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quarta-feira, 13 de julho de 2016

Playlist| Uma playlist para correr da bad



Seguindo a linha de pensamento que a música cura, estamos aqui para dar um chute na sua bad. Porque é julho, temos férias e não estamos em condições de perder tempo. Não estamos aqui para fazer ode as dores de cotovelo e muito menos lobby para os dias ruins. Sim, os dias ruins existem, são até necessários para reflexão e a busca por algo que a gente não presta atenção no barulho da euforia dos dias bons, mas se afundar na tristeza, principalmente quando essa tristeza tem nome e telefone, não está valendo.

Eu tenho uma preguiça grande de montar playlist, porque minha memória é terrível, então eu nunca consigo fechar imediatamente uma seleção de músicas. Por incrível que pareça, para quem acompanha o blog, eu sou péssima para indicações. Eu nunca lembro ou sei o que dizer imediatamente. Mas com um pouquinho de calma e boa vontade a gente monta uma playlist para todo mundo se amar no final do dia.

Essa seleção, em especial, tem CEP. E como eu não queria ser repetitiva em falar e escrever, resolvi que mandaria as energias e coraçõezinhos de Panda em forma de músicas. A gente faz o que pode, né mores? Se pudéssemos dar um grito no ouvido das pessoas, daríamos também. Mas vamos no amor, porque tem muito disso envolvido.

Drake abre as porteiras como Hotline Bling. Eu poderia acordar dançando todos os dias com essa música. Não sei vocês, mas tem gente que deixa as pessoas bem bobas assim, querendo acordar com musiquinha animada –olha que heresia... a taurina querendo acordar- A sessão continua com Rihanna e Work, porque estamos nessa vida para enaltecer a rainha. Demi Lovato, Miley Cyrus, Minaj e Beyoncé continuam na pegada do “vamos curtir, porque o resto está difícil”.

Caetano, Gil, Bethânia e Gal chegam para mudar o tom da conversa. A lista vira conversa ao pé do ouvido, porque as vezes é difícil se fazer entender. Estamos aqui esperando a deusa Ártemis aguçar a rapidez dos pensamentos. Muito Obrigado Axé é como um mantra em meio a toda agitação, de canções e da própria vida.   

Minha Lua em Peixes aparece sorrateiramente nas vozes de Caetano e Gadú. Rapte-me, Camaleoa é uma abertura de sentidos impressionante, não é coisa para iniciantes, é música para sentimento bem adulto.

Os amados e animados anos 80, que eu só posso viver musicalmente, vem com o new wave do Bow wow wow e sua I want candy, mas é com Cyndi Lauper que a festa acontece. Quem acha que o Girl Power é coisa de Wannabe para cá, nunca vai saber o que é sentir liberdade ao ouvir Girl Just Wanna Have Fun.

Enfim, foi uma playlist diversa, cheia de ondulações que nos levam desde a agitação até os momentos que a gente só quer falar algo ao ouvido. Mas acima de tudo, essa é uma lista para dar um tapa na cara da tristeza e se recusar a perder os dias ensolarados. E se faltar o sol, abra um guarda-chuva. Não estamos em condições de ficar de boca aberta esperando a vida passar.


terça-feira, 5 de julho de 2016

Pensamentos| Crônica de uma noite de insônia


E você deita, se permite cochilar e acorda 3 horas depois e se pergunta: e agora? Sinceramente? Não sei. Não faço a mínima ideia de como será daqui para frente. Pela primeira vez em quase um ano eu sentei e percebi que não tinha nada para fazer por alguns dias. É tão estranho ter essa sensação depois de meses vivendo em uma velocidade alucinante, que eu ainda não posso acreditar. É aquele mesmo sentimento de quando você sai de casa e fica se perguntando se esqueceu algo. É uma paz que a gente fica relutando a imaginar se merecemos.

