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terça-feira, 23 de agosto de 2016

Aquelas canções que você, universo, fez pra mim



Música é algo absurdamente familiar para mim. Por mais que eu divague sobre isso ou tente entender qual o sentido ou como essa relação surgiu, nunca vai ter uma explicação concreta. Pouco me importa. Música tem essa subjetividade intrínseca, as entrelinhas não escritas, mas contidas de alguma forma entre os versos quando eles se deparam com nossos ouvidos e enchem nossa mente. Música não é raciocínio lógico ou formula matemática, tá para além de axiomas e postulados. Música é uma enorme porção de inspiração de alguém e conspiração do universo. Ela chega e nos toca deixando a mais pessoal das mensagens: eu te traduzo, pode ficar em silêncio.

Quando as canções passam a fazer parte do nosso cotidiano desde muito cedo, podemos traçar um caminho a onde cada passo é seguido por uma nota, um riff e uma melodia. As letras são as nossas falas em vozes múltiplas e que nunca saíram das nossas gargantas, mas correspondem fielmente a cada pensamento que circulou em nossa cabeça e poderia tranquilamente ter saído por nossa língua. As músicas parecem ser ladrilhos assentados na estrada da vida.

Marisa Monte foi a pedra fundamental. Na construção de uma consciência musical que começou no carinho de bebê, ela foi a que chegou primeiro, ainda para me ninar. Para mim, ela sempre será música afetiva. Sei lá, tem aquele embalo de berço. É sono de criança de colo após sopinha de feijão. Não dá pra explicar, porque rememora um período para qual eu retornaria sem pensar duas vezes. Uma fase sem atrelo a responsabilidade, sem traumas e desconhecendo a maldade humana. Minhas melhores memórias têm som de Cor de Rosa e Carvão.

Os primeiros passos de um ser humano podem ser errantes, mas definem os caminhos que ele tende a querer seguir. Tomo nota disso quando percebo que o começo da caminhada veio permeada de regionalismo. Eu enterrei meu umbigo na minha terra. A poeira do chão do Nordeste grudou na minha sandália e não há de sair nunca. Parece infantil, mas Frevo Mulher, na voz de Amelinha, me emociona tanto. É abstrato e nem eu consigo transpor isso para frases. Só escuto.

No sentido de pertencimento, Galope Rasante, de Zé Ramalho, também bate forte aqui dentro. Me remete ao caminho sinuoso até o interior dos meus avós. Era exatamente o tocava no carro durante essa viagem. É aquela fase da vida que a gente desconhece a real importância das coisas, incluindo a parte que odiávamos fazer esse caminho que hoje fica só na lembrança.

Foi nessa época também que eu me deparei com as antigas fitas k7 da minha mãe e do meu primo Toni. Uma em especial era tocada frequentemente, com direito a performance de lipsync com o controle remoto. Lado A e lado B tomados por uma gravação dos hits do Guns n Roses. Agora a banda virou coisa pra gente poser que acha que sabe alguma coisa de Rock, talvez seja o que a galera velha guarda também sempre pensou sobre eles, mas para mim naquele momento era uma descoberta incrível. A gente quando não dá a sorte de começar a vida por Led Zeppelin, tem de aprender a curtir atirei o pau no gato.

Minha adolescência foi um tumulto que reverbera até hoje. Tento lidar com os ecos dos meus 13 anos. Foi de uma turbulência e magoa tão absurda que Tristeza Pés no Chão, de Clara Nunes, se tornou a tradução mais pura, nua e cortante dessa época. Escutava repetidas vezes, porque as vezes a gente só quer sentir, mesmo que o sentimento que venha seja o da dor.

A vontade de correr chutando lixeiro era seguida pela guitarra de John Frusciante. Otherside é um clássico de quem se apaixonou pelo rock desbocado do RHCP no final dos anos 90 e começo dos anos 2000. Era a tradução de uma rebeldia com causa, mesmo que silenciosa e não aparente, mas que desengasgava na voz de Anthony Kiedis. Era uma rebelião interna que explodia no rock de skate da Califórnia.

A percepção da vida como algo muito maior veio com uma iluminação. Cada um tem um modelo, um padrão ou alguém que é a quebra dos padrões, em que você olha e pensa “é isso que eu quero ser quando crescer”. Na cabeça de uma criança vheada, Boy George é o maior dos nirvanas que se pode ter na vida. Já contei a história aqui em outro post. Ele não foi como uma lâmpada que se acendeu na minha cabeça, mas sim uma corrente de pisca-pisca inteiro. E It’s a Miracle é o hino. Amém.

Se Boy George foi a figura inspiradora, foi com Rihanna que sai de Nárnia para mim mesma. We Found Love, que também já foi motivo de postagem anteriormente, é uma ode a “bateção” de cabelo tão necessária em algum momento da vida. É música de liberdade, de corpo e espirito.

Eu também redescobri a MPB na sua essência. Foi quando voltei ao Bê-á-bá pra reencontrar a Bossa Nova. Estrada do Sol, que é uma composição de Dolores Duran e Tom Jobim, é de uma leveza tão necessária para quem já carregou tantas pedras que a vida atirou. É marco de mudança, de giro de chave. Caminho em direção a um horizonte que a gente almeja, mas ainda não enxerga, mas continua na estrada.

