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segunda-feira, 20 de fevereiro de 2017

Off Topic| Carta aberta à minha aluna angustiada

Não sei mais se o relógio continua na mesma batida. O passo acelerado nas ruas e os pneus cantando no asfalto parecem nos mostrar como estamos sendo atrasados, um passo atrás. A vida tirou o Coelho e seu relógio dos livros de Lewis Carroll e o trouxe diretamente para nossos ouvidos. O cotidiano regido pelos horários, agendas e calendários rabiscados de eventos parecem buscar preencher o vazio de nossa inquietude pessoal. Os cabelos brancos chegam mais cedo do que antes, a sensação de fracasso também.

A crise dos 30 encurtou para os 25, e aos 16 parece que os adolescentes já estão a cometer um pecado capital se não souberem o que cursar, com o que trabalhar e para onde ir. A geração fast food também precisa engolir sem mastigar seus medos, angustias e as crises depressivas cada vez mais constantes e precoces. Precoce, por sinal, é um termo que precisa ser revisto já que nessa “sociedade do ontem”, onde o agora já parece ser tarde demais para os sonhos e expectativas, o que taxava muitos como “adiantados” agora já soa como a normalidade de um sistema que suprime infâncias, negocia adolescências e nos entrega aos lobos na juventude.

Um outro dia uma ex-aluna me enviou uma mensagem em meio a uma crise de ansiedade, parei e ouvi. Sei bem como são esses episódios, pois eles se repetem na minha vida como comedia barata na Sessão da Tarde. Quantas vezes já não fui eu implorando pelo conselho da minha orientadora em meio a uma crise que não me deixava escrever? Muitas, contando as vezes que foram e os momentos que ainda virão. Mas voltando a minha ex-aluna, ela não tem sequer 17 anos e já sente nos ombros e na mente uma responsabilidade que não pertence a ela, porém massageia o ego dos que a cercam.

De um lado os pais esperam que os filhos se tornem o diploma pendurado na parede da sala, a satisfação de ter “formado” um ser humano que carrega consigo valores e algum relativo sucesso, o que os fazem envaidecidos como a vitória de sua própria criação. É um extinto de sobrevivência, querendo mostrar que sua prole pode prevalecer e seguir em frente nos jogos vorazes da vida comandada pelo capital. Os pais precisam de filhos médicos, advogados e engenheiros para que sejam honra à sua própria consciência. Vivemos em um mundo que repete o cachorro Mutley em seu eterno desejo por medalhas.
Professores cada dia mais transformam seus alunos em parte de sua jornada pelo marketing pessoal. Um aluno aprovado no vestibular pode ser a propaganda de um trabalho que pode ser pautado em números. Dessa maneira, tem se tornado comum a cobrança excessiva em detrimento a qualidade de vida dos alunos, pois o “sucesso” desse aluno também passou a ser o troféu da consciência de alguns profissionais.

Não estou aqui dizendo que deve haver um relaxamento, muito pelo contrário. Eu apenas acredito que a busca pelos números frios e aprovações de encomenda estão em um crescente. E em meio a isso tudo, em meio a angustia de minha aluna eu pergunto: qual o problema de descobrir no meio da graduação que não era aquilo que você queria para sua vida? Qual o problema dos recomeços? Qual o pecado em não concluir a graduação aos 23 anos ou de não estar em um mestrado em imediato ao termino da graduação? Queremos a velocidade da realização de uma vida que não é nossa, queremos a concretização de sonhos que não temos em nossas mentes. A verdade é que nossa sociedade se tornou tão superficial que chegamos ao ponto de perder nossos nomes para dar lugar as famigeradas “doutoras”, “mestras” ou “excelências”. Perder nossa identidade faz parte do kit consagração social, perder nossos nomes e trocar por coisas impessoais é um preço caro e que muitos exercem a compra com sorrisos nos lábios sem saber o real valor da cobrança final.

