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domingo, 18 de dezembro de 2016

Ibeyi| O que é para ser simplesmente acontece


Em meio a um mundo vazio alguns tem a sorte de encontrar pessoas que as fazem viver em uma ilha fora do caos. O amor nos põe em uma bolha e nos faz pensar que estamos protegidos contra todos os males que afetam a sociedade. O amor nos faz pensar que estamos curados da insanidade, que nos livramos dos medos que tomam a mente, que somos únicos. A cultura dos contos de fadas nos vendeu a ideia de que o amor vem etiquetado como peça única, produto exclusivo.

Aí é onde mora nossa quebrada de cara. Pensamos no amor como um artigo de luxo feito sob medida para nossos egos feridos, um verdadeiro casaco de pele para aquecer nossa alma fúnebre. Grande bosta. Quando nos deparamos com a realidade da imperfeição das pessoas com as quais nos envolvemos é onde começamos a perceber que as notas da música são mais dissonantes do que pareciam antes. É onde se separam os amantes dos loucos.

Sabe quando é que a gente realmente descobre que ama alguém? Cada um pode ter sua experiência pessoal, mas acho difícil não se dar conta do amor quando tudo parece mais adverso. Na adversidade, quem está ali só por uma questão física e efemeridades vai pegar logo o beco. Se você está com alguém pelas supostas “qualidades” da pessoa, então descobrir a falta delas vai te fazer correr.

Mas quando a gente resolve engolir nossas vaidades apenas para poder seguir em frente, é porque já não nos resta mais nada, apenas o amor e a vontade de fazer dá certo. Quando a gente descobre que a relação não é o modelo exclusivo que você idealizou, porém não consegue mais ver sua vida de outro jeito, então baixar a guarda é a única solução.

Welcome to my earth
It's a crying shame
We have built a foolish world
Busy fighting, cruelly lying and denying

Eu sou uma fã incurável do trabalho das Ibeyi, elas estão sempre aparecendo por aqui, até porque esse blog não se trata de outra coisa além do que o próprio nome diz: meus sons diários, ou seja, é o que eu ouço no meu dia a dia regado a minhas emoções e meu estado de espirito. A música é a melhor tradução para os momentos. Eu falo melhor quando eu deixo as músicas falarem por mim. Enfim, Naomi e Lisa já foram a minha voz em outras oportunidades, mas Ghost tem martelado, mais uma vez, na minha mente como a minha própria consciência me pedindo para seguir. 

É na iminência de perder que a gente descobre o quanto ama. A gente chora, esperneia, se desespera e esquece do senso do ridículo. A gente sente medo. Talvez seja um dos poucos momentos na vida que a gente permite que nos vejam sem nossa armadura contra a fragilidade. Não é o medo de perder pela simples e efêmera posse, mas a sensação da perda do medo. O amor nos faz sentir como se pudéssemos andar de peito aberto e nada poderia nos atingir.

My ghosts are not gone
They dance in the shade
And kiss the black core of my heart
Making words, making sounds, making songs

Quase sempre os problemas entre nós e a pessoa amada são os fantasmas. Não os fantasmas da ficção, mas as inseguranças, pessoas, bens, desejos que nos prendem e cegam a ponto de não enxergarmos o quanto poderíamos estar vivendo a leveza de uma relação apartada de todas as coisas tóxicas que podem nos afetar. As dúvidas moram na linha tênue entre nossa felicidade e nossa desgraça.

É onde o amor aparece. Se mesmo em meio a todas as forças contrárias você ainda consegue querer tirar forças do fundo da sua alma para lutar por quem você ama, então tudo vale a pena. As vezes a gente precisa dar uma chance para nós mesmos e tentar continuar a história escrevendo novas linhas em meio ao mesmo papel que parece desgastado. Como eu sempre digo a mim mesma, amar em tempos difíceis é revolução.

Now you can feel my heart spinning
You turn my whole life around
I want to write a new beginning
Let go of the ghosts
Let dreams and hopes fly
And give our love another try
Should we just let it be?


