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quarta-feira, 8 de março de 2017

8 de Março | 8 canções que valem mais do que as flores

Mais um 8 de março chegou e a luta permanece. Permanece em meio as descrenças, desgraças e a opressão. Os repetidos desejos de “Feliz dia da mulher” ainda soam como uma faca, sufocamento e o som dos tiros que todos os dias persistem em assassinar mulheres. Mulheres da classe operaria, mulheres que cuidam de suas casas e filhos enumeras vezes sozinhas. As mulheres que precisam fazer de sua existência um manifesto de resiliência contra um sistema patriarcal encrustado no amago de uma sociedade, que por alguma causa torpe continua a negar as vozes daquelas que estão aí na luta. Que essa data não seja marcada pelas flores, mas pela luta. Que não se diminua a resistência e a consciência política de todas as mulheres a uma caixa de chocolate e a uma promoção de livraria. Que nossa luta venha a resistir a todas as tentativas de silenciamento, por nós e por todas que vieram antes. A nossa luta não vai sessar, porque ela foi plantada em cada momento da História em que as mulheres saíram do lugar que a sociedade tentava as condicionar e foram fazer a diferença.

Aqui vai algumas canções, nas vozes que não se calaram e usaram arte como instrumento de transformação e militância.


   

Quando em 8 de setembro de 1990 a jovem argentina Maria Soledad Morales foi brutamente assassinada na Província de Catamarca, no Norte da Argentina, o silêncio se tornou uma metáfora para a luta. Entorpecida, estuprada e morta por dois homens que a justiça tardou a condenar, já que suas famílias ocupavam lugar de privilegio dentro da sociedade de práticas oligárquicas de Catamarca. A comoção e o sentimento de impunidade deram início a manifestações que fariam ruir, não apenas o sistema da pequena província, mas também o modo de lutar dos grupos sociais oprimidos na Argentina.

As marchas del silencio já eram praticadas como manifestações desde os anos 70, mas foi o eco da injustiça e da opressão que soavam no Norte que as fizeram cada vez mais populares. Membros da sociedade civil de San Fernando del Valle de Catamarca, cidade em que o crime ocorreu, grupos religiosos católicos, familiares e amigos tomaram as ruas e passaram a chamar a atenção de todo país para o ocorrido. O silêncio cortante das marchas ganhou apoio e cobertura midiática.

Em 1993, o filme El caso Maria Soledad não apenas narrou, mas serviu como um símbolo da eternização da luta por justiça contra o feminicidio. Em sua trilha sonora, a voz de Mercedes Sosa imortaliza Maria Soledad na letra escrita por Osvaldo Montes.

Puede el silencio cambiar tu voz,
puede la historia cambiar.
Y puede el silencio gritar verdad,
puede el camino cambiar.




Em dias de Trump e os desencantos da spoiled classe média norte-americana, o famigerado american way of life foi posto em cheque. O sonho americano e toda a falácia da liberdade capitalista sempre se transformam em tombos homéricos em épocas de crise. Os americanos sempre carregaram o estandarte do bloco “unidos da meritocracia”, e claro que dentro de toda essa pregação que advêm da tradição dos pioneiros da colonização.

Após os anos iniciais da política de Big Stick e as manobras comerciais dos EUA no Entreguerras, a euforia econômica fortaleceu a ideia da liberdade e prosperidade tão exaltadas nas figuras do Tio Sam e da Estátua da Liberdade. A crise econômica veio, a suposta liberdade e a não regulação econômica por parte do Estado entram em recesso. Os anos de Lei Seca e de reformas paternalistas de Franklin Delano Roosevelt foram o contra cesso de tudo que os estadunidenses enxergavam - e ainda enxergam- como o real papel do Estado.

Foi em meio a Segunda Guerra que Janis estreou nesse mundo. E nas tensões e reposições socioeconômicas dos anos 40 e a guinada dos anos 50, o Texas e a vida seguindo a cartilha da boa família americana se tornou muito pequena para ela. Joplin precisava fazer amor com seu público através de sua voz e de sua presença de palco. E foi com o sarcasmo que ela desdenhou da sociedade de consumo norte-americana. A lenda Janis Joplin se utilizou dos símbolos de desejo e do discurso da meritocracia para ironizar o famoso sonho americano. Mercedes Benz foi a última música gravada por Janis, em 1 de outubro de 1970, exatamente 3 dias antes da sua morte.