Uma das paradas, em meio a toda essa estrada que percorri e continuo percorrendo, foi a cidade de São Paulo. Foi o palco dos dias mais intensos da minha vida e o começo de um ciclo que se estende. Alice Caymmi foi de onde recomecei esse blog. Iansã, na interpretação dela, sempre vai ser música de reencontro com meu coração que foi bater me outro plano. Sempre. Mas os dias em São Paulo ficaram marcado por Como Vês. Não lembro porque, mas sei onde. Tem som e cheiro da Avenida Paulista tomada de gente aos domingos. Com sabor de café na Stabucks em frente ao Hcor após uma caminhada solitária da Haddock Lobo até o Paraíso pós chope na Bella Paulista. Dá uma saudade danada. Que dói, do medo das lembranças que vou reencontrar por lá, mas a cada frase cantada por Alice, eu quero voltar para sentir o ar queimando a narina novamente nos caminhos inclinados até a Paulista. São Paulo, só em menção, movimenta minha cabeça.

Não teve hiato pós fevereiro. Teve um turbilhão de coisas, não exatamente conectadas, mas cheias de significados. O interessante foi ter de lidar com alguns fechamentos de portas e a abertura de outras novas. Algumas pessoas brotaram se maneira linda na minha vida, em um jardim que a dor e minha confusão interna custa a regar, mas que recebo com uma gratidão enorme. Foram momentos de Rapidez, de fechar e abri de olhos e se deparar com o novo. Eu que nunca fui acostumada com o novo, tenho me encantado com suas nuances. Meia Lua Inteira, interpretada por Caetano, simboliza isso, a chegada do novo, que é belo e astuto, mas que entorpece.

 E sabe o que eu aprendi no meio da jornada? Que tudo é mais fácil quando a gente encara a vida como um rolê. Uma caminhada sem pretensões, sem vaidades, mas plena. Sendo guiado pelos instintos e pela sabedoria moldada pelas quedas que sofremos no meio da estrada.


Aperte para Ouvir a Playlist

terça-feira, 2 de agosto de 2016

Gal Costa| Enigma


Como eu disse no texto anterior, existem pessoas que são enigmas ambulantes. Por mais que você tente decifrar o olhar dessas pessoas parece sempre ter algo faltando, algo que lhe ata as mãos e lhe deixa sem prumo. As dores moldam e fazem as pessoas criarem mecanismos de defesa que as cercam como casulos. A maior verdade que já ouvi nas sábias palavras da Dona Kaya, é que tem pessoas que parecem cristais prestes a estilhaçar. A vida fez delas tão frágeis que a qualquer perturbação elas parecem prontas para desmoronar na nossa frente. A dor não enrijeci pessoas, a dor envolve feridas em mistério.

Em 1973 o capitalismo sofria mais um 7x1 -que sistemicamente se repete- com a crise do petróleo. A economia mundial foi estremecida e o arrocho foi a resposta dos donos do tabuleiro desse jogo político-econômico que se desenhou no mundo moderno. Jorge Mautner e Nelson Jacobina transformam a aura do desalento em poesia para se cantar. Lágrimas Negras é perturbadora. A letra e melodia dão tons de dualidade. Uma melancolia que seduz, uma dor prazerosa.

Em 74, Gal Costa laçou seu Cantar, um disco gravado em estúdio e que é conhecido por ter as gravações de Barato Total e Até Quem Sabe. Mas é nele também que se encontra a melhor interpretação para a canção de Mautner e Jacobina. Gal canta como quem se despede. Tem dor e amor naquela voz.


Na frente do cortejo
O meu beijo
Muito forte como o aço
Meu abraço
São poços de petróleo
A luz negra dos seus olhos


Eu sempre gostei do contato. Do apertar as mãos, do olhar nos olhos, mas principalmente do abraço. Essa permissão de encontro de corpos, mas antes de tudo de entrega ao outro é algo que para mim é quase ritualístico. Abraço para mim é troca de energia. E foi aí que eu me dei conta do cristal prestes a estilhaçar, quando recebi o abraço que mais me perturbou na vida. Não foi perturbador no sentido negativo, mas no aspecto de perceber a necessidade de cuidado do outro. Foi quando esse alguém encostou a cabeça por alguns segundos no meu peito e eu senti como se uma criança pedisse afeto. Não é a carência viciosa dos tempos modernos, mas um grito de “preciso de cuidado. Sou frágil” de forma silenciosa. Nunca vou esquecer aquele abraço.


 Por entre flores e estrelas
Você usa uma delas como brinco
Pendurada na orelha
É o astronauta da saudade
Com boca toda vermelha


Em meio a todas essas dores e mistérios camuflados em olhos de neblina, ainda pode existir um alguém radiante e que exala beleza. Talvez seja a única das faces que as pessoas possam enxergar nesse ser que mais parece um pássaro machucado. É belo, mas se recolhe entre suas asas para que não se veja suas feridas. Acho sempre interessante, como os seres humanos são superficiais e engolem as superficialidades dos outros, superficialidade que nada mais é uma máscara para esconder as lágrimas.