Cada um tem suas próprias experiências, e muitas vezes é cobrar demais de alguém para se refazer em meio ao caos, mas se é por amor pense duas vezes, três vezes se for preciso, mas siga em frente. O único compromisso que precisamos ter na vida é com a nossa felicidade plena, mas não com as coisas efêmeras e que se esfacelam durante a vida. Se for necessário, engula seu orgulho ferido e recomece, isso é um favor para si mesmo. E acredito que é sempre bom lembrar que, o amor nos cura. 

domingo, 25 de setembro de 2016

Ibeyi| Não é música, é estado de espirito



Se a vida fosse seguir a linearidade que a maioria parece esperar, tudo seria mais sem sabor, sem graça e óbvio. O bom da vida é o inesperado, o fato que entra sem bater e que não manda aviso prévio. De certa forma, são os medos e as inconstâncias que nos levam a valorizar momentos. Quantas vezes já não deixamos passar a oportunidade de dizer “eu te amo” ou “sinto saudades de você”, pelo simples comodismo de achar que sempre teremos a pessoa lá?  No fundo, somos seres movidos pelas emoções, pelos sentimentos, e o medo é um deles. Se um dia você perder o medo de não ter mais alguém em sua vida ou a gana de ver um projeto dar certo, então a vida perdeu o sentido.

A gente às vezes se pega aprisionado ao comodismo, aceitamos ter uma vida “ok” porque parece ser mais complicado colocar a cara no sol, se indispor com o mundo e arriscar ter uns tropeços na busca pela felicidade. Dessa forma, deitamos em nossos berços esplêndidos, que na verdade não passam de camas bem forradas com nossa hipocrisia de nos escondermos por trás do que é socialmente aceitável. Grande porcaria. No final do dia quem vai ter de dar conta das frustrações e da dor dos risos forçados é você, então para que vivemos a superficialidade das relações? São aquelas pessoas que deixamos de contrapeso na nossa vida, como se fossem objetos de decoração, e que a qualquer momento podem nos servir nem que seja para a fotografia. Até quando a vida tem de ser pautada nessas superficialidades? Até que momento vamos, como seres humanos, suprimir nossas vontades e sonhos em nome do malfadado senso de urbanidade? Um foda-se faz tão bem quanto um eu te amo em uma manhã de sábado.

Tudo isso dito, o fato é que nesse percurso que trilhamos entre o medo e o prazer terminamos por nos deparar com os acasos. A gente até que planeja não repetir velhas receitas, principalmente aquela receita do bolo que solou.  Mas se tudo fosse linear e certinho, essa vida seria monástica para todos. Como já diria um odiado poeta - que eu particularmente admiro - eu gosto é do estrago. Não tenho tempo para mesquinharia, comigo sempre foi na base da intensidade. Não sei dizer que gosto, a minha vida é bem arregaçada entre os extremos amor e ódio. Se eu sinto falta de uma vida certinha, aquela vida “serviço público concursado”? Às vezes. Mas algo me leva até os caminhos mais difíceis e, vou ser bem sincera, eu adoro viver nesse turbilhão. Nos momentos de tristeza, são minhas pequenas loucuras que me deixam vivíssima. Eu sou o louco brincando na beira do abismo.

Viver é um constante convite para quebrar a cara e se for de outra maneira não tem graça. Entrar na minha vida, por exemplo, requer de qualquer pessoa a disposição de mergulhar em um mar bem revolto. Até porque quem de nós não tem seus fantasmas de estimação, que movimentam nossas mentes e de alguma forma as moldaram? Nunca saímos ilesos de relações, nunca.


Welcome to my earth
It's a crying shame
We have built a foolish world
Busy fighting, cruelly lying and denying


Ghost, uma das faixas do álbum das Ibeyi, é a crônica de quem vive dessa intensidade. A vida soa como esse eterno “deixa entrar e vamos ver o que acontece”. As irmãs franco-cubanas, que já se tornaram uma constante na minha vida, cantam o que para mim não é música, mas sim estado de espirito.