“I'd like to do a song of a great social and poetical import
It goes like this”

Oh Lord, won't you buy me a Mercedes-Benz?
My friends all drive Porsches, I must make amends
Worked hard all my lifetime, no help from my friends
So Lord, won't you buy me a Mercedes-Benz?



Instituto de Música Curtis, na Filadélfia se negou a tê-la como aluna. O diploma de piano clássico obtido na renomada Julliard não era o suficiente para derrubar as portas que a segregação – legalizada- ainda empunham nos EUA dos anos 50. Ter nascido negra na Carolina do Norte não foi o suficiente para cala-la. Dedicou sua vida aos estudos musicais e ao ativismo pela obtenção dos Direitos Civis pela comunidade afro-americana.

Eunice Kathleen Waymon se fez Nina Simone, e assim entrou para o hall de figuras que fizeram do seu potencial artístico uma forma de serem ouvidas e de representar uma causa. O ativismo de Nina não era de forma alguma subjetivo. Ela era acida e muita direta em suas críticas. Em plena Guerra do Vietnã, ela se apresentou para as tropas em solo americano com um poema que contrariava os anseios bélicos estadunidenses. Foi dessa forma que, uma de suas composições se tornou um dos hinos da luta pelos Direito Civis.

Mississippi Goddamm foi escrita no icônico ano de 1964, e fala sobre o assassinato de 4 crianças em 1963, em uma igreja da cidade de Birmigham no estado do Mississippi. Nina cita em sua letra a violência pregada contra a população negra nos estados sulistas do Alabama, Tennessee e Mississippi e logo a música se popularizaria entre a resistência afro-americana.

Can't you see it
Can't you feel it
It's all in the air
I can't stand the pressure much longer
Somebody say a prayer



O Movimento pelos Direitos Civis nos EUA foi o lugar de encontro de diversos artistas que viam nesse ativismo a esperança por dias melhores, dignidade e o exercício da igualdade de direitos. O final da década de 1950 e o início dos anos 60 foram marcados por diversas manifestações respostado as ações de ódio de grupos supremacistas brancos, principalmente nas regiões Sul e Central dos EUA. Diversas canções foram entoadas como gritos de resistência.

Joan Baez foi uma das que estiveram na linha de frente do efervescente ativismo dos anos 60. Participante ativa das manifestações pelos Direitos Civis e abertamente contraria a Guerra do Vietnã, Baez iniciou sua carreira com a forte presença do Folk, tendo agregado já nos anos 60 os elementos elétricos que denotam de uma influência das bandas inglesas que estouraram na época. Joan Baez foi companheira musical de Bob Dylan, e juntos interpretaram e escreveram diversas músicas de protesto durante as décadas de 60 e 70.

We Shall Overcome não foi escrita por Baez, mas foi na suave e contundente interpretação de Baez durante a Marcha em Washington D.C que a canção se tornou ainda mais popular.

Oh, deep in my heart
I know that I do believe
We shall overcome, some day





                                                                                     
Víctor Jara, Atahualpa Yupanqui, Mercedes Sosa, León Gieco, Milton Nascimento, Joan Báez são conhecidos por darem vozes as canções de protesto, e todos eles tiveram suas carreiras marcadas por interpretações das músicas da chilena Violeta Parra. Não apenas uma divulgadora da música popular chilena, mas sendo considerada a fundadora da música popular daquele país, Violeta foi uma artista com múltiplas facetas.

Como escultora e ceramista, teve sua exposição individual no Museu do Louvre, em 1964. Mas foi como a compositora de um cancioneiro que se tornaria o símbolo de seu país e influência para outros artistas da América Latina que Parra foi imortalizada.

Em sua canção de protesto Los hambrientos piden pan, que após sua morte ficaria conhecida como La Carta, Violeta Parra usa a correspondência em que recebe notícias de seu irmão Roberto, que estava sofrendo perseguição política no Chile – nessa época ela vivia em Paris- para retratar as questões sociais recorrentes na América do Sul tomada por regimes opressores.