Para mim, não sei para vocês, existe um encantamento pela descoberta do outro.  Enxergar para além do que a maioria enxerga. Eu gosto dos detalhes, das minucias. A beleza real não é aquela que a maquiagem ressalta, que uma roupa ressalta, mas sim a personalidade que coroa aquela alma


Belezas são coisas acesas por dentro
Tristezas são belezas apagadas pelo sofrimento



Enxergar os machucados que a vida sentenciou a alguém e notar que aí que habita o que é de mais lindo em cada ser humano não é algo que todas as pessoas estão prontas para lidar. É como desnudar alguém olhar para suas cicatrizes. É nesse momento que entendemos de onde vem tanta névoa que envolvem essas pessoas. É o escudo delas para não serem machucadas novamente. No fundo, ainda é uma pessoa em busca de suas verdades, tentando obter respostas. Tudo muito sutil, muito leve e lentamente recuando sempre quando perceber qualquer risco de se machucar. Uma pessoa como essa, não é sujeito comum para olhos burocráticos. É uma imagem com seu paspatur camaleônico que em silêncio está constantemente repetindo como uma esfinge “decifra-me ou devoro-te”.  

sábado, 16 de julho de 2016

Gal Costa| Quando Gal foi uma faca rasgando nossas mentes


Em 1970, durante a gravação do programa Ensaio, Tom Zé precedeu a interpretação de Gal para a canção Sua Estupidez com uma das falas mais arrebatadoras que eu particularmente já ouvi. Na época, Gal Costa e Tom namoravam, um relacionamento que anos depois o mesmo diria que era um atropelo. Mas esmagados ficamos nós em meio as palavras ditas por ele. É de uma beleza cortante, algo que qualquer um gostaria de dizer e ouvir, tamanha é a profundidade. A rapidez e ferocidade de Gal resumidas em algumas linhas, em pensamentos descontínuos, livre e vorazes como a própria Gal Costa. Declaração digna de pessoas que tomam o ar do ambiente que habitam, passam. Coisa para quem tem um rugido interno, mesmo que não perceba.


“Sabe uma faca me rasgando, um mundo se acabando, num sei. Gal Costa cantora, Gal Costa a mulher. A mulher terrível, a mulher linda. A noiva, a morta, a viúva, a maravilha: É muito difícil falar essas coisas, eu não sei, a Gal Costa sempre me trata com choques elétricos.  E eu chego pra ver ela e me arrebento por ela e me desarrumo por ela, não sei, é sempre surpreendente, eu nunca sei o que vai acontecer, e cada vez é como a vida tivesse se partindo, se começando, se acabando...Gal Costa é muito maravilhosa”


Naquela gravação de 70, Gal Costa estava sendo acompanhada pela banda Som Imaginário, que posteriormente se tornaria um ícone da música instrumental brasileira. Tavito, Zé Rodrix e companhia, haviam se reunido pela primeira vez para acompanhar Milton Nascimento, e depois disso se reuniram com outros grandes nomes da música nacional. Sua Estupidez foi originalmente composta e gravada por Roberto Carlos em 1969. Em uma entrevista, RC declarou que a música era um grito de alerta para aqueles que amam, mas vivem infelizes por se apegarem a detalhes insignificantes. Sim, ela soa como um alerta diário para nossa burrice de continuar dando murros em ponta de faca.

Mas foi na voz de Gal, daquela Gal imortal dos anos 70, que Sua Estupidez ganhou sua maior interpretação. Gal era de fato como uma faca rasgando o peito de qualquer um que a ouvisse. Era como um tiro em meio a testa quente da rigidez do cotidiano. Ela era um recado estampado na parede dizendo “seja o que quiser ser, desde que seja você”.


Meu bem, meu bem
Use a inteligência uma vez só
Quantos idiotas vivem só
Sem ter amor
E você vai ficar também sozinha
E eu sei por que
Sua estupidez não lhe deixa ver
Que eu te amo


Assim como Gal, a canção de Roberto Carlos é cortante. Corta porque aponta para nossas vulnerabilidades, nossas paixões. O nosso ímpeto muitas vezes é maior que nosso medo de nos machucarmos. No final dessa estrada que leva até nossos impulsos sempre parece haver um precipício esperando nossos corpos desesperados pelo amor que parece que nunca vai vir. O que não nos permite enxergar o amor?

A nossa cegueira é proposital. Nós corremos léguas do que pode nos preencher. Claro, ficar vazio muitas vezes é a nossa fuga das dores que a vida nos impõe. Preferimos pagar de loucos, de despercebidos. Fazemos a linha piscianos, porque é assustador, para a realidade de quem só fez sofrer, descobrir que pode ser amado. A gente se amarra nos erros e fincamos os pés nas incertezas, trabalhar com o incerto é cômodo, é como viver de sonhos. Tudo só fica na imaginação, então nada nos machuca. Reflita: você já parou para pensar porque algumas pessoas lhe dão a sensação de segurança, de estar em casa? Nossa mente não erra, ela nos dá os sinais de fogo, a gente é que prefere ficar ilhado.  

Mas que deprimente é a vida sem a coragem de encarar o amor de frente, não? Pense, até quando podemos viver fazendo de conta? A vida não é um jogo de poker, não vence quem melhor sabe blefar. A vida é um circuito cross-country, e se você não estiver preparada para as irregularidades, altos e baixos, asfaltos e arreias, então seja honesto consigo mesmo e não reclame. Nós preferimos requentar nossos relacionamentos falidos ou insistir em relações tóxicas, daquelas que só importam as noites experimentadas, do que ter reais experiências de amor sem cobranças, amor de entrega total. 


Meu bem, meu bem
Sua incompreensão já é demais
Nunca vi alguém tão incapaz
De compreender
Que o meu amor é bem maior que tudo
Que existe
Mas sua estupidez não lhe deixa ver
Que eu te amo


As paixões vão sempre ser uma constante na vida daqueles que estão nesse mundo para se jogar. Não podemos nos quebrar para manter ninguém inteiro. A vida é muito curta para problematizarmos o amor. Lembro que há algum tempo vi uma fotografia nas redes sociais e tive meu corpo automaticamente tomado por descargas elétricas. Foi uma das sensações mais estranhas que já tive, até porque eu ainda não fazia ideia de quem se tratava. É sobre essas descontinuidades e lógicas próprias que o amor tem que a canção de Roberto fala. É sobre essa ferocidade que Tom Zé destaca e arrebatadoramente delineia Gal em palavras. O amor é um tratamento com choques elétricos que nós agradecemos por receber. Se não houver intensidade, vontade e provocação, virou amizade, conveniência. O amor eros é arrebatador, de tirar o fôlego e renova a alma. Ele corta, fere e cura. Se você não reconhece o amor, sua vida ainda é matéria vaga e sem sentido.


