todo líquido
Em átomos, palavras, alma, cor
Em gesto, em cheiro, em sombra, em luz, em som magnífico


Mas o meu grande impacto foi com o vídeo e a letra da canção Last Dance. São quase 5 minutos de close up, em um rosto de uma expressividade assustadora e de beleza sem conceito. Cabeça mergulhada em algo gelatinoso, música profunda e com gosto de final de linha.

A atual geração da música brasileira tem uma estética própria, a geração Tombamento, liderada por Liniker, Karol Conká, Dalasam e companhia afronta os padrões instituídos pela heteronormatividade e todos os valores construídos pela burguesia intelectualmente falida – ou seria natimorta- desse país. Conceito de gênero sendo tombado e tudo que poderia empoderar uma geração que carece de referências. Jaloo não anda a largo dessas questões, muito pelo contrário, ele soma nesse diálogo. Sendo que seu impacto plástico é, na minha opinião, de uma provoação aos sentidos muito mais intensa.


E aquilo que nesse momento se revelará aos povos
Surpreenderá a todos não por ser exótico
Mas pelo fato de poder ter sempre estado oculto
Quando terá sido o óbvio


Eu poderia ter partido para entender Jaloo apenas a partir das próprias canções dele, mas seria impossível defini-lo melhor do que Caetano o fez 40 anos antes de Jaime Melo explodir nossa mente tomando a forma de Jaloo. Ele é a melhor tradução da Antropofagia modernista, ele é a cara e o som que o Brasil tem, mas ainda se “assusta” quando vê. Mas obrigado, Jaloo, por sua delicadeza caótica. Obrigado por não sermos capaz de conceituar você, obrigado por estar acima da nossa mania de nomear e conceituar tudo. Obrigado por não ser o fast music que nos engolimos em doses cavalares, precisamos de você em doses homeopáticas, como um ritual de entender a nós mesmos. 

domingo, 3 de abril de 2016

Doces Bárbaros| Faca Amolada


"Agora não pergunto mais pra onde vai a estrada
Agora não espero mais aquela madrugada"

Na virada do ano eu estava conversando com meu Pai e ele perguntou "Enjoada, quais os planos para 2016?". A resposta foi simples, não deixar nada pra resolver depois e ser muito clara nos meus objetivos. Resumindo: não deixar arestas.

 Sempre fui uma pessoa muito dura, comigo mesma e com os outros, mas minha timidez sempre foi um empecilho para falar a metade das coisas que circulavam minha mente. Mas isso acabou. Não lembro bem qual foi o momento em que a chave mudou o giro, só sei que tem sido terapêutico. E escrever sobre esse processo tem evitado minha prisão e a hospitalização de alguns outros.

 Em 1975, no álbum Minas, Milton Nascimento e Beto Guedes interpretaram a canção que poderia ser o hino para esse momento de virada de mesa. A música sob encomenda. Fé cega, faca amolada é um desses clássicos que uns fazem e outros consagram. Os Doces Bárbaros fizeram essa música ter sentido pra mim.

Deixar a sua luz brilhar e ser muito tranquilo
Deixar o seu amor crescer e ser muito tranquilo

Desde dezembro venho passando por um longo processo de autoconhecimento, algo que transcende esse plano e que nem é necessário ser explicado. Basta a mim viver esse momento. Dentro de todo esse processo de aprendizagem veio a sensação de que algumas coisas não merecem ser valorada como antes, e principalmente, para a manutenção da paz interior.

Dentro de tudo isso tenho exercitado a minha paciência contra a espetaculização. Sabe, eu tenho tido um sono, um cansaço, uma preguiça para os shows alheios. As vezes tenho vontade de dizer “SEJE MENAS”, mas quando a gente pensa em quantas pessoas não mereceriam carregar essa dor na comanda, aí eu desisto. Não é covardia, é o amar algumas pessoas mais do que amo a mim mesma. O que talvez pareça destoar do meu discurso de amor próprio, mas na verdade é que existem amores para além da explicação humana. Esses merecem o nosso recolhimento e devoção.

Isso me faz pensar na tradição iorubá. Me faz pensar sobre Obá. O quanto nós engolimos o orgulho e nossas dores para não ver doer em quem amamos. Mas ao mesmo tempo, isso não pode esconder o fio da nossa espada, e se preciso for, vamos descer essa faca amolada por entre o peito de quem não respeita nossas dores. É muito palhaço pra pouco circo.

Quando a gente se acha no mundo ficamos destemidos. Cheguei à conclusão que sou muito abençoada por ter a oportunidade de encontrar essa ancestralidade e através disso encontrar a mim mesma. Não acredito que isso tem sido algo de todo bom para os que me rodeiam, porque agora precisam aprender a lidar com alguém muito mais posicionada. Tenho lado e tomo partido.

