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sexta-feira, 16 de março de 2018

Marielle Franco l Lágrimas, luta e música I




Faz tempo que não escrevo aqui. Não escrevia porque não via motivo para escrever. Parece tolice, mas por mais que eu ensaiasse um rascunho, ouvisse algo novo, redescobrisse alguma coisa que há tempos não cantarolava, não via o porquê de escrever. Soava hipócrita.

Escrever é uma verdade. Escrever é transcrever a alma. É mais do que falar, porque podemos ensaiar diversas vezes uma mentira a ser pronunciada, mas escrever uma mentira corta como uma faca, pois te coloca de frente as palavras. As palavras escritas são tatuagem no papel, na tela e tinta ou imagem do que pensamos ou nos disfarçamos. O que escrevemos martela na nossa cabeça. Se é algo justo, digno, você se orgulha. Se é injustiça, mentira e falácia, você vai irremediavelmente levar consigo como martelada dissonante na mente. A palavra escrita é um legado.

Diante de todas as pancadas que temos recebido na cara desde o Golpe de 2016, há momentos que irracionalmente mergulhamos em uma letargia porque tudo parece cruel e doloroso demais para ser visto. As redes sociais são ambientes de reverberação do que vale a pena compartilhar e também do que machuca. É desumanidade em proporção industrial. É fascismo se travestindo de religião, moralismo e nacionalismo, ou seja, uma velha receita que os livros de História já nos alertaram, mas que imbecilmente – ou conscientemente – de tempos em tempos volta com força pisando na gente que está ao lado de quem luta contra opressão. Para além dos fascistas, também estamos lidando com o os representantes do “mercado”. Esses representantes estão instituídos de poder no Legislativo, Executivo e Judiciário, estão lá para garantir que nada desviará o natural curso do classicismo que está no cerne do Brasil. Esses representantes têm padrão, rostos que desde sempre ocuparam esses lugares de poder. Homens brancos, ricos, heteronormativos, que para além de apáticos ao que se passa a margem do sistema, são mandantes, cooexecutores de todas as chagas sociais desse país. No Brasil, os 3 poderes, ditos republicanos, têm árvore genealógica.  

Quarta-feira a chave girou. Girou dolorosamente. Em meio a inercia que me encontrava – e me envergonho disso – assisti do sofá a PM de São Paulo, o esquadrão da Morte do PSDB, não se fazer de rogada e quebrar, literalmente, a cara de servidores públicos com transmissão ao vivo. Servidores públicos (assim como os integrantes da própria PM) lutando para não ter direitos usurpados em meio a desgovernos que há tempos se engendram e fazem morada na Prefeitura de São Paulo e no Palácio dos Bandeirantes, foram brutalmente reprimidos. Um cala boca com cassetetes. Foi o primeiro murro do dia, como um jab para abrir a guarda ou um soco no fígado para enfraquecer, mas não era o golpe final.

O soco cruzado, de direita, veio no final da noite. Executaram a vereadora pelo PSOL e ativista Marielle Franco. Mulher negra, lésbica, da Favela da Maré, mãe, acadêmica e alguém que não estava na inercia. Marielle ousou mudar a ordem “natural” do sistema. Pautou sua vida política na tríade do direito a cidade, na igualdade de gênero e no tão necessário debate de raça, tudo isso exaltando principalmente a necessidade de discussão desses pontos para e com os moradores das favelas. Marielle era formada em Ciências Sociais, era mestra em Administração Pública e há mais de 10 anos vinha atuando na militância pela efetivação dos Direitos Humanos no Rio de Janeiro. Ela denunciava o Estado Penal, como ela mesma chamou em sua dissertação. Esse estado que vende a ideia de insegurança social para aplicar uma política de militarização para oprimir e controlar os mais pobres.

Marielle ocupava um importante lugar de fala e sua EXECUÇÃO foi claramente uma tentativa de silenciar Marielle e todos que lutam pelas mesmas pautas que ela. Além disso, fica um gostinho amargo de que os tiros que desfiguraram Marielle, e que também assassinaram Anderson, foram atirados na quarta-feira para acertar as eleições de outubro. Primeiro que, Marielle e sua luta traçavam caminho para o prédio anexo do Palácio da Guanabara, o que por si só iria cada vez mais engrossar o coro de suas denúncias contra a ação truculenta dos mecanismos de controle do Estado.