Os últimos 6 meses foram os mais tristes, velozes e intensos da minha vida. Mas também foram momentos de autoconhecimento, encontros de alma e fim de ciclo. Por isso tudo, foi tão estranho sentar hoje e perceber que terei alguns dias para me permitir o ócio, sumir se necessário for. Há tempos sonhava com esse momento, mas não imaginava que ele chegaria ao pestanejar dos meus olhos.

Fevereiro tardou a se fechar, e para falar bem a verdade, não acredito que fevereiro de 2016 se encerre na minha vida. Vai ser sempre uma lacuna aberta, uma ferida magoada. As pessoas talvez não entendam, mas eu me nego a falar sobre tudo aquilo, me dói muito, não gosto e simplesmente não quero ter de lidar. Não agora. Tudo foi tão insano que ainda me pergunto como consegui viver aqueles dias. Não há nada, humanamente falando, que responda. Eu estou só tentando viver um dia após outro. Tento seguir uma rotina, ocupar a mente, fazer coisas que antes não me esforçaria para fazer. Tento me divertir e fazer piada de mim mesma, porque a vida se tornou tão dura. A vida virou um circo sem palhaços e onde eu tive que me tornar a equilibrista.

Quando as pessoas perguntam se eu estou bem acho injusto dizer algo diferente do sim. Porque no meio disso tudo eu aprendi a ser grata aos mínimos presentes que a vida me dá. Ela nos tira bastante, porções que pensamos que não daremos conta viver sem, mas ela também nos recompensa com pessoas e gestos de amor. Eu estou me permitindo viver esses sentimentos novamente, preciso deles. Encontrei pessoas incríveis e que me abriram os braços durante todo esse processo. Então, como eu poderia ser ingrata em reclamar?

Algumas fagulhas andam faiscando aqui dentro. Não sei definir muito bem ainda, pois é um misto de admiração, paixão e respeito. Só sei que tirar de mim alguns sorrisos frouxos e alguns longos textos. No final das contas, minhas emoções sempre me trazem de volta para escrita, como se eu precisasse materializar todas minhas ideias para poder enxerga-las com clareza. Mas gosto dessa sensação, ela dá uma noção de estar vivendo novamente, e isso não depende de reciprocidade, até porque sentimentos não precisam da via de mão dupla para existirem, eles simplesmente existem e tomam conta dos dias.

Eira e beira
Onde era mata hoje é Bonfim
De onde meu povo espreitava baleias
É farol que desnorteia a mim

E no meio disso tudo, eu estou aqui sem sono, ou talvez eu apenas precise organizar essas ideias para me deixar descansar finalmente. Maria Bethânia está cantando suas águas. Kirimurê chega dói de tão linda que é. Me faz pensar sobre 2 de julho e remete aos reencontros que a vida me permitiu. Como eu poderia reclamar de uma vida que me presenteou com tantas descobertas sobre mim mesma? Não acho que teria esse direito. Por mais dores que eu tenha que carregar comigo, no final das contas todo o aprendizado e todos os amores que emanaram para mim já valeriam.

Imagina que hoje eu estava ouvindo uma das minhas bandas favoritas, os mexicanos da Zoé, e fiquei aqui com cara de quem viu a fanfarra passar. Porque Lábios Rotos faz todo sentido do mundo agora. Porque a gente se vê querendo cuidar e proteger os outros, ou uma pessoa em especial. Eu tenho esse pavor de magoar as pessoas, o que muitas vezes me faz recuar. Sim, eu não sou essa pessoa inquebrável que consegue não se importar, dói muito para mim perceber que minhas palavras ou ações podem machucar alguém. Acho muito válido usar as palavras desculpa e perdão. Elas não matam. O que também não quer dizer que eu não tenha um gênio dos infernos...

Entrégame tus labios rotos los quiero besar,
Los quiero curar, los voy a cuidar
Con todo mi amor

Voltar a ter uma vida social descente provavelmente tem sido o maior dos esforços, porque a depressão e as crises de ansiedade não nos permitem exercer toda a liberdade que desejamos. Então é uma luta diária. Minha vida ganhou o seguinte mantra “um passo de cada vez e todos os passos por ele”, é uma forma de me lembrar que eu não estou só nessa jornada insana. Desse jeito eu me esforço ao máximo para não me deixar abater, forço todas as minhas próprias barras.