Yo que me encuentro tan lejos
Esperando una noticia
Me viene a decir la carta
Que en mi patria no hay justicia
Los hambrientos piden pan
Plomo les da la milicia, si




O sobrenome Confederado não lhe cai bem. Ao lado de Gal Costa e Nara Leão, Rita Lee Jones foi uma das mulheres que participaram do histórico disco Tropicália ou Panis et circenses. Rita nasceu em meio ao conforto estilo classe média muito bem abastada, repousada na Vila Madalena. Filha de um dentista norte-americano -que acrescentou o Lee em homenagem ao general Confederado- e neta de imigrantes italianos, Rita foi criada para seguir a profissão do pai, odontólogo, mas ela estava destinada a ser a ovelha negra da família.

Com os Mutantes se tornou referência no Rock Progressivo que ainda engatinhava no Brasil. Já nos anos 70, foi com a banda Tutti Frutti que Rita Lee marcaria de vez o seu nome como uma das artistas mais influentes da música brasileira. Rita já escreveu diversas canções onde questiona os padrões de gênero.


Porque nem toda feiticeira é corcunda
Nem toda brasileira é bunda
Meu peito não é de silicone
Sou mais macho que muito homem




Quem houve Chavela Vargas talvez não de conta do forte papel de quebra de paradigmas que sua figura proporcionou dentro da música tradicional mexicana. Nascida na Costa Rica e radicada no México durante cerca de 80 anos, Vargas ocupou um lugar que antes parecia exclusivo para os homens. A tradição da música rancheira mexicana é predominante ocupada por figuras masculinas, e foi Chavela, que entre os anos 30 e 50 ocupou seu espaço interpretando conhecidas canções do cancioneiro mexicano.

Fez parte do círculo de amizade de Diego Rivera e Frida Kahlo, com quem suspostamente teria vivido também um relacionamento amoroso. Viveu uma vida de excessos, e viu o alcoolismo praticamente acabar com sua carreira. Nos anos 90, Pedro Almodóvar descobre a interpretação de Chavela e a incorpora a trilha de alguns de seus filmes. Foi a volta de Chavela Vargas ao seu merecido lugar de ícone da música tradicional mexicana.

A paixão com a qual Chavela viveu sua arte e sua vida parecem se encontrar na interpretação dela para a música Paloma Negra, de Tomás Mendez Sosa.

Hay momentos en que quisiera mejor rajarme
y arrancarme ya los clavos de mi penar,
pero mis ojos se mueren sin mirar tus ojos
y mi cariño con la aurora te vuelve a buscar.


E o Brasil redescobriu a potência de Elza. Discriminada durante anos de sua carreira, Elza Soares amargou duros anos de perseguição no inicio de sua relação com Garrincha. Acusada pelos conservadores de destruir o casamento do então jogador, Elza teve uma vida artística e pessoal cheia de altos e baixos. Mas o tempo, ah o tempo, esse foi responsável por colocar tudo no lugar e trazer o reconhecimento justo por uma carreira de resistência.

Filha de um operário e de uma lavadeira, Elza Soares foi criada na periferia do Rio de Janeiro. Com uma vida dura, ela foi obrigada pelos pais a casar-se quando ainda tinha 12 anos de idade, tendo seu primeiro filho ainda na adolescência. Sua origem humilde era motivo para o preconceito velado que sofria ao se apresentar nas rádios, mas a resistência dela sempre teve uma força condizente com a potência de sua voz.

Foi escolhida pela BBC como a cantora brasileira do milênio. Cantou o hino Brasileiro na abertura do Pan Americano de 2007 e participou também da abertura dos Jogos Olímpicos de 2016. Elza é a Mulher do Fim do Mundo.

Quebrei a cara e me livrei do resto dessa vida
Na avenida dura até o fim
Mulher do fim do mundo

Eu sou e vou até o fim cantar

sexta-feira, 18 de março de 2016

Contracultura| Músicas de Aço para Tempos de Chumbo


Domingo, dia 13 de março de 2016. Fiquei aqui, de bobeira, nesse sofá no qual estou sentada agora a escrever. Foi um dia apático e eu não queria nada mais além de ouvir música e assistir futebol. Essa tal de depressão é uma escrota preguiçosa.

Nessa toada, saí escutando tudo que tinha direito. No sábado a Liebe/General Ana Seerig já havia me feito escutar Golden Boys, me tirando da inercia em que andavam meus dias musicais. Sim, eu estava há 2 meses ouvindo Ella Fitzgerald e Beatles. Não que isso seja motivo para me auto achincalhar, mas já estava matando minha curiosidade musical. Quando se passa tanto tempo ouvindo ases da história da música, você passa a achar que nada mais faz sentido, aquilo já é bom demais para ser trocado. E nisso seu pendrive fica nessa mesma pegada por meses.