Plantar o trigo e refazer o pão de cada dia
Beber o vinho e renascer na luz de todo dia

No final das contas, eu apenas estou vivendo o que projetei, aqueles desejos de final de ano que nós sempre pensamos que vai ser como a dieta da segunda feira. Mas dessa vez aconteceu. E eu não passaria na frente da minha própria espada. Os dias renascem, a vida também. Mas a alma, ah, alma... essa única, e carrega consigo o aprendizado de seus ciclos.

E no final de tudo, aprendemos que:
Menos espetáculo, mais amor. Menos circo, mais verdade.                              


Para Dona Kaya e seus cabelos prateados, que me fazem ter uma vontade extra de acordar todos os dias.

sexta-feira, 18 de março de 2016

Contracultura| Músicas de Aço para Tempos de Chumbo


Domingo, dia 13 de março de 2016. Fiquei aqui, de bobeira, nesse sofá no qual estou sentada agora a escrever. Foi um dia apático e eu não queria nada mais além de ouvir música e assistir futebol. Essa tal de depressão é uma escrota preguiçosa.

Nessa toada, saí escutando tudo que tinha direito. No sábado a Liebe/General Ana Seerig já havia me feito escutar Golden Boys, me tirando da inercia em que andavam meus dias musicais. Sim, eu estava há 2 meses ouvindo Ella Fitzgerald e Beatles. Não que isso seja motivo para me auto achincalhar, mas já estava matando minha curiosidade musical. Quando se passa tanto tempo ouvindo ases da história da música, você passa a achar que nada mais faz sentido, aquilo já é bom demais para ser trocado. E nisso seu pendrive fica nessa mesma pegada por meses.

Em meio aos acontecimentos do fatídico e depressivo dia 13, quase que instintivamente parti para o Youtube numa busca desenfreada para tudo que remetesse a musicalidade no Brasil entre os anos de 1968 e 1974. Então o que escutei o dia todo foram músicas de aço para tempos de chumbo.

Minha viagem progressiva começou por Mutantes, passou por Caetano, Gal, Bethânia e Secos e Molhados. Desaguou em Milton Nascimento, Macalé, Ave Sangria e Quinteto Violado. Os Novos Baianos, Alceu e o Som Imaginário também estavam lá. Tudo me levou para uma órbita diferente, onde a guitarra elétrica e os sintetizadores davam conta de toda força existente em forma de música. Foram anos loucos, onde tudo que foi produzido traduz exatamente o contrário do que se era exigido pelo governo ditatorial. Era um recado.
A semana tem passado, e estranhamente tudo se encaixa como peças de lego. Em meio a dias turbulentos na política nacional, só consigo pensar se as pessoas nunca ouviram essas canções, ou se sabem em que contextos elas foram feitas. Pois bem, foi para isso que estudei, para escrever narrativas históricas.

É uma narrativa simples, mas com cenas de terror. E peço, por favor, que sigam a ordem cronológica dos álbuns para perceber a musicalidade da tensão. O anjo da morte passou por aqui em 68, e sua jornada foi intensa e duradoura, 74 parece não ter terminado.

Acho apático, egoísta e de um retardo sobre-humano achar que “minha família viveu na ditadura e não aconteceu nada com eles. Era gente de bem, não bandidos”. Pois bem, fico feliz por sua família, eles não entraram na estatística das prisões, sequestros, torturas e desaparecimentos. Eles não tiveram dentes quebrados, corpos dilacerados e filhas estupradas por agentes “da lei”. Eles não tiveram de fugir com seus filhos pequenos para sobreviverem, não precisaram que seus filhos presenciassem seus espancamentos, e muito menos, que seus filhos crescessem órfãos de pais sem túmulos. E fico triste que você não possa perceber que mesmo não sofrendo tortura corporal a sua família sofreu o maior dos abusos, se tornou acéfala. A geração que viveu 68-74 e saiu de lá achando que tudo estava ok é uma geração que não estudou história, não porque quiseram, optaram, mas porque foram proibidos. Uma geração que teve a Filosofia trocada pela “Moral e Cívica” e acha que foi a mesma coisa. Uma geração que tem medo de receber um “Por que? ”. Faça um teste, tente questionar essas pessoas, o “por que? ” as cortam como punhal.

Eu cresci em uma dessas famílias que “nada de mal fizeram para apanhar da ditadura” e que muitas vezes desmerecem a luta daqueles que lá estiveram, na frente de batalha da democracia. E sinceramente, me sinto orgulhosa de que alguns elementos na minha formação me fizeram nadar ao contrário.

Sabe quando E.P. Thompson falou que a classe operária estava lá em seu nascimento? Pois é. O mitológico historiador inglês só queria nos dizer que começamos a lutar juntos quando percebemos o quanto temos em comum, como nossas experiências nos unem. Acho as vezes que fica difícil para alguns indivíduos conseguirem respeitar a luta alheia. Eu pareço ouvir meu Pai Tiago dizendo “Alice, se tem uma coisa que aprendi com meu pai e posso ensinar a você é, nunca desmereça a luta de ninguém e nunca esteja do lado dos opressores”.