Às vezes eu paro para pensar como determinadas pessoas entraram na minha vida, e sempre vejo o quão surreal e improvável algumas dessas “entradas” parecem. O melhor é perceber que todas têm ou tiveram um papel de cura, muitas vezes recíprocas. Isso é doloroso na maior parte do tempo, porque requer colocar nossas dores de lado para beijar as feridas dos outros, mas de alguma forma também nos cura. E quando se trata de um relacionamento, onde existe uma paixão, se torna ainda mais intenso. Eu tendo a me apaixonar pelas dores das pessoas.


Now you can feel my heart spinning
You turn my whole life around
I want to write a new beginning
Let go of the ghosts
Let dreams and hopes fly
And give our love another try
Should we just let it be?
Make love to me


Existem coisas inevitáveis, por mais que se racionalize e se acredite que de alguns “problemas” nós podemos fugir, mas experimente se apaixonar por alguém não pela aparência ou pelo que o físico te oferece. Quando você se encanta pelos caminhos que essa pessoa trilhou até chegar a você é como se a sua mente se iluminasse. Eu não sei se sou boba demais, mas o bonito mesmo é a conexão de almas, não no sentido além da vida, mas quando duas mentes se entendem e sentem juntas, são intensas juntas. Sejamos sinceros, sexo é bom, mas querer fazer amor com alguém é outra coisa. Não é querer a rapidez do prazer de uma noite bêbada, é ser lento para aguçar cada sentido. Isso a gente só tem com quem se dispõe a sentir nossos sorrisos na nuca e a beijar nossas lagrimas silenciosas.

O estado de espírito de quem ama é simples: é se apaixonar perdidamente todos os dias pelos pequenos gestos. É saber que o outro tem suas cicatrizes e dores advindas de outras relações, e por isso querer beijar sua testa no meio da noite e dizer que vai ficar tudo bem. É cuidar, principalmente quando somos nós que erramos e causamos a dor. Amar é saber pedir desculpas, admitir que errou e se predispor a tentar recomeçar, não para simplesmente manter uma relação de fachada, mas porque machucar quem você ama dói mais em você, porque é um contrassenso. Amar não é querer decidir pelos dois, mas os dois decidirem como um só. É fazer planos sem nem ter ideia de como eles podem se tornar reais. É, como diriam os nativos de língua inglesa, fall in love hard for you quando ninguém mais enxerga você. Mas tudo isso não faz parte de uma prescrição médica ou uma receita de bolo, logo não pode ser igual para todos. 

Now you can feel my heart spinning
You turn my whole life around
I want to write a new beginning
Let go of the ghosts
Let dreams and hopes fly


Enfim, existem pessoas que tem esse poder de querer fazer a gente parar o tempo em um abraço ou perder o sono porque sentimos falta de um olhar. Se você não vive um relacionamento que te faz acordar todos os dias pensando que isso tudo é um sonho, e sentir medo que ao acordar nada tenha existido, então qual o sentido de ficar nele? Eu gosto mesmo é de ter medo. Medo de perder, porque é o que mantém aquela eterna vontade de escrever coisas bobas na hora do trabalho e enviar aquela mensagem com um sorriso besta no rosto. É o presente sem data, é o jantar sem motivo numa quinta-feira, é a vontade de contar sobre o dia e os post-it espalhados pela casa com um simples “eu estou apaixonada por você”. Talvez eu seja bem piegas por gostar de tudo isso, mas é meu estado de espírito, não sei ser de outro jeito. Se não é para sorrir como boba enquanto admira a pessoa amada e não querer dormir porque sente falta daqueles olhos, então é melhor não trocar status de relacionamento em redes sociais só para fazer média com o público. O bom de amar é ser vulnerável, não vale a pena amar usando armaduras. Amar é se rasgar e não ter vergonha das cicatrizes.