Se eu tocar no seu radinho
Vai ser tão bom confia em mim
Posso preencher todo o espaço
O calor do meu abraço te deixa feliz
Aperta o play e me diz você

No meio das últimas que forcei, acabei me encantando por Tássia Reis, essa figura maravilhosa que dispara “lacração” a cada frase do seu rap. Imagina só, No seu radinho já virou meu hino a permissão amorosa. Por que não?

Não é um balanço do semestre, mas uma crônica de uma noite que dormir não seria possível sem a materialização das ideias. No meio disso tudo eu poderia resumir minha vida nos últimos meses entre um reencontro maternal, os amores incondicionais que descobri no meio da dor, o subir um degrau na minha escala de satisfação pessoal e ter de lidar com uma vésper feroz. O derramamento de palavras é necessário para fazer transbordar umas emoções ainda não explicadas, saradas e amadurecidas. E assim eu vou tentando seguir o fluxo das minhas vontades e necessidades, porque isso é a direção dada pelo nosso amálgama formador. Qual o próximo passo? Não sei. Estou só tentando respirar um pouco de cada vez, mas já tenho motivos o suficiente para continuar caminhando.  

terça-feira, 28 de junho de 2016

PRIDE| Meus Sons


Música faz parte da minha memória afetiva. Eu consigo dividir minha vida em três grandes períodos musicais: Marisa Monte, RHCP/Culture Club e Maria Bethânia/Gal Costa. É como se a vida ganhasse uma trilha, e como se cada tom fosse uma passagem. Não seria possível descrever o hoje e meus sonhos sem pensar em músicas, até para meu estado de espirito e comunicação a música fala sempre melhor do que minhas próprias palavras. Melhor do que dizer, falar, tratar de sentimentos, eu deixo músicas, elas falam por mim. E hoje ela fala sobre orgulho, afirmação e amor.

Eu cresci ouvindo Marisa Monte, foi a primeira coisa que me lembro de saber sobre música. O intuito era me acalmar, era eu como se fosse ainda bebê, ficando tranquila. Verde Anil Amarelo Cor de Rosa e Carvão me leva de volta para a infância. Para uma fase antes dos 6 anos, antes de um monte de coisas se bagunçar na vida. É uma inocência, mas ao mesmo tempo uma força. Marisa era a voz da minha consciência. Ela me pariu musicalmente.

A adolescência veio. Não acredito que seja uma fase fácil para ninguém, é a época das incertezas, dos medos e da contestação. Não foi diferente para mim, e nem poderia ser. O desenrolar desse período ainda reverbera na minha vida. Dos 12 anos para frente tudo foi e é mais ondulado, mais instável. Não me queixo, aprendi a lidar com meus próprios fantasmas desde muito cedo. E de certa forma, acredito que esses pesadelos pessoais também fomentaram quem eu sou hoje. Aprendi a ter gratidão até pela minha própria desgraça. Não é resignação, é simplesmente get over.

E foi nessa época que o Rock deu o tom. Era como colocar para fora toda minha ânsia de vômito. Escutar todo aquele peso para fazer transpirar minha indignação.  Foi bem difícil, era bem mais fácil não ter passado, mas eu passei e estou aqui bem consciente de que foi como vencer uma maratona tendo fascite plantar.

Red Hot Chilli Peppers foi o som de tudo isso, dessa confusão interna e externa que era viver em meio a esse turbilhão de coisas. RHCP sempre foi a representação da audácia e da quebra de etiqueta. Era bem isso que eu queria para minha vida naquele momento. Era uma vontade enorme de dizer um foda-se bem grande para a humanidade. Até hoje Fortune Faded ainda me dá vontade de sair correndo chutando lixeira.