Além disso, vem se desenhando um panorama medonho para que se estenda a permanência da atual configuração do Planalto por mais 2 anos, em um verdadeiro regime de exceção.  Isso faz sentido, quando pensamos que o famigerado “mercado” não emplacou nem um candidato – tentou brotar alguns nomes que foram rechaçados com veemência, Luciano Hulk foi um desses – e claramente vai inviabilizar, através de mecanismos jurídicos e midiáticos, a candidatura sólida de Lula, além de não querer pagar para ver um fascista rasgado como Bolsonaro assumir o Planalto. Diante de tudo isso, tudo aponta para que o “Grande Acordo, com STF, com tudo” continuar do jeito que está.

Não conheci Marielle, não sabia sobre sua história e talvez isso faça tudo ainda mais difícil de digerir. Ela defendia ideias com quais eu partilho e tento aprender mais sobre todos os dias. Não sou uma mulher negra, e mesmo que eu tenha crescido em uma comunidade pobre, tive privilégios que com toda certeza não foram dados a muitos dos jovens que cresceram comigo, além de que, a realidade de uma lésbica negra é ainda mais difícil, pois é estar exposta a misoginia, lesbofobia e racismo a máxima potência (inclusive dentro da própria comunidade LGBTQ). Sendo assim, ouvir o que Marielle disse durante seus trabalhos de militância me enriquece e cresce em mim a vontade de ver se fortalecer e surgir outros nomes que deem continuidade a essa luta que precisa ser constante. Nomes como o de Maria Clara de Sena, mulher trans negra que está exilada no Canadá após sofrer ameaças em meio a sua luta por efetivação dos Direitos Humanos dentro do sistema penitenciário em Pernambuco e tantas outras mulheres que precisam ser ouvidas. E de tantas outras mulheres que precisam seguir o caminho de Marielle e ocuparem lugares de poder.

E com gosto de sague na boca e alguns sons na cabeça eu decidi escrever sobre tudo que já foi colocado acima, mas também sobre e para Marielle, com obras que sinceramente vão me lembrar dela para sempre. (Click para o segundo texto) 


Marielle Franco l Lágrimas, luta e música II




Vai teu caminho, que eu vou te seguindo no pensamento e aqui me deixo rente quando voltares, pela lua cheia para os braços sem fim do teu amigo. Vai tua vida, pássaro contente


Em 25 de setembro de 1956 estreava no Teatro Municipal do Rio de Janeiro a peça musical Orfeu da Conceição. Escrita por Vinicius de Moraes (músicas de Tom Jobim, cenário de Oscar Niemayer), foi apenas a segunda vez que uma peça protagonizada por atores negros subia ao palco do Municipal, que era um espaço claramente de uma elite. No palco, Ruth de Souza e Haroldo Costa (e outros atores do Teatro Experimental do Negro de Abdias Nascimento) encenavam em três atos uma adaptação – ambientada nas favelas cariocas – do mito grego de Orfeu e Eurídice. Monólogo de Orfeu, Lamento do Morro e Se todos fossem iguais a você fizeram parte da trilha sonora que três anos depois seria lançada em vinil. Orfeu da Conceição, dentro da realidade da época e todo seu contexto, dá protagonismo ao morro. É de uma beleza e simbolismo atemporal e nunca foi tão necessário revisitar essa obra. Em seu último ato ecoa:

Juntaram-se a Mulher, a Morte a Lua
Para matar Orfeu, com tanta sorte
Que mataram Orfeu, a alma da rua
Orfeu, o generoso, Orfeu, o forte.
Porém as três não sabem de uma coisa:
Para matar Orfeu não basta a Morte.
Tudo morre que nasce e que viveu
Só não morre no mundo a voz de Orfeu.

Marielle Franco lutou para desestigmatizar as populações das favelas, que poucas vezes são retratadas protagonizando algo que não seja ligado ao crime organizado. Lutou por uma política inclusiva, por uma cidade do Rio de Janeiro que oferecesse condições para que as populações dessas comunidades estivessem inclusas em um plano que estendesse a eles o direito a cidade. Era um dos pilares de seu mandato no legislativo municipal. A de insegurança social é plantada e cultivada pelo Estado para que esse faça seu controle social, oprimindo as populações mais vulneráveis. Marielle denunciava um sistema que trata a população negra, favelada, desassistida e tratada como gado, cercado, cerceado, que pasta sob vigilância e é abatido quando convém. 