No fim de tudo, os valores que aprendemos é que somos estúpidos se amarmos, se formos bobos apaixonados. Me pergunto se os tolos não são aqueles que desconhecem o sorriso frouxo de uma alma apaixonada. Se a tolice humana habita nos calafrios, nos borboletear do estômago e nas bochechas rubras ao ouvir ou ler algo que te aquece o coração, então não tenha vergonha de ser tolo. Somos todos tolos, ou pelo menos assim gostaríamos de ser. Ao final do dia, nessa jornada chamada vida, o que vale são as memórias que nós criamos. E se for pra amar, que todo esforço seja válido. Que todo amor seja válido.

quarta-feira, 13 de julho de 2016

Playlist| Uma playlist para correr da bad



Seguindo a linha de pensamento que a música cura, estamos aqui para dar um chute na sua bad. Porque é julho, temos férias e não estamos em condições de perder tempo. Não estamos aqui para fazer ode as dores de cotovelo e muito menos lobby para os dias ruins. Sim, os dias ruins existem, são até necessários para reflexão e a busca por algo que a gente não presta atenção no barulho da euforia dos dias bons, mas se afundar na tristeza, principalmente quando essa tristeza tem nome e telefone, não está valendo.

Eu tenho uma preguiça grande de montar playlist, porque minha memória é terrível, então eu nunca consigo fechar imediatamente uma seleção de músicas. Por incrível que pareça, para quem acompanha o blog, eu sou péssima para indicações. Eu nunca lembro ou sei o que dizer imediatamente. Mas com um pouquinho de calma e boa vontade a gente monta uma playlist para todo mundo se amar no final do dia.

Essa seleção, em especial, tem CEP. E como eu não queria ser repetitiva em falar e escrever, resolvi que mandaria as energias e coraçõezinhos de Panda em forma de músicas. A gente faz o que pode, né mores? Se pudéssemos dar um grito no ouvido das pessoas, daríamos também. Mas vamos no amor, porque tem muito disso envolvido.

Drake abre as porteiras como Hotline Bling. Eu poderia acordar dançando todos os dias com essa música. Não sei vocês, mas tem gente que deixa as pessoas bem bobas assim, querendo acordar com musiquinha animada –olha que heresia... a taurina querendo acordar- A sessão continua com Rihanna e Work, porque estamos nessa vida para enaltecer a rainha. Demi Lovato, Miley Cyrus, Minaj e Beyoncé continuam na pegada do “vamos curtir, porque o resto está difícil”.

Caetano, Gil, Bethânia e Gal chegam para mudar o tom da conversa. A lista vira conversa ao pé do ouvido, porque as vezes é difícil se fazer entender. Estamos aqui esperando a deusa Ártemis aguçar a rapidez dos pensamentos. Muito Obrigado Axé é como um mantra em meio a toda agitação, de canções e da própria vida.   

Minha Lua em Peixes aparece sorrateiramente nas vozes de Caetano e Gadú. Rapte-me, Camaleoa é uma abertura de sentidos impressionante, não é coisa para iniciantes, é música para sentimento bem adulto.

Os amados e animados anos 80, que eu só posso viver musicalmente, vem com o new wave do Bow wow wow e sua I want candy, mas é com Cyndi Lauper que a festa acontece. Quem acha que o Girl Power é coisa de Wannabe para cá, nunca vai saber o que é sentir liberdade ao ouvir Girl Just Wanna Have Fun.

Enfim, foi uma playlist diversa, cheia de ondulações que nos levam desde a agitação até os momentos que a gente só quer falar algo ao ouvido. Mas acima de tudo, essa é uma lista para dar um tapa na cara da tristeza e se recusar a perder os dias ensolarados. E se faltar o sol, abra um guarda-chuva. Não estamos em condições de ficar de boca aberta esperando a vida passar.


terça-feira, 28 de junho de 2016

PRIDE| Meus Sons


Música faz parte da minha memória afetiva. Eu consigo dividir minha vida em três grandes períodos musicais: Marisa Monte, RHCP/Culture Club e Maria Bethânia/Gal Costa. É como se a vida ganhasse uma trilha, e como se cada tom fosse uma passagem. Não seria possível descrever o hoje e meus sonhos sem pensar em músicas, até para meu estado de espirito e comunicação a música fala sempre melhor do que minhas próprias palavras. Melhor do que dizer, falar, tratar de sentimentos, eu deixo músicas, elas falam por mim. E hoje ela fala sobre orgulho, afirmação e amor.

Eu cresci ouvindo Marisa Monte, foi a primeira coisa que me lembro de saber sobre música. O intuito era me acalmar, era eu como se fosse ainda bebê, ficando tranquila. Verde Anil Amarelo Cor de Rosa e Carvão me leva de volta para a infância. Para uma fase antes dos 6 anos, antes de um monte de coisas se bagunçar na vida. É uma inocência, mas ao mesmo tempo uma força. Marisa era a voz da minha consciência. Ela me pariu musicalmente.