Ainda assim, tive um contraponto gigantesco nessa época: foi quando eu conheci o Culture Club, e quando Boy George foi morar no meu armário. Minha mãe foi uma das minhas influências musicais – foi, porque hoje ela não se permitiria aceitar esse fato -, e com ela as músicas dos anos 80 entraram no repertório da casa. The Cure, U2, Depeche Mode, REM, Legião Urbana, Cazuza e todas as coisas “descoladas” que fariam sentido na formação da minha identidade. Mas sem dúvida conhecer o trabalho do Culture Club foi como levar uma porrada no meio da cara e mesmo assim ficar maravilhada.

Boy George não é na minha cabeça coisa de festa ploc. Ele é uma entidade, sagrado demais para entrar em lugar comum na vida. Quando eu tinha 13 anos, colei no meu guarda-roupas uma foto dele em preto e branco, hoje acho que errei, ele merecia ter cores na foto. Mas a minha vida ainda era como aquela imagem de Boy George em p&b, era algo não descoberto. Ainda assim, ele precisava ficar me lembrando isso. Se Marisa Monte foi quem pariu minha fome por música, Boy George pariu meu anseio por liberdade.
Entre meus 16 e 19 anos o negócio foi confuso demais para ter música para dar conta. Foi uma confusão mental tão grande que nem eu consigo lembrar de qualquer coisa referente a essa fase. Anos de identidade bem reprimida, fuga.

E agora, aos 20 e poucos eu poderia dizer que meus ouvidos se abriram para todos os sons de Bethânia e aos tempos psicodélicos e geniais de Gal. O orgulho pessoal que tomou conta de mim, o que chamariam de empoderamento, ganhou cores, 7 cores. Com a vida saindo do preto e branco ficou mais fácil enxergar o mundo ao meu redor e ouvir os sons que estavam adormecidos aqui dentro. A gente se deixa a mercê da leveza.


Eu venho me deixando apaixonar, me permitindo sentir raiva também. A frustração as vezes pede passagem, mas o orgulho, ah... esse fica comigo de um jeito que não sai mais. Quando a gente toma conta de si e do que é nosso papel e lugar na sociedade, nada mais pode nos fazer voltar atrás. A revolução interna é um caminho sem volta. E foi com todos esses tons, do preto, do branco e das sete cores, que eu me formei. Trilhando meu caminho com todos esses sons, os meus sons.  

sexta-feira, 24 de junho de 2016

Playlist| A playlist para um dia agridoce



Tem dias que a gente não sabe o que dizer. Hoje eu fiquei sem palavras. Foi um dia com sabor estranho, diferente. Teve outros sons, outras cores, e nada do que estava planejado nesse espaço/tempo aconteceu. Experimentei minha própria companhia, sorri sozinha. Me dei o direito ao ridículo e chorei como criança que descobre a vida pela primeira vez. Foi um dia agridoce.

A inquietude que dominou minha manhã me levou a oscilar entre Cultura e Civilização, de Gal Costa e o álbum Dois amigos um século de música, dos geniais Gil e Caetano. De um lado um espirito querendo vibrar bem alto ao som psicodélico de Gal. A outra parte de mim queria serenidade. Hoje foram vários anos em um dia. Foi como estar dentro de um labirinto em mim buscando não a saída, mas um começo. Tudo muito intenso, tudo muito louco, tudo muito agitado.

No caminho pra casa e na expectativa do almoço com as companhias mais lindas que a vida poderia me presentear, fui ouvindo Rihanna. We Found Love sempre será a música que me leva de volta para 2012, me joga para meu descobrimento pessoal. Um dia preciso escrever sobre essa música e a que ela me remete. Mas por hora, podem saber que ela significa liberdade para mim.

Uma parada no supermercado. Agitação, filas e treta no estacionamento, era o prenúncio de que os planos tomariam outros rumos. Sai de lá. Olhei para o celular e vi uma série de mensagens nas redes sociais. Eu sabia o que elas queriam avisar. Fechei os vidros e me permiti. Alice Caymmi cantou Iansã e eu desejei poder ter meu pai Tiago de volta porque um dos dias que ele mais sonhava havia chegado. Como um raio é intenso, me deixei fluir. Chorar não é algo fácil para mim, mas simplesmente corriam lágrimas no meu rosto e deixei cair uma por uma até que eu tomasse novo fôlego. Cheguei em casa.