Ela me conta que era militante e trabalhou por nós
Com algumas mulheres, foi feliz
Com outras foi mulher
Que tem muita luta no coração
Que tem dado muito amor
Espalhando a consciência
E o amor
Mas ela ao mesmo tempo diz que tudo vai mudar
Porque ela vai ser o que quis, inventando um lugar
Onde a gente e a natureza feliz vivam sempre em comunhão
E a tigresa possa mais do que o leão
           
            Estava sussurrando Tigresa há dias. E ontem Ana Cañas teve licença poética para colocar na letra um pouco de Marielle. Durante muito tempo se discutiu sobre para quem Caetano Veloso havia escrito Tigresa. Uns diziam que era para Sônia Braga, outros que era para Zezé Motta. Certa vez, Caetano falou que a letra tinha muito de ambas, mas não era apenas sobre elas, mas sobre muitas mulheres que ele conviveu ou viu naquela época. Essa mulher linda e forte parece ter ganho mais um rosto.  

Pouco tem se falado sobre o fato de que Marielle Franco era lésbica, algo que Ana Cañas fez questão de dizer poeticamente na sua interpretação da letra de Tigresa. Ser o L da sigla tem em si um peso gigantesco dentro de uma sociedade que ao mesmo tempo que é homofóbica é também misógina. A misoginia se encontra inclusive dentro da própria comunidade LGBTQ, que é um espectro da sociedade machista ao qual estão as margens. O racismo e a misoginia estão tão dentro da comunidade LGBTQ quanto da casa do nosso parente mais conservador. E embora saibamos muito bem que a EXECUÇÃO de Marielle não tenha sido exclusivamente por questões identitárias, mas uma associação de tudo isso com a representatividade de seu corpo político que para os mandantes era necessário silenciar, ainda ecoa também a necessidade de se fortalecer os debates em torno de questões de gênero, sexualidade e raça. 

O Estado não sabia de uma coisa:
Para matar Marielle não bastava a morte. Tudo morre, que nasce e que viveu. Só não vão matar, tirar do mundo a voz de Marielle.


Marielle,
PRESENTE. 

quarta-feira, 8 de março de 2017

8 de Março | 8 canções que valem mais do que as flores

Mais um 8 de março chegou e a luta permanece. Permanece em meio as descrenças, desgraças e a opressão. Os repetidos desejos de “Feliz dia da mulher” ainda soam como uma faca, sufocamento e o som dos tiros que todos os dias persistem em assassinar mulheres. Mulheres da classe operaria, mulheres que cuidam de suas casas e filhos enumeras vezes sozinhas. As mulheres que precisam fazer de sua existência um manifesto de resiliência contra um sistema patriarcal encrustado no amago de uma sociedade, que por alguma causa torpe continua a negar as vozes daquelas que estão aí na luta. Que essa data não seja marcada pelas flores, mas pela luta. Que não se diminua a resistência e a consciência política de todas as mulheres a uma caixa de chocolate e a uma promoção de livraria. Que nossa luta venha a resistir a todas as tentativas de silenciamento, por nós e por todas que vieram antes. A nossa luta não vai sessar, porque ela foi plantada em cada momento da História em que as mulheres saíram do lugar que a sociedade tentava as condicionar e foram fazer a diferença.

Aqui vai algumas canções, nas vozes que não se calaram e usaram arte como instrumento de transformação e militância.


   

Quando em 8 de setembro de 1990 a jovem argentina Maria Soledad Morales foi brutamente assassinada na Província de Catamarca, no Norte da Argentina, o silêncio se tornou uma metáfora para a luta. Entorpecida, estuprada e morta por dois homens que a justiça tardou a condenar, já que suas famílias ocupavam lugar de privilegio dentro da sociedade de práticas oligárquicas de Catamarca. A comoção e o sentimento de impunidade deram início a manifestações que fariam ruir, não apenas o sistema da pequena província, mas também o modo de lutar dos grupos sociais oprimidos na Argentina.

As marchas del silencio já eram praticadas como manifestações desde os anos 70, mas foi o eco da injustiça e da opressão que soavam no Norte que as fizeram cada vez mais populares. Membros da sociedade civil de San Fernando del Valle de Catamarca, cidade em que o crime ocorreu, grupos religiosos católicos, familiares e amigos tomaram as ruas e passaram a chamar a atenção de todo país para o ocorrido. O silêncio cortante das marchas ganhou apoio e cobertura midiática.

Em 1993, o filme El caso Maria Soledad não apenas narrou, mas serviu como um símbolo da eternização da luta por justiça contra o feminicidio. Em sua trilha sonora, a voz de Mercedes Sosa imortaliza Maria Soledad na letra escrita por Osvaldo Montes.

Puede el silencio cambiar tu voz,
puede la historia cambiar.
Y puede el silencio gritar verdad,
puede el camino cambiar.