A adolescência veio. Não acredito que seja uma fase fácil para ninguém, é a época das incertezas, dos medos e da contestação. Não foi diferente para mim, e nem poderia ser. O desenrolar desse período ainda reverbera na minha vida. Dos 12 anos para frente tudo foi e é mais ondulado, mais instável. Não me queixo, aprendi a lidar com meus próprios fantasmas desde muito cedo. E de certa forma, acredito que esses pesadelos pessoais também fomentaram quem eu sou hoje. Aprendi a ter gratidão até pela minha própria desgraça. Não é resignação, é simplesmente get over.

E foi nessa época que o Rock deu o tom. Era como colocar para fora toda minha ânsia de vômito. Escutar todo aquele peso para fazer transpirar minha indignação.  Foi bem difícil, era bem mais fácil não ter passado, mas eu passei e estou aqui bem consciente de que foi como vencer uma maratona tendo fascite plantar.

Red Hot Chilli Peppers foi o som de tudo isso, dessa confusão interna e externa que era viver em meio a esse turbilhão de coisas. RHCP sempre foi a representação da audácia e da quebra de etiqueta. Era bem isso que eu queria para minha vida naquele momento. Era uma vontade enorme de dizer um foda-se bem grande para a humanidade. Até hoje Fortune Faded ainda me dá vontade de sair correndo chutando lixeira.

Ainda assim, tive um contraponto gigantesco nessa época: foi quando eu conheci o Culture Club, e quando Boy George foi morar no meu armário. Minha mãe foi uma das minhas influências musicais – foi, porque hoje ela não se permitiria aceitar esse fato -, e com ela as músicas dos anos 80 entraram no repertório da casa. The Cure, U2, Depeche Mode, REM, Legião Urbana, Cazuza e todas as coisas “descoladas” que fariam sentido na formação da minha identidade. Mas sem dúvida conhecer o trabalho do Culture Club foi como levar uma porrada no meio da cara e mesmo assim ficar maravilhada.

Boy George não é na minha cabeça coisa de festa ploc. Ele é uma entidade, sagrado demais para entrar em lugar comum na vida. Quando eu tinha 13 anos, colei no meu guarda-roupas uma foto dele em preto e branco, hoje acho que errei, ele merecia ter cores na foto. Mas a minha vida ainda era como aquela imagem de Boy George em p&b, era algo não descoberto. Ainda assim, ele precisava ficar me lembrando isso. Se Marisa Monte foi quem pariu minha fome por música, Boy George pariu meu anseio por liberdade.
Entre meus 16 e 19 anos o negócio foi confuso demais para ter música para dar conta. Foi uma confusão mental tão grande que nem eu consigo lembrar de qualquer coisa referente a essa fase. Anos de identidade bem reprimida, fuga.

E agora, aos 20 e poucos eu poderia dizer que meus ouvidos se abriram para todos os sons de Bethânia e aos tempos psicodélicos e geniais de Gal. O orgulho pessoal que tomou conta de mim, o que chamariam de empoderamento, ganhou cores, 7 cores. Com a vida saindo do preto e branco ficou mais fácil enxergar o mundo ao meu redor e ouvir os sons que estavam adormecidos aqui dentro. A gente se deixa a mercê da leveza.


Eu venho me deixando apaixonar, me permitindo sentir raiva também. A frustração as vezes pede passagem, mas o orgulho, ah... esse fica comigo de um jeito que não sai mais. Quando a gente toma conta de si e do que é nosso papel e lugar na sociedade, nada mais pode nos fazer voltar atrás. A revolução interna é um caminho sem volta. E foi com todos esses tons, do preto, do branco e das sete cores, que eu me formei. Trilhando meu caminho com todos esses sons, os meus sons.  

sexta-feira, 24 de junho de 2016

Playlist| A playlist para um dia agridoce



Tem dias que a gente não sabe o que dizer. Hoje eu fiquei sem palavras. Foi um dia com sabor estranho, diferente. Teve outros sons, outras cores, e nada do que estava planejado nesse espaço/tempo aconteceu. Experimentei minha própria companhia, sorri sozinha. Me dei o direito ao ridículo e chorei como criança que descobre a vida pela primeira vez. Foi um dia agridoce.

A inquietude que dominou minha manhã me levou a oscilar entre Cultura e Civilização, de Gal Costa e o álbum Dois amigos um século de música, dos geniais Gil e Caetano. De um lado um espirito querendo vibrar bem alto ao som psicodélico de Gal. A outra parte de mim queria serenidade. Hoje foram vários anos em um dia. Foi como estar dentro de um labirinto em mim buscando não a saída, mas um começo. Tudo muito intenso, tudo muito louco, tudo muito agitado.

No caminho pra casa e na expectativa do almoço com as companhias mais lindas que a vida poderia me presentear, fui ouvindo Rihanna. We Found Love sempre será a música que me leva de volta para 2012, me joga para meu descobrimento pessoal. Um dia preciso escrever sobre essa música e a que ela me remete. Mas por hora, podem saber que ela significa liberdade para mim.

Uma parada no supermercado. Agitação, filas e treta no estacionamento, era o prenúncio de que os planos tomariam outros rumos. Sai de lá. Olhei para o celular e vi uma série de mensagens nas redes sociais. Eu sabia o que elas queriam avisar. Fechei os vidros e me permiti. Alice Caymmi cantou Iansã e eu desejei poder ter meu pai Tiago de volta porque um dos dias que ele mais sonhava havia chegado. Como um raio é intenso, me deixei fluir. Chorar não é algo fácil para mim, mas simplesmente corriam lágrimas no meu rosto e deixei cair uma por uma até que eu tomasse novo fôlego. Cheguei em casa.