Não dava para cozinhar. Eu só poderia ficar sentada na poltrona, atônita, e tudo que eu desejei foi um abraço. Não deu. Quis o destino, que é capcioso, que eu ficasse comigo mesma. Enquanto cozinhei meu almoço escutei Bethânia e Ivete Sangalo se derramarem com Muito Obrigado Axé. Restaurei as forças.

Me dei a chance de sorrir. Assisti as bobagens e cafonices diárias da TV. Me senti viva. Foi uma sensação única. Foi como permitir pequenos prazeres, sem culpa. Zero, de Liniker, tocou e eu tive doces e dourados pensamentos. Me fez pensar sobre uma Vésper feroz que agita minhas ideias. Me banhei e me deixei cochilar.

O dia que planejei foi diferente do dia que vivi. Não podemos cobrar tanto da vida, as pequenas felicidades são vitorias diárias em meio a tantas agruras. Um novo caminho se projeta, e mesmo que eu ainda não possa mensurar aonde tudo isso pode me levar não quero o alvoroço ou o medo do que não se vive. Tenho pavor da presunção humana em definir as rotas do futuro como se fossem estradas de ferro. A vida é cortada por caminhos diversos. Ora é asfalto, leve e liso. Mas também pode se apresentar como rotas lamacentas. Às vezes a vida tem som de festa, por vezes prefere o silêncio. O sabor, esse nunca será o mesmo. Ele é acentuado por nossas aflições e euforias. Quando tudo isso se encontra, surgem os dias agridoces. 

segunda-feira, 13 de junho de 2016

Maria Bethânia| A tempestade em mim anda mansa



Sabe a beleza? Me encanta. Mas não a beleza purista, estética. O mistério me arrebata. Eu gosto mesmo é do enigma, do sussurro. Eu sou de trovoadas e tempestades, mas por hora, estou mansa como água de rio, de rio lento. Eu estou numa fase de mudanças, como diria Dona Kaya, eu estou no portal. Não sei o que me espera do outro lado, mas sei muito bem o que quero encontrar.

Em 2006, Maria Bethânia trouxe à existência o Mar de Sophia, álbum no qual tenho agora mergulhado e que traz o encontro da poetisa portuguesa Sophia de Mello Breyner Andresen e o cancioneiro de Capinam e outros grandes mestres da música brasileira. É um mergulho em meio à nossa gênese ibérica e nossa mestiçagem ritmada no samba. É o Recôncavo descobrindo a Lusitânia poética.

Então, eu tenho estado toda boba. Em meio a todos os atos de horror que seguem e colocam em cheque a humanidade desse Ser a quem denominam humano, eu tenho me jogado em uma onda de amor sem fim. Sei lá, isso não é apenas uma representação de amor romântico, isso é o aflorar da sensibilidade. Como diria a letra de Beira-Mar, “dentro do mar tem rio”.


Dentro da dor a canção
Dentro do guerreiro flor
Dama de espada na mão
Dentro de mim tem você

Eu sempre fui alguém de poucas palavras e muita observação. Mas ser mansa nunca foi uma questão, porém sempre preferi me recolher por saber que os enfrentamentos seriam caóticos em meio à minha falta de tato nas disputas. Agora estou aqui, ouvindo repetidas vezes Bethânia e sentindo como se estivesse na hora dos meus raios e trovões encontrarem água.

Quando tudo que a sociedade quer nos oferecer é ódio, o amor e o querer dar amor vira revolução. Eu estou sentindo essa alma revolucionária espreguiçar dentro de mim e dizer “acorde e vá viver. Se jogue”. Enfim, eu quero. Amar em tempos de guerra de egos, injustiça e medo é como tentar hastear bandeira branca em meio a fogo cruzado. Mas eu sempre me identifiquei com o arquétipo da dama de espada na mão, e nessas horas, a espada desce para se enlaçar com o coração.