Em dias de Trump e os desencantos da spoiled classe média norte-americana, o famigerado american way of life foi posto em cheque. O sonho americano e toda a falácia da liberdade capitalista sempre se transformam em tombos homéricos em épocas de crise. Os americanos sempre carregaram o estandarte do bloco “unidos da meritocracia”, e claro que dentro de toda essa pregação que advêm da tradição dos pioneiros da colonização.

Após os anos iniciais da política de Big Stick e as manobras comerciais dos EUA no Entreguerras, a euforia econômica fortaleceu a ideia da liberdade e prosperidade tão exaltadas nas figuras do Tio Sam e da Estátua da Liberdade. A crise econômica veio, a suposta liberdade e a não regulação econômica por parte do Estado entram em recesso. Os anos de Lei Seca e de reformas paternalistas de Franklin Delano Roosevelt foram o contra cesso de tudo que os estadunidenses enxergavam - e ainda enxergam- como o real papel do Estado.

Foi em meio a Segunda Guerra que Janis estreou nesse mundo. E nas tensões e reposições socioeconômicas dos anos 40 e a guinada dos anos 50, o Texas e a vida seguindo a cartilha da boa família americana se tornou muito pequena para ela. Joplin precisava fazer amor com seu público através de sua voz e de sua presença de palco. E foi com o sarcasmo que ela desdenhou da sociedade de consumo norte-americana. A lenda Janis Joplin se utilizou dos símbolos de desejo e do discurso da meritocracia para ironizar o famoso sonho americano. Mercedes Benz foi a última música gravada por Janis, em 1 de outubro de 1970, exatamente 3 dias antes da sua morte.

“I'd like to do a song of a great social and poetical import
It goes like this”

Oh Lord, won't you buy me a Mercedes-Benz?
My friends all drive Porsches, I must make amends
Worked hard all my lifetime, no help from my friends
So Lord, won't you buy me a Mercedes-Benz?



Instituto de Música Curtis, na Filadélfia se negou a tê-la como aluna. O diploma de piano clássico obtido na renomada Julliard não era o suficiente para derrubar as portas que a segregação – legalizada- ainda empunham nos EUA dos anos 50. Ter nascido negra na Carolina do Norte não foi o suficiente para cala-la. Dedicou sua vida aos estudos musicais e ao ativismo pela obtenção dos Direitos Civis pela comunidade afro-americana.

Eunice Kathleen Waymon se fez Nina Simone, e assim entrou para o hall de figuras que fizeram do seu potencial artístico uma forma de serem ouvidas e de representar uma causa. O ativismo de Nina não era de forma alguma subjetivo. Ela era acida e muita direta em suas críticas. Em plena Guerra do Vietnã, ela se apresentou para as tropas em solo americano com um poema que contrariava os anseios bélicos estadunidenses. Foi dessa forma que, uma de suas composições se tornou um dos hinos da luta pelos Direito Civis.

Mississippi Goddamm foi escrita no icônico ano de 1964, e fala sobre o assassinato de 4 crianças em 1963, em uma igreja da cidade de Birmigham no estado do Mississippi. Nina cita em sua letra a violência pregada contra a população negra nos estados sulistas do Alabama, Tennessee e Mississippi e logo a música se popularizaria entre a resistência afro-americana.

Can't you see it
Can't you feel it
It's all in the air
I can't stand the pressure much longer
Somebody say a prayer



O Movimento pelos Direitos Civis nos EUA foi o lugar de encontro de diversos artistas que viam nesse ativismo a esperança por dias melhores, dignidade e o exercício da igualdade de direitos. O final da década de 1950 e o início dos anos 60 foram marcados por diversas manifestações respostado as ações de ódio de grupos supremacistas brancos, principalmente nas regiões Sul e Central dos EUA. Diversas canções foram entoadas como gritos de resistência.

Joan Baez foi uma das que estiveram na linha de frente do efervescente ativismo dos anos 60. Participante ativa das manifestações pelos Direitos Civis e abertamente contraria a Guerra do Vietnã, Baez iniciou sua carreira com a forte presença do Folk, tendo agregado já nos anos 60 os elementos elétricos que denotam de uma influência das bandas inglesas que estouraram na época. Joan Baez foi companheira musical de Bob Dylan, e juntos interpretaram e escreveram diversas músicas de protesto durante as décadas de 60 e 70.

We Shall Overcome não foi escrita por Baez, mas foi na suave e contundente interpretação de Baez durante a Marcha em Washington D.C que a canção se tornou ainda mais popular.