Em meio aos acontecimentos do fatídico e depressivo dia 13, quase que instintivamente parti para o Youtube numa busca desenfreada para tudo que remetesse a musicalidade no Brasil entre os anos de 1968 e 1974. Então o que escutei o dia todo foram músicas de aço para tempos de chumbo.

Minha viagem progressiva começou por Mutantes, passou por Caetano, Gal, Bethânia e Secos e Molhados. Desaguou em Milton Nascimento, Macalé, Ave Sangria e Quinteto Violado. Os Novos Baianos, Alceu e o Som Imaginário também estavam lá. Tudo me levou para uma órbita diferente, onde a guitarra elétrica e os sintetizadores davam conta de toda força existente em forma de música. Foram anos loucos, onde tudo que foi produzido traduz exatamente o contrário do que se era exigido pelo governo ditatorial. Era um recado.
A semana tem passado, e estranhamente tudo se encaixa como peças de lego. Em meio a dias turbulentos na política nacional, só consigo pensar se as pessoas nunca ouviram essas canções, ou se sabem em que contextos elas foram feitas. Pois bem, foi para isso que estudei, para escrever narrativas históricas.

É uma narrativa simples, mas com cenas de terror. E peço, por favor, que sigam a ordem cronológica dos álbuns para perceber a musicalidade da tensão. O anjo da morte passou por aqui em 68, e sua jornada foi intensa e duradoura, 74 parece não ter terminado.

Acho apático, egoísta e de um retardo sobre-humano achar que “minha família viveu na ditadura e não aconteceu nada com eles. Era gente de bem, não bandidos”. Pois bem, fico feliz por sua família, eles não entraram na estatística das prisões, sequestros, torturas e desaparecimentos. Eles não tiveram dentes quebrados, corpos dilacerados e filhas estupradas por agentes “da lei”. Eles não tiveram de fugir com seus filhos pequenos para sobreviverem, não precisaram que seus filhos presenciassem seus espancamentos, e muito menos, que seus filhos crescessem órfãos de pais sem túmulos. E fico triste que você não possa perceber que mesmo não sofrendo tortura corporal a sua família sofreu o maior dos abusos, se tornou acéfala. A geração que viveu 68-74 e saiu de lá achando que tudo estava ok é uma geração que não estudou história, não porque quiseram, optaram, mas porque foram proibidos. Uma geração que teve a Filosofia trocada pela “Moral e Cívica” e acha que foi a mesma coisa. Uma geração que tem medo de receber um “Por que? ”. Faça um teste, tente questionar essas pessoas, o “por que? ” as cortam como punhal.

Eu cresci em uma dessas famílias que “nada de mal fizeram para apanhar da ditadura” e que muitas vezes desmerecem a luta daqueles que lá estiveram, na frente de batalha da democracia. E sinceramente, me sinto orgulhosa de que alguns elementos na minha formação me fizeram nadar ao contrário.

Sabe quando E.P. Thompson falou que a classe operária estava lá em seu nascimento? Pois é. O mitológico historiador inglês só queria nos dizer que começamos a lutar juntos quando percebemos o quanto temos em comum, como nossas experiências nos unem. Acho as vezes que fica difícil para alguns indivíduos conseguirem respeitar a luta alheia. Eu pareço ouvir meu Pai Tiago dizendo “Alice, se tem uma coisa que aprendi com meu pai e posso ensinar a você é, nunca desmereça a luta de ninguém e nunca esteja do lado dos opressores”.

Aprendam, jovens, esses álbuns não são feitos de músicas. Eles são feitos de manifestos. Não fiz esse post para exaltar músicos, cantores, produtores... fiz em honra de todos aqueles que ousaram sobreviver. Isso é música de sobrevivência. Ouça os riffs, na verdade eles são gritos.

Para José Roberto Gomes, por ter ousado sobreviver e por através de seu filho ter me ensinado tanto. Muito obrigado, Vô. A sua voz também pode ser ouvida em meio a esses manifestos.

https://www.youtube.com/watch?v=KIiwbHqtb7w TROPICÁLIA OU PANIS ET CIRCENCIS 68