Mar,
De todos os cantos do mundo
Amo com um amor mais forte e mais profundo
Aquela praia extasiada e nua,
Onde me uni ao mar, ao vento e à lua.
Sophia de Mello, 1944.



Eu estou aqui, esperando a jornada. Já briguei com minhas feras internas e tenho buscado aguçar os sentidos, agora só me falta pôr tudo isso a prova. De qualquer maneira, o sorriso está aqui. Resistir infinitamente ao ódio e ao pavor tem sido o mantra. Se descobrir, descobrir esse Mar e desbravar seus encantos podem estar do outro lado do portal, eu só hei de descobrir se aceitar o caminho. Eu aceito o destino de amar em tempos revoltos. Eu aceito o rio que tem se oferecido a mim na imensidão desse mar de incertezas, faz parte da jornada do louco se arriscar na margem do precipício.

quinta-feira, 21 de abril de 2016

Gal e Bethânia| Amor de Terceira Margem


Eu sempre brinco que devemos procurar um amor que nos olhe como Gal Costa olha para Maria Bethânia enquanto cantam Esotérico (confiram no Youtube as gravações de 76 e 2002). Grande bobagem. Quiseram os deuses que eu não atrelasse mais Esotérico aos olhares de Gal e Bethânia, e sim, ao amor mais lindo que vi em toda minha existência.

A gente cresce idealizando pessoas, idealizando amores e sonhando viver um. Eu tive a benção de ver um desses amores que enche nossos olhos de lágrimas e nossos corações de esperança. Antes que me perguntem, não, eu não era protagonista nessa história, mas de certa forma essa história de amor se entrelaça com minha vida, quase sendo ela o ethos da minha existência como alma.

“Não adianta nem me abandonar
Porque mistério sempre há de pintar por aí
Pessoas até muito mais vão lhe amar
Até muito mais difíceis que eu pra você”

As vezes o curso da história não é bem o esperado, aquele curso para o qual torcemos. Não é um amor de margem esquerda, não é um amor de margem direita. É amor de terceira margem. Amor que não cobra, amor que dói de saudade, mas que sem se perceba. É amor que não cabe em uma vida, e por isso há de se restaurar pela eternidade. É puro, e ao mesmo tempo se inflama. É amor para quem tem entendimento.

Eu tendo a pensar que era um amor que de tão livre, não poderia carregar rótulos. Não haveria círculos de ouro ou prata suficientes para prender entre os dedos. Foi nessa vida o amor do silêncio. Já aprendemos com a literatura que alguns amores nascem para ser Tristão e Isolda... Abelardo e Heloisa.

“Se eu sou algo incompreensível, meu Deus é mais
Mistério sempre há de pintar por aí
Não adianta nem me abandonar
Nem ficar tão apaixonada, que nada
Que não sabe nadar
Que morre afogada por mim”


Se posso eu lhe dizer algo de alento, esse amor não morre. A vida brinca com esse menino travesso chamado destino e nos apronta das suas, mas existem barreiras que a perda não transpõe, não acaba e não cessa. Os olhos mais amorosos do mundo sempre estarão lá para fazer a alma desse Tristão se aproximar de sua Isolda. E nessas horas surge o que é incompreensível para nós, os espectadores. Não foi e não há de ser jamais coisa finita. Os palmos do chão não enterram o que almas sentem. O amor que me fez não foi um amor esotérico, foi e sempre será, simplesmente, amor. 


domingo, 3 de abril de 2016

Doces Bárbaros| Faca Amolada


"Agora não pergunto mais pra onde vai a estrada
Agora não espero mais aquela madrugada"

Na virada do ano eu estava conversando com meu Pai e ele perguntou "Enjoada, quais os planos para 2016?". A resposta foi simples, não deixar nada pra resolver depois e ser muito clara nos meus objetivos. Resumindo: não deixar arestas.