Oh, deep in my heart
I know that I do believe
We shall overcome, some day





                                                                                     
Víctor Jara, Atahualpa Yupanqui, Mercedes Sosa, León Gieco, Milton Nascimento, Joan Báez são conhecidos por darem vozes as canções de protesto, e todos eles tiveram suas carreiras marcadas por interpretações das músicas da chilena Violeta Parra. Não apenas uma divulgadora da música popular chilena, mas sendo considerada a fundadora da música popular daquele país, Violeta foi uma artista com múltiplas facetas.

Como escultora e ceramista, teve sua exposição individual no Museu do Louvre, em 1964. Mas foi como a compositora de um cancioneiro que se tornaria o símbolo de seu país e influência para outros artistas da América Latina que Parra foi imortalizada.

Em sua canção de protesto Los hambrientos piden pan, que após sua morte ficaria conhecida como La Carta, Violeta Parra usa a correspondência em que recebe notícias de seu irmão Roberto, que estava sofrendo perseguição política no Chile – nessa época ela vivia em Paris- para retratar as questões sociais recorrentes na América do Sul tomada por regimes opressores.

Yo que me encuentro tan lejos
Esperando una noticia
Me viene a decir la carta
Que en mi patria no hay justicia
Los hambrientos piden pan
Plomo les da la milicia, si




O sobrenome Confederado não lhe cai bem. Ao lado de Gal Costa e Nara Leão, Rita Lee Jones foi uma das mulheres que participaram do histórico disco Tropicália ou Panis et circenses. Rita nasceu em meio ao conforto estilo classe média muito bem abastada, repousada na Vila Madalena. Filha de um dentista norte-americano -que acrescentou o Lee em homenagem ao general Confederado- e neta de imigrantes italianos, Rita foi criada para seguir a profissão do pai, odontólogo, mas ela estava destinada a ser a ovelha negra da família.

Com os Mutantes se tornou referência no Rock Progressivo que ainda engatinhava no Brasil. Já nos anos 70, foi com a banda Tutti Frutti que Rita Lee marcaria de vez o seu nome como uma das artistas mais influentes da música brasileira. Rita já escreveu diversas canções onde questiona os padrões de gênero.


Porque nem toda feiticeira é corcunda
Nem toda brasileira é bunda
Meu peito não é de silicone
Sou mais macho que muito homem




Quem houve Chavela Vargas talvez não de conta do forte papel de quebra de paradigmas que sua figura proporcionou dentro da música tradicional mexicana. Nascida na Costa Rica e radicada no México durante cerca de 80 anos, Vargas ocupou um lugar que antes parecia exclusivo para os homens. A tradição da música rancheira mexicana é predominante ocupada por figuras masculinas, e foi Chavela, que entre os anos 30 e 50 ocupou seu espaço interpretando conhecidas canções do cancioneiro mexicano.

Fez parte do círculo de amizade de Diego Rivera e Frida Kahlo, com quem suspostamente teria vivido também um relacionamento amoroso. Viveu uma vida de excessos, e viu o alcoolismo praticamente acabar com sua carreira. Nos anos 90, Pedro Almodóvar descobre a interpretação de Chavela e a incorpora a trilha de alguns de seus filmes. Foi a volta de Chavela Vargas ao seu merecido lugar de ícone da música tradicional mexicana.

A paixão com a qual Chavela viveu sua arte e sua vida parecem se encontrar na interpretação dela para a música Paloma Negra, de Tomás Mendez Sosa.

Hay momentos en que quisiera mejor rajarme
y arrancarme ya los clavos de mi penar,
pero mis ojos se mueren sin mirar tus ojos
y mi cariño con la aurora te vuelve a buscar.


E o Brasil redescobriu a potência de Elza. Discriminada durante anos de sua carreira, Elza Soares amargou duros anos de perseguição no inicio de sua relação com Garrincha. Acusada pelos conservadores de destruir o casamento do então jogador, Elza teve uma vida artística e pessoal cheia de altos e baixos. Mas o tempo, ah o tempo, esse foi responsável por colocar tudo no lugar e trazer o reconhecimento justo por uma carreira de resistência.

Filha de um operário e de uma lavadeira, Elza Soares foi criada na periferia do Rio de Janeiro. Com uma vida dura, ela foi obrigada pelos pais a casar-se quando ainda tinha 12 anos de idade, tendo seu primeiro filho ainda na adolescência. Sua origem humilde era motivo para o preconceito velado que sofria ao se apresentar nas rádios, mas a resistência dela sempre teve uma força condizente com a potência de sua voz.

Foi escolhida pela BBC como a cantora brasileira do milênio. Cantou o hino Brasileiro na abertura do Pan Americano de 2007 e participou também da abertura dos Jogos Olímpicos de 2016. Elza é a Mulher do Fim do Mundo.