Em meio a tudo isso, eu sempre me deparo com manchetes indignadas com o fim “precoce” da carreira do Adriano, ele mesmo, o Imperador. Fico me perguntando o porquê de as pessoas não conseguirem aceitar o fato do cara não querer mais a vida midiática. O pecado do Adriano é ter abnegado do futebol profissional para voltar para a comunidade e passar o resto do tempo lá com as pessoas que o viram antes que ele deixasse de ser só o Adriano para carregar a alcunha de Imperador. Pesado.


Enfim, a vida é um sopro e tem se arrastado em dores causadas pela angustia que cerca a vida de pessoas com crises de ansiedade. Talvez tenha se tornado um caminho sem volta, provavelmente a geração milênio vai ter de pagar essa conta com juros altíssimos para poder não ser o motivo do “fracasso” que leva aos risos das tias em almoço de domingo. Provavelmente, não farão nada só por si, mas primordialmente para dizer que podem, já que a vida passou a ser tratada como mais um estágio no videogame. Meu único apelo é: vocês não são, nem precisam ser, troféus da consciência de ninguém. 

sexta-feira, 15 de julho de 2016

Crônica| O que te faz perder o sono?


Algumas madrugadas são mais longas que as outras. Há dias que a insônia se torna uma parceria inevitável. Isso pode acontecer por motivos diversos, inquietações dão o tom. Nessas horas, esvaziar a mente pode ser a única solução para transpor a alta voltagem que nos põe a divagar noite a dentro. Esvaziar a mente pode representar se encher de si mesmo.

Leituras, sons e escrita formam a tríade do meu sério relacionamento com a insônia. As madrugadas são de um silêncio tão profundo que podemos ouvir o eco das nossas mentes, o que pode trazer à tona uma avalanche de emoções e memórias. Mas não há nada que possa ser feito, refletir sobre isso tudo é a única forma de apaziguar as descargas elétricas que nos acendem nesses momentos.

As Ibeyi são a quebra do silêncio hoje. Stranger/Lover toca repetidamente e expõe alguns conflitos internos. No final das contas fazer uma varredura nessa casa com tantos cômodos, a chamada consciência, se torna muito mais fácil enquanto a única zoada possível é do ventilador.

No one is wrong or right
I want to end our fight
Let's dance our way into the light
We never saw inside
Love is not what has failed
Why can't we both be saved?

Bem, as vezes a vida nos oferece uns choques elétricos. Tenho agradecido por todos, mas não quer dizer que é fácil de lidar. Hoje fiquei aqui pensando que nós temos o dom de complicar coisas simples, temos a tendência aos caminhos mais íngremes e acentuados. Por que não enxergar o óbvio? Por que não tentar o simples? Repelimos o óbvio porque temos medo da felicidade.

A felicidade é algo que todos procuram, mas morrem de medo de encontrar, porque no fundo não sabemos lidar com ela. O temor de tê-la, finalmente, e depois correr o risco de perde-la acaba nos jogando na inércia. Quando Lispector escreveu Felicidade Clandestina, ela falou sobre o quanto não nos sentimos dignos de sentir a felicidade, como ela se torna algo clandestino para nós. As vezes fazemos de conta que não a temos para depois ter a sensação de nos alimentar dela em pequenas porções.

A gente prefere sofrer por coisas fadadas ao desastre, porque a dor já é uma velha companheira. Nos amarramos nas nossas próprias dores por julgar que algo diferente disso não pode ser nosso. A felicidade não é resultado da cura das nossas dores, mas sim a permissão de nos livrarmos delas. Ser feliz, no final das contas, não é o “tudo deu certo”, mas o “eu me permiti”.

Today is a new day
We'll throw our regrets away
For the older games we played
We have already paid


Hoje eu fiquei aqui pensando que tudo pode ser mais fácil se nós cultivarmos o que nos faz bem, e não termos medo a ponto de correr e repelir isso. Enfim, o nosso silêncio da madrugada é resultado do barulho da nossa mente ao tentar acomodar tudo em seus espaços. São arrumações necessárias.