 Sempre fui uma pessoa muito dura, comigo mesma e com os outros, mas minha timidez sempre foi um empecilho para falar a metade das coisas que circulavam minha mente. Mas isso acabou. Não lembro bem qual foi o momento em que a chave mudou o giro, só sei que tem sido terapêutico. E escrever sobre esse processo tem evitado minha prisão e a hospitalização de alguns outros.

 Em 1975, no álbum Minas, Milton Nascimento e Beto Guedes interpretaram a canção que poderia ser o hino para esse momento de virada de mesa. A música sob encomenda. Fé cega, faca amolada é um desses clássicos que uns fazem e outros consagram. Os Doces Bárbaros fizeram essa música ter sentido pra mim.

Deixar a sua luz brilhar e ser muito tranquilo
Deixar o seu amor crescer e ser muito tranquilo

Desde dezembro venho passando por um longo processo de autoconhecimento, algo que transcende esse plano e que nem é necessário ser explicado. Basta a mim viver esse momento. Dentro de todo esse processo de aprendizagem veio a sensação de que algumas coisas não merecem ser valorada como antes, e principalmente, para a manutenção da paz interior.

Dentro de tudo isso tenho exercitado a minha paciência contra a espetaculização. Sabe, eu tenho tido um sono, um cansaço, uma preguiça para os shows alheios. As vezes tenho vontade de dizer “SEJE MENAS”, mas quando a gente pensa em quantas pessoas não mereceriam carregar essa dor na comanda, aí eu desisto. Não é covardia, é o amar algumas pessoas mais do que amo a mim mesma. O que talvez pareça destoar do meu discurso de amor próprio, mas na verdade é que existem amores para além da explicação humana. Esses merecem o nosso recolhimento e devoção.

Isso me faz pensar na tradição iorubá. Me faz pensar sobre Obá. O quanto nós engolimos o orgulho e nossas dores para não ver doer em quem amamos. Mas ao mesmo tempo, isso não pode esconder o fio da nossa espada, e se preciso for, vamos descer essa faca amolada por entre o peito de quem não respeita nossas dores. É muito palhaço pra pouco circo.

Quando a gente se acha no mundo ficamos destemidos. Cheguei à conclusão que sou muito abençoada por ter a oportunidade de encontrar essa ancestralidade e através disso encontrar a mim mesma. Não acredito que isso tem sido algo de todo bom para os que me rodeiam, porque agora precisam aprender a lidar com alguém muito mais posicionada. Tenho lado e tomo partido.

Plantar o trigo e refazer o pão de cada dia
Beber o vinho e renascer na luz de todo dia

No final das contas, eu apenas estou vivendo o que projetei, aqueles desejos de final de ano que nós sempre pensamos que vai ser como a dieta da segunda feira. Mas dessa vez aconteceu. E eu não passaria na frente da minha própria espada. Os dias renascem, a vida também. Mas a alma, ah, alma... essa única, e carrega consigo o aprendizado de seus ciclos.

E no final de tudo, aprendemos que:
Menos espetáculo, mais amor. Menos circo, mais verdade.                              


Para Dona Kaya e seus cabelos prateados, que me fazem ter uma vontade extra de acordar todos os dias.

segunda-feira, 21 de março de 2016

Maria Bethânia| O que é teu já tá guardado. Não sou eu quem vou lhe dar


Tenho ouvido muito Bethânia, em quantidades absurdas. Sempre gostei, mas não sei bem porque se tornou algo mais intenso. Mas tô aproveitando.

Já ouvi a discografia dos anos 70...80 e toda poesia que a musicalidade da filha de Oya tem nos dado nos últimos anos. Não sei se toda essa atração para a música dela tem a ver com a identificação porque, no final das contas ela é o que toda mulher na minha posição quer se tornar. Muito dona de si, muito cheia de si. Mas ao mesmo tempo Dona Betha é poética, sutil, sensível e faz isso ecoar em seus trabalhos. Como diria Andrea Mendes, minha mãe de alma e de todas as vidas, “é sua lua em Peixes...”. Deve ser mesmo. Eu sou uma ogra com coração de chocolate suíço.