Quebrei a cara e me livrei do resto dessa vida
Na avenida dura até o fim
Mulher do fim do mundo

Eu sou e vou até o fim cantar

sábado, 6 de agosto de 2016

Off Topic| Vivendo e aprendendo a jogar

Não sei se o conceito de jogo se encaixa tão bem para vida, até porque não são todos que encaram os dias como uma competição. Em jogos sempre parece que os espíritos se acirram e teríamos como objetivo final uma classificação. Enfim, por mais que não concorde com a definição tão usada, tenho que concordar que todos os dias aprendo alguma coisa, como se avançasse uma casa em um grande tabuleiro onde eu sou apenas uma peça. Pesado, mas uma reflexão necessária.

Primeiramente, precisamos ter humildade o suficiente para assumir que o sangue bate na cabeça e volta, mas que existem nossas verdades lá, inquebráveis e que nos moldam como um oleiro trabalha seu barro. Uns são feitos de água mansa, calma, que arrefece e se agita quando necessário, mesmo assim o faz com uma suavidade linda e agregadora. Outros são de fogo, e queimam, fervem e consomem com fúria, mas aquecem espaços e movimentam ânimos. O fogo muda estados, transforma. Contrário a esses, tem gente que inflama, mas se esvai do mesmo jeito que veio, passa pela vida só para o tumulto e não deixa rastro. É efemeridade pura. A maneira como vamos nos dar com nosso amalgama é muito pessoal, depende das nossas experiências, dores e cicatrizes. Mas tem coisas que sempre vão gritar em nós.

Sabe, eu não sei pesar a mão em determinados momentos. Não sou uma pessoa deselegante e acostumada a destratar pessoas do nada. E não faço mais do que meu dever, não acredito que a gente tem de ficar fazendo ode ao ser a síntese da urbanidade. É nosso papel no mundo. Ao mesmo tempo, algumas questões são tão sagradas para nós que não dar pra fechar os olhos. A maneira como vamos lidar com essas questões vai depender de como fomos formados. Determinados temas podem dilacerar nossos cortes que já pareciam cicatrizados e nos fazer sangrar novamente.

Feminismo para mim é algo muito, mas muito sério. Sempre me senti mais representada pelo feminismo do que pelo movimento LGBTT, por exemplo. Como mulher, cansei de ser silenciada durante toda minha infância e adolescência. O nosso cala boca de todos os dias o quanto mulheres em um país com uma cultura machista e misógina arraigada.

Em diferentes momentos da vida a gente passa por abusos, muitas vezes praticados por pessoas que tem livre acesso a nossa vida, a nossa casa e que dão um nó na nossa garganta em ainda ter de olhar pra cara de cada um. É como sofrer tudo novamente. Isso traz para nossa vida uma experiência que a gente não apaga, mas fica lá tatuada como um lembrete de tudo que nós tivemos de passar pra estar aqui.

Diante disso, e sabendo que eu não tenho a suavidade e elegância das águas que citei no início, eu sou sim um Panda incendiário. Enquanto algumas pessoas conseguem -e as admiro profundamente por isso e aprendo a cada dia, mesmo que não pareça- lidar agregando e arrefecendo tudo, eu vou queimar fortemente com algumas questões. Machismo é uma das questões que vão fazer meu estado zen budista sumir.

Como alguém que já teve tanto cala boca na vida, e ainda tem de buscar lidar com isso para não enlouquecer, eu não consigo ter o equilíbrio diplomático para tratar de certas atitudes, falas e ações. Me perdoem, mas atitudes escrotas vão me tirar da casinha. Porque pode ser com qualquer pessoa, mas sempre vai reabrir minhas feridas. Me senti exatamente assim com o caso da adolescente vítima de estupro coletivo.

Eu sei que temos de dialogar, não sou uma pessoa estupida e detentora de uma arrogância que me cegue para a necessidade da construção de pontes para o entendimento. Mas determinados discursos são de uma presunção travestida de desconstrução que agem como murros contínuos no meu estômago. Não é, e nunca vai ser a ideia diferente ou a falta de conhecimento de causa que vai me irritar, o que me irrita é a prepotência. Acho maravilhoso amigos homens, e citaria vários aqui –inclusive fico em CHAMAS de felicidade quando vejo namorados de amigas todos na humildade querendo aprender, dialogar e se desconstruir de fato. Um em especial se tornou um exemplo que adoraria nomear aqui, mas não acho de bom tom expor ninguém, mesmo que seja com algo positivo- que de fato têm a sensibilidade e não precisam do selo HeForShe para não serem escrotos. Com esses homens tenho o prazer de dialogar, falar sobre experiências, porque sabemos que para a cultura machista que eles foram impostos a vida toda, isso já é um avanço.