Aprendam, jovens, esses álbuns não são feitos de músicas. Eles são feitos de manifestos. Não fiz esse post para exaltar músicos, cantores, produtores... fiz em honra de todos aqueles que ousaram sobreviver. Isso é música de sobrevivência. Ouça os riffs, na verdade eles são gritos.

Para José Roberto Gomes, por ter ousado sobreviver e por através de seu filho ter me ensinado tanto. Muito obrigado, Vô. A sua voz também pode ser ouvida em meio a esses manifestos.

https://www.youtube.com/watch?v=KIiwbHqtb7w TROPICÁLIA OU PANIS ET CIRCENCIS 68


sábado, 12 de março de 2016

Alice Caymmi| O que aprendi com Alice Caymmi


Depois de 2 longos anos, que mais poderiam ser chamados de décadas, o blog voltou. A ausência foi um misto de falta de tempo, falta de coragem e falta de vergonha na cara. Hora de deixar para trás o peso das mãos e colocar a cara no SOL!!!

Em dois anos, eu poderia dizer que, acabei por andar mais alguns quarteirões como meu salto Vivienne Westwood. Com a roda viva girando intensamente, muitas canções me acompanharam e ei de precisar de algumas dezenas de postagens para atualizar esse eterno diário musical dos embalos de uma vida toda. Se é para recomeçar e desenferrujar lacrando, escolhi a mais diva das divas da atual fase da minha vida: Alice Caymmi, Rainha dos raios e de tudo que há de mais transcendental.

A primeira vez que ouvi Alice foi há 3 anos, em seu trabalho de estreia o álbum Alice Caymmi. Mas o tempo passou, e com a apresentação fodástica no palco Sunset, durante o Rock In Rio, eu entrei em uma mistura de transe e surto. Não chorei, só tremia. E foi assim que conheci o Rainha dos Raios. Caymmi entrou de cabeça, corpo e alma nesse projeto, e isso é tão sensível que não há parâmetros entre esse trabalho e o álbum de estreia, assim como uma mãe não pode escolher o favorito entre os filhos.

A verdade seja dita, eu desenfreei. Entrei em um relacionamento serio com a Rainha e sua sonoridade. A estética, os arranjos, a produção e tudo que parece rodear o Rainha dos Raios e a própria Alice nesse trabalho parecem ser tão intrínsecos que me faz pensar que se algo fosse diferente não daria certo. O álbum parece ter sido trabalhado todo na entrega de uma artista, única e ao mesmo tempo que faz lembrar a Gal... AQUELA Gal Costa dos anos 70.

Em Dezembro passado, o nível de significado desse álbum tomou outra dimensão na minha vida. Meu pai Tiago -DEUSO SUPREMO e REI DAS GALÁXIAS- estava curioso sobre o que eu andava ouvindo, e listei minha playlist e disse que ele tinha que ouvir o Rainha. Mesmo que na minha frente fizesse aquela cara de enjoo, que só ele poderia fazer, eu tinha a certeza absoluta que ele ouviria. No outro dia estava lá, ele com o fone de ouvido plugado no computador e me dizendo “Eu não consigo parar de escutar essa música! ”.

A música em questão era Iansã. Uma obra prima de Gil e Caetano, especialmente feita para a própria filha de Oya, Maria Bethânia. Mas a versão interpretada por Alice leva essa canção a níveis muito mais sérios do que é sentir a música. Com um arranjo que nem  um psicodélico setentista poderia por defeito e todo trabalhado nos sintetizadores, eu posso apenas chorar aqui e agora enquanto ouço e escrevo sobre. Janeiro viria, e junto traria a certeza que essa canção jamais poderia ser esquecida por mim.

Assim como a interpretação e o arranjo da Caymmi para essa canção, meu pai se eternizou. Se equilibrou com a natureza. Sua passagem me fez refletir sobre o peso desse refrão:
Senhora das chuvas de junho
Senhora de tudo dentro de mim
Rainha dos raios, rainha dos raios
Rainha dos raios, tempo bom, tempo ruim
Eu sou o céu para as tuas tempestades

A verdade é que essa é a vida, estamos sempre em busca do equilíbrio, ou como diria D2, a procura da batida perfeita. O que não contamos é que esse equilíbrio só existe na morte, quando infalivelmente equilibramos com o universo. Mas já que aqui estamos, vivos, tudo que podemos esperar da vida são tempos bons e tempos ruins. Lagrimas e Sorrisos.... Abraços e despedidas. E se quisermos aproveitar, esse bilhete único chamado vida, temos que nos jogar e tornarmos um só com aquilo que projetamos, queremos e amamos.

Para o maior gênio que pisou na Terra, meu herói e meu pai. Tiago De Melo Gomes.