No meu atual momento de vida, toda sutileza e beleza me toca. A sensibilidade tem me atraído tanto que tenho repensado meus sonhos e relacionamentos. Acredito que estou para além de mim mesma, e isso me leva a Bethânia.

Imagina, um dia desses recebi uma bela de uma “pedrada”, o que me fez desacreditar em definitivo dos seres humanos. Pessoas são tão pequenas perante a grandiosidade dos sentimentos, coisas são tão vãs perto das dores. Algumas pessoas não conseguem ter o mínimo respeito pelas próprias memórias, pelas próprias histórias. Pessoas querem coisas, e naturalmente são apenas o oco. E isso foi tão traduzido, para mim, por Maria Bethânia em Carta de Amor.

Quando essa “trovoada” caiu no meu terreno eu pensei “eu tenho que ser forte, eu não tô só”. Aí a Filha de Iansã se mostrou, e me disse onde a sensibilidade habita.

Você pisa na terra mas não sente, apenas pisa.
Apenas vaga sobre o planeta, e já nem ouve as teclas do teu piano.
Você está tão mirrado que nem o diabo te ambiciona, não tem alma.

Basicamente, quando ouvi Carta de Amor soou como uma oração. Não sou dada às seriedades da vida, sou uma “avacalhadora” nata. Mas ando perplexa com a dissimulação, com a maldade e, mais do que isso, com a falta de empatia. Como pessoa mística que sou, acreditar que tudo que pensamos e fazemos nesse plano tem verdadeiramente poder em um plano que não enxergamos. E quando me deparo com a frieza humana fico chocada e isso me parte em mil.

Mas eu tenho um alento. Dentro da minha mística, da minha herança cabalística e mais do que isso, o sangue do deserto que corre em minhas veias, eu creio piamente na existência de algo maior do que eu, maior do que a própria existência humana. Meus ancestrais me dão esse sentimento. Então eu nunca estarei só.

Pensou que eu ando só? Atente ao tempo. Não começa, nem termina, é nunca é sempre.
É tempo de reparar na balança de nobre cobre que o rei equilibra, fulmina o injusto, deixa nua a Justiça.

A música é uma prece, até acho que é a única maneira pela qual eu consigo e sei orar. Dessa forma eu tenho muitas orações. Me sinto protegida, viva. Música é expressão de amor, e o amor é o retrato mais lindo do divino. O medo não pode me achar se eu realmente acredito que não ando só. Quando temos medo do escuro apenas estamos representando o medo da solidão, dessa forma, quem nunca anda só jamais poderá ter medo. Minha espiritualidade é musical.

De tal maneira, se eu não acredito na posse de coisas e creio ferozmente que estou aqui de passagem, eu nada posso dar que não seja sentimentos e canções. Tudo que tenho na vida é imaterial ou, no máximo, está transcrito em papel. Quando as pessoas me perguntam o que eu gostaria de ganhar em datas especiais, eu sempre cito a minha obsessão por cartas. Acho tão lindo quando os seres humanos conseguem transcrever seus sentimentos, me dá um suspiro de fé na humanidade. Eu sou daquelas que sempre volta a reler as cartas para ver a beleza de quem a escreveu.

Você secou, seus olhos insones secaram, não veem brotar a relva que cresce livre e verde longe da tua cegueira.
Seus ouvidos se fecharam à qualquer música, qualquer som, nem o bem, nem o mal, pensam em ti, ninguém te escolhe.

Então agradeço a Maria Bethânia; por ser quem é; e, principalmente, por ter traduzido tudo que eu poderia pedir para as forças do universo em momentos de adversidade. Carta de Amor é meu mantra, preciso repetir para mim mesma que ninguém pode mexer comigo, pois não ando só. E é nessa certeza que anda minha sensibilidade, meu eu que se derrete e tem fé. Meu recado é simples:

Vivo de cara pra o vento na chuva, e quero me molhar.
O terço de Fátima e o cordão de Gandhi, cruzam o meu peito.
Sou como a haste fina, que qualquer brisa