Agora, todas as vezes que um homem pressupor que uma agressão é mimimi ou querer naturalizar fala machista eu não vou me arrepender de me posicionar do jeito mais atípico a minha conduta diária. Vai ter incêndio sim. Hoje entendo porque preciso ser rodeada de pessoas fortes, mas diplomáticas na minha vida. Eu já estaria presa em meio a um desses acessos de fúria.


No final das contas, tenho a certeza cotidiana e levo isso como um mantra, eu preciso continuar aprendendo. Inclusive aprendendo a controlar minhas chamas, porque no meio disso tudo a gente acaba queimando até quem só tá querendo ajudar. Com essas pessoas eu me permito ser repreendida e ajudada com a maior humildade que a vida já me deu. Mas machinho escroto com selo HeForShe? Esses vão continuar não passando na garganta. Já basta ter de olhar pra cara de abusador, né non? A gente engole uns sapos com muito copo de água, outros prefiro cuspir. 

terça-feira, 5 de julho de 2016

Off Topic| O palco das redes sociais e o ativismo caça likes


As redes sociais têm evidenciado as vaidades pessoais de alguns sujeitos em meio às lutas por demandas das minorias. Não estou aqui escrevendo para tomar o lugar de fala de ninguém, sei muito bem que dentro dessas discussões sem rumo que tomam espaço na internet minha posição de mulher branca e cisgênero levantam logo a fala: “Mas você tem lugar de privilégio na sociedade”. E quem disse que eu estou falando que não? Sim, antes continuar com esse texto tenho que deixar claro qual é meu lugar de fala. Como já diria o filósofo e historiador francês Michel de Certeau, quando escreveu sobre estudos da religião, “Eu sou um jesuíta falando de dentro da Companhia de Jesus”.

Sim, eu não faço ideia do que é sofrer preconceito por conta da minha cor da pele, mas não tenho o menor orgulho dentro de mim em afirmar isso. Eu não sei o que é ser seguida dentro do supermercado pelo segurança, eu nunca entrei em uma loja onde não fui prontamente atendida. Minha culpa? Não, culpa de uma construção social nefasta e arraigada no que há de pior na história humana. Mas é importante que eu exponha os privilégios que essa sociedade doente jogou em meu colo, porque a todo momento que tento lutar contra isso recebo por parte de alguns a frase, “mas você é uma mulher branca e cis...mulher branca e cis...mulher branca e cis...”.

Ok, eu já entendi. O que talvez as pessoas não entendam é o quanto toda essa falácia vem por terra quando esse meu privilégio de branca cis entra em conflito com minha orientação sexual. Nesse momento a sociedade me joga para o final da fila. Mas estou aqui deixando logo essas lacunas fechadas para seguir a linha de raciocínio. E preciso deixar claro também que eu sei que há uma necessidade de especificação das causas, até porque existem múltiplas experiencias. Por exemplo, eu nunca vou ter a mesma experiência que as mulheres negras, essa é uma luta protagonizada por elas.  

O ponto a ser problematizado aqui é simples: por que as redes sociais têm se tornado palco para tanto show travestido de ativismo? Não estou aqui para julgar a relevância do ativismo de ninguém, mas em meio ao bombardeio de “textões” dissonantes acredito que exista uma necessidade da volta para o básico: a teoria.

Esses dias a briga (porque para mim discussão é outra coisa) vem girando em torno do que é legitimo ou não dentro das demandas feministas. Sabe aquelas frases “disso as feministas não lembram” “sobre isso as feministas não falam” ? Pois bem, é sobre essa construção de ideia, fomentada pelas pessoas que querem desguarnecer a fala do movimento feminista, que precisamos tratar.

Em 1998, a professora Doutora Maria Clementina Pereira Cunha teve um artigo publicado pela revista Tempo, um periódico da UFF. Esse artigo intitulado De Historiadoras, Brasileiras e Escandinavas: Loucuras, folias e relações de gêneros no Brasil (século XIX e início do XX), faz uma análise coerente sobre os estudos da História das Mulheres e as discussões dos estudos de gênero.