Não dava para cozinhar. Eu só poderia ficar sentada na poltrona, atônita, e tudo que eu desejei foi um abraço. Não deu. Quis o destino, que é capcioso, que eu ficasse comigo mesma. Enquanto cozinhei meu almoço escutei Bethânia e Ivete Sangalo se derramarem com Muito Obrigado Axé. Restaurei as forças.

Me dei a chance de sorrir. Assisti as bobagens e cafonices diárias da TV. Me senti viva. Foi uma sensação única. Foi como permitir pequenos prazeres, sem culpa. Zero, de Liniker, tocou e eu tive doces e dourados pensamentos. Me fez pensar sobre uma Vésper feroz que agita minhas ideias. Me banhei e me deixei cochilar.

O dia que planejei foi diferente do dia que vivi. Não podemos cobrar tanto da vida, as pequenas felicidades são vitorias diárias em meio a tantas agruras. Um novo caminho se projeta, e mesmo que eu ainda não possa mensurar aonde tudo isso pode me levar não quero o alvoroço ou o medo do que não se vive. Tenho pavor da presunção humana em definir as rotas do futuro como se fossem estradas de ferro. A vida é cortada por caminhos diversos. Ora é asfalto, leve e liso. Mas também pode se apresentar como rotas lamacentas. Às vezes a vida tem som de festa, por vezes prefere o silêncio. O sabor, esse nunca será o mesmo. Ele é acentuado por nossas aflições e euforias. Quando tudo isso se encontra, surgem os dias agridoces. 

sábado, 30 de abril de 2016

Gal Costa| De Que Gal Você Gosta?


                 Nos últimos meses tenho ouvido muita coisa dos anos 60 e 70, não sei bem porque, mas o efeito disso na minha visão e audição musical tem sido devastador. Um verdadeiro nirvana. As proporções disso reverberam para todos os lados, desde as concepções estéticas, passando pela visão da contracultura e parando na crítica. E como ser humano critico que sou, não poderia ser alheia a mudança musical de Gal e, principalmente, o que aprendemos com isso. Nada? Acho que nos diz muito sobre nós mesmos.

      Então, Gal, assim como Rita Lee, foi participante do Tropicalismo enquanto movimento, o que não foi o caso de Maria Bethânia, por exemplo. Partindo disso, revolucionaria séria uma definição para ela. Voltando mais um pouco, Gal bebia da Bossa Nova, era seguidora de João Gilberto e antes do Movimento Tropicalista era do banquinho e violão. Mas o final da década de 60 trouxe o que havia de melhor dela. Gal foi Gal.

A cultura, a civilização
Elas que se danem
Ou não
Somente me interessam
Contanto que me deixem meu licor de jenipapo
O papo. 

Além da participação no álbum Tropicália ou Panis et Circencis, em 1968, ela lançaria no ano seguinte os discos Gal Costa e Gal, ambos de 69, e que são disparados dois dos melhores trabalhos de um artista da música se eu listasse aqui 10 álbuns. O segundo, Gal, é sem dúvidas um disco de total rompimento estético e provavelmente um dos melhores discos de psicodelismo da música brasileira – na minha modesta opinião é o melhor do Brasil e estaria na minha lista psicodélica mundial- ouçam a interpretação dela para Cinema Olympia, de Caetano, e mandem todo resto para puta que pariu.

O Gal é como uma viagem maluca, da qual você nunca quer voltar, você desaprende o caminho de casa, ou seria como desaprender sobre todo conceito de musicalidade que você concebeu anteriormente. É um clássico.

Das noites de São João
Somente me interessam
Contanto que me deixem meu cabelo belo
Meu cabelo belo
Como a juba de um leão       
Contanto que me deixem
Ficar na minha

      O engraçado é que a música Cultura e Civilização, de Gilberto Gil, que é a terceira canção do álbum, é quase uma profecia contraria a tudo que Gal viria a se tornar como interprete, musicista e figura pública. A música é um manifesto à liberdade, um hino da Contracultura setentista. É como uma promessa da jovem Gal. Tudo vão. Tudo oco. Tudo temporal.

      A verdade é que os trabalhos fodasticos de Gal Costa estavam datados. Em 1976, o lançamento dos Doces Bárbaros selaria o final de um ciclo para Gal e, tristemente, para a música de bandeira que ela carregava. Música de bandeira é como eu chamaria o trabalho musical daqueles artistas que estavam para além das canções, na verdade, as canções eram manifestos, seus corpos eram parte de uma revolução e suas vozes instrumentos de um movimento. Essa Gal morreu ali.

      Eu sempre brinco que foi Djavan a causa da morte, mas na verdade Gal é um retrato que se repete. Se reproduz na vida, quando vemos o quanto nos acomodamos. Sabe-se lá o Eterno o porquê que ela abriu mão de ser um gênio da MPB para se tornar uma Gal burocrática – tenho lá minhas sugestões sobre isso- mas a verdade é que quando brinco sobre ela estou mais para o desespero. Gal e o definhar de sua carreira é como o espectro de partes de nossas vidas.

      As vezes na vida nos acomodamos com as migalhas, sendo que seriamos capazes de alcançar os banquetes. Não sei, tenho medo da vida que perde o sentido, tenho medo do comodismo, sinto pavor da pena. Por esses dias eu estava matutando sobre o quanto estamos acostumados a achar que deitar e dormir no berço esplêndido é o ápice da vida.

      Por exemplo, preferimos a suposta segurança de relacionamentos falidos, simplesmente porque nos acomodamos e achamos que não pode haver nada além disso. É como requentar o feijão de ontem. Temos medo do incerto, assim como temos medo do escuro. Temos pavor do recomeço, seja com 24 ou 50 anos. E dessa forma, vamos empurrando com a barriga, comendo nosso feijão requentado de cada dia. No final das contas, é mais cômodo filosofar sobre as supostas verdades do tempo do que tentar ser feliz plenamente. E nisso, caros amigos, somos como Gal, achamos que já fizemos tudo e agora podemos ficar vendo a vida passar, em meio a nossas próprias negações e cuspindo no nosso passado. Por favor, em honra a GAL revolucionaria que existe em nós, não aceitemos as migalhas. Queiram o banquete, mesmo que ele custe o maior foda-se de nossas vidas. É dessa Gal que eu gosto.

quinta-feira, 21 de abril de 2016

Gal e Bethânia| Amor de Terceira Margem


Eu sempre brinco que devemos procurar um amor que nos olhe como Gal Costa olha para Maria Bethânia enquanto cantam Esotérico (confiram no Youtube as gravações de 76 e 2002). Grande bobagem. Quiseram os deuses que eu não atrelasse mais Esotérico aos olhares de Gal e Bethânia, e sim, ao amor mais lindo que vi em toda minha existência.

A gente cresce idealizando pessoas, idealizando amores e sonhando viver um. Eu tive a benção de ver um desses amores que enche nossos olhos de lágrimas e nossos corações de esperança. Antes que me perguntem, não, eu não era protagonista nessa história, mas de certa forma essa história de amor se entrelaça com minha vida, quase sendo ela o ethos da minha existência como alma.

“Não adianta nem me abandonar
Porque mistério sempre há de pintar por aí
Pessoas até muito mais vão lhe amar
Até muito mais difíceis que eu pra você”

As vezes o curso da história não é bem o esperado, aquele curso para o qual torcemos. Não é um amor de margem esquerda, não é um amor de margem direita. É amor de terceira margem. Amor que não cobra, amor que dói de saudade, mas que sem se perceba. É amor que não cabe em uma vida, e por isso há de se restaurar pela eternidade. É puro, e ao mesmo tempo se inflama. É amor para quem tem entendimento.

Eu tendo a pensar que era um amor que de tão livre, não poderia carregar rótulos. Não haveria círculos de ouro ou prata suficientes para prender entre os dedos. Foi nessa vida o amor do silêncio. Já aprendemos com a literatura que alguns amores nascem para ser Tristão e Isolda... Abelardo e Heloisa.

“Se eu sou algo incompreensível, meu Deus é mais
Mistério sempre há de pintar por aí
Não adianta nem me abandonar
Nem ficar tão apaixonada, que nada
Que não sabe nadar
Que morre afogada por mim”


Se posso eu lhe dizer algo de alento, esse amor não morre. A vida brinca com esse menino travesso chamado destino e nos apronta das suas, mas existem barreiras que a perda não transpõe, não acaba e não cessa. Os olhos mais amorosos do mundo sempre estarão lá para fazer a alma desse Tristão se aproximar de sua Isolda. E nessas horas surge o que é incompreensível para nós, os espectadores. Não foi e não há de ser jamais coisa finita. Os palmos do chão não enterram o que almas sentem. O amor que me fez não foi um amor esotérico, foi e sempre será, simplesmente, amor. 


domingo, 3 de abril de 2016

Doces Bárbaros| Faca Amolada


"Agora não pergunto mais pra onde vai a estrada
Agora não espero mais aquela madrugada"

Na virada do ano eu estava conversando com meu Pai e ele perguntou "Enjoada, quais os planos para 2016?". A resposta foi simples, não deixar nada pra resolver depois e ser muito clara nos meus objetivos. Resumindo: não deixar arestas.

 Sempre fui uma pessoa muito dura, comigo mesma e com os outros, mas minha timidez sempre foi um empecilho para falar a metade das coisas que circulavam minha mente. Mas isso acabou. Não lembro bem qual foi o momento em que a chave mudou o giro, só sei que tem sido terapêutico. E escrever sobre esse processo tem evitado minha prisão e a hospitalização de alguns outros.

 Em 1975, no álbum Minas, Milton Nascimento e Beto Guedes interpretaram a canção que poderia ser o hino para esse momento de virada de mesa. A música sob encomenda. Fé cega, faca amolada é um desses clássicos que uns fazem e outros consagram. Os Doces Bárbaros fizeram essa música ter sentido pra mim.

Deixar a sua luz brilhar e ser muito tranquilo
Deixar o seu amor crescer e ser muito tranquilo

Desde dezembro venho passando por um longo processo de autoconhecimento, algo que transcende esse plano e que nem é necessário ser explicado. Basta a mim viver esse momento. Dentro de todo esse processo de aprendizagem veio a sensação de que algumas coisas não merecem ser valorada como antes, e principalmente, para a manutenção da paz interior.

Dentro de tudo isso tenho exercitado a minha paciência contra a espetaculização. Sabe, eu tenho tido um sono, um cansaço, uma preguiça para os shows alheios. As vezes tenho vontade de dizer “SEJE MENAS”, mas quando a gente pensa em quantas pessoas não mereceriam carregar essa dor na comanda, aí eu desisto. Não é covardia, é o amar algumas pessoas mais do que amo a mim mesma. O que talvez pareça destoar do meu discurso de amor próprio, mas na verdade é que existem amores para além da explicação humana. Esses merecem o nosso recolhimento e devoção.

Isso me faz pensar na tradição iorubá. Me faz pensar sobre Obá. O quanto nós engolimos o orgulho e nossas dores para não ver doer em quem amamos. Mas ao mesmo tempo, isso não pode esconder o fio da nossa espada, e se preciso for, vamos descer essa faca amolada por entre o peito de quem não respeita nossas dores. É muito palhaço pra pouco circo.

Quando a gente se acha no mundo ficamos destemidos. Cheguei à conclusão que sou muito abençoada por ter a oportunidade de encontrar essa ancestralidade e através disso encontrar a mim mesma. Não acredito que isso tem sido algo de todo bom para os que me rodeiam, porque agora precisam aprender a lidar com alguém muito mais posicionada. Tenho lado e tomo partido.

Plantar o trigo e refazer o pão de cada dia
Beber o vinho e renascer na luz de todo dia

No final das contas, eu apenas estou vivendo o que projetei, aqueles desejos de final de ano que nós sempre pensamos que vai ser como a dieta da segunda feira. Mas dessa vez aconteceu. E eu não passaria na frente da minha própria espada. Os dias renascem, a vida também. Mas a alma, ah, alma... essa única, e carrega consigo o aprendizado de seus ciclos.

E no final de tudo, aprendemos que:
Menos espetáculo, mais amor. Menos circo, mais verdade.                              


Para Dona Kaya e seus cabelos prateados, que me fazem ter uma vontade extra de acordar todos os dias.

sábado, 12 de março de 2016

Alice Caymmi| O que aprendi com Alice Caymmi


Depois de 2 longos anos, que mais poderiam ser chamados de décadas, o blog voltou. A ausência foi um misto de falta de tempo, falta de coragem e falta de vergonha na cara. Hora de deixar para trás o peso das mãos e colocar a cara no SOL!!!

Em dois anos, eu poderia dizer que, acabei por andar mais alguns quarteirões como meu salto Vivienne Westwood. Com a roda viva girando intensamente, muitas canções me acompanharam e ei de precisar de algumas dezenas de postagens para atualizar esse eterno diário musical dos embalos de uma vida toda. Se é para recomeçar e desenferrujar lacrando, escolhi a mais diva das divas da atual fase da minha vida: Alice Caymmi, Rainha dos raios e de tudo que há de mais transcendental.

A primeira vez que ouvi Alice foi há 3 anos, em seu trabalho de estreia o álbum Alice Caymmi. Mas o tempo passou, e com a apresentação fodástica no palco Sunset, durante o Rock In Rio, eu entrei em uma mistura de transe e surto. Não chorei, só tremia. E foi assim que conheci o Rainha dos Raios. Caymmi entrou de cabeça, corpo e alma nesse projeto, e isso é tão sensível que não há parâmetros entre esse trabalho e o álbum de estreia, assim como uma mãe não pode escolher o favorito entre os filhos.

A verdade seja dita, eu desenfreei. Entrei em um relacionamento serio com a Rainha e sua sonoridade. A estética, os arranjos, a produção e tudo que parece rodear o Rainha dos Raios e a própria Alice nesse trabalho parecem ser tão intrínsecos que me faz pensar que se algo fosse diferente não daria certo. O álbum parece ter sido trabalhado todo na entrega de uma artista, única e ao mesmo tempo que faz lembrar a Gal... AQUELA Gal Costa dos anos 70.

Em Dezembro passado, o nível de significado desse álbum tomou outra dimensão na minha vida. Meu pai Tiago -DEUSO SUPREMO e REI DAS GALÁXIAS- estava curioso sobre o que eu andava ouvindo, e listei minha playlist e disse que ele tinha que ouvir o Rainha. Mesmo que na minha frente fizesse aquela cara de enjoo, que só ele poderia fazer, eu tinha a certeza absoluta que ele ouviria. No outro dia estava lá, ele com o fone de ouvido plugado no computador e me dizendo “Eu não consigo parar de escutar essa música! ”.

A música em questão era Iansã. Uma obra prima de Gil e Caetano, especialmente feita para a própria filha de Oya, Maria Bethânia. Mas a versão interpretada por Alice leva essa canção a níveis muito mais sérios do que é sentir a música. Com um arranjo que nem  um psicodélico setentista poderia por defeito e todo trabalhado nos sintetizadores, eu posso apenas chorar aqui e agora enquanto ouço e escrevo sobre. Janeiro viria, e junto traria a certeza que essa canção jamais poderia ser esquecida por mim.

Assim como a interpretação e o arranjo da Caymmi para essa canção, meu pai se eternizou. Se equilibrou com a natureza. Sua passagem me fez refletir sobre o peso desse refrão:
Senhora das chuvas de junho
Senhora de tudo dentro de mim
Rainha dos raios, rainha dos raios
Rainha dos raios, tempo bom, tempo ruim
Eu sou o céu para as tuas tempestades

A verdade é que essa é a vida, estamos sempre em busca do equilíbrio, ou como diria D2, a procura da batida perfeita. O que não contamos é que esse equilíbrio só existe na morte, quando infalivelmente equilibramos com o universo. Mas já que aqui estamos, vivos, tudo que podemos esperar da vida são tempos bons e tempos ruins. Lagrimas e Sorrisos.... Abraços e despedidas. E se quisermos aproveitar, esse bilhete único chamado vida, temos que nos jogar e tornarmos um só com aquilo que projetamos, queremos e amamos.

Para o maior gênio que pisou na Terra, meu herói e meu pai. Tiago De Melo Gomes.