A autora começa contextualizando o Movimento Feminista em meado dos anos 70 do século XX, momento em que a militância teve um grande fortalecimento e número. Pois bem, Clementina - que é uma historiadora exemplo para mim em todos os sentidos - escreveu como o ar de entusiasmos aflorava no movimento feminista setentista, e trazia com suas demandas o surgimento de segmentos de imprensa voltados para a divulgação das ideias dos grupos. Além disso, foi um momento de muito simbolismo por trás das famosas queimas de sutiãs e afirmação dessas mulheres como sujeitos coletivos. Enfim, não é bem sobre essa parte do texto de Clementina que irei me debruçar, mas sim na continuação, quando ela desnuda a face das mulheres que não estavam às vistas do Movimento Feminista naquele momento. Ela ressalta uma matéria de um dos jornais da época, o Nós mulheres, que mostra a vida de uma mulher em sua terceira passagem por hospitais psiquiátricos da cidade de São Paulo.

Uma mulher internada e tida como louca por “não ser boa esposa”, que se culpava por não “cumprir seus papéis de esposa” ou ter de fazer isso de maneira forçada. Ela é o retrato das mulheres fora da curva, aquelas que até nós, as feministas, ainda temos dificuldade de abarcar as suas demandas. Sabe a frase “se seu feminismo não enxerga inclui...”? Pois é, nosso feminismo anda discutindo mais a exclusão que a inclusão de demandas. Estamos vivendo um momento de rachadura em uma estrutura que deveria ser inclusiva.

Estamos nos fechando em nossas caixinhas de demandas pessoais e esquecendo o sentido de coletividade. Sim, como a própria Clementina ressalta em seu belíssimo texto, as mulheres têm diferentes experiências, e por isso o tratamento teórico do tema deve ser bem plural. No entanto, isso não pode ser confundido com separação, apartamento de pautas. Não aprendemos nada com o sentido de classe? E só para deixar claro, eu sou da História Social.. aqui tem Marx, Thompson. Me desculpe, mas não estamos aqui para mentir.

Os mais “entendidos” do tema podem me apedrejar, inclusive por trazer para essa discussão o sentido de classe. Sim, mais uma vez, o sentido de classe em Thompson. Parece bem repetitivo da minha parte, mas só vou parar de falar nele quando ficar entendido que fazer parte de uma classe nada mais é que se enxergar no outro. Claro que as múltiplas experiências tornam isso mais complexo, mas a experiência de ser mulher dentro de um contexto machista e misógino já poderia ser o suficiente para deixar de lado a marmotagem dos “closes” e deixar as vozes das manas ecoarem.

É simples, para algumas pessoas o ativismo se tornou uma forma de afirmação social. A visibilidade que a rede social dá e a forma com que alguns grupos usam pessoas como estandartes, vem fazendo com que se forme um campo de batalha. Nesse chamariz de oportunistas, temos homens que bancam de desconstruídos para mascarar o machismo caviar que vem em embalagem de HeForShe e, claro, também temos mulheres que permanecem com a cabeça nas lutas dos anos 70. Enfim, tem lugar para todo mundo ganhar like, gerar polêmica e fazer textão.

Ao mesmo tempo, eu vejo pessoas com discursos coerentes, mas que se assustam ao ter que se expor aos leões do ativismo caça níquel. Não sei onde isso tudo vai parar, mas imagino os caminhos que estão tomando. Nesses momentos penso na minha avó, Dona Alice Eugenia. Mulher criada no interior do estado de Pernambuco e que teve sua vida marcada por muitas viagens para a capital, apenas para ser internada nos hospitais psiquiátricos. Minha avó nasceu em uma família humilde, mas foi além do seu tempo ao iniciar a alfabetização de crianças na região da Serra da Passira. É professora aposentada, e nada leu sobre feminismo na vida. Mas foi com ela que recebi algumas lições.

Minha avó, assim como a mulher relatada no texto de Clementina, foi internada diversas vezes por seu próprio marido. A culpa também recaía sobre ela, a histérica. Minha avó tinha que lidar em silêncio com a perda da filha mais velha, morta em um atropelamento. Ela não tinha o direito de sentir, ela apenas teria que passar por cima do fato e seguir sendo uma esposa “presente”. No auge de sua depressão, ela teve de lidar com a gravidez e posteriormente com os tratamentos psiquiátricos.


Me pergunto: o que faz da minha avó e outras mulheres escondidas em meio a esses discursos, menos parte e cara dessa luta? Será que a gente está realmente preocupada em lutar pelas demandas como um grupo ou só estamos querendo seguidores no Facebook? Será que estamos mesmo colaborando para o fortalecimento e efetivação das lutas por igualdade de gênero, ou queremos amaciar nosso ego? Eu também me faço essa pergunta todos os dias que penso e me questiono sobre o que me faz ser feminista. Esse texto é um exercício pessoal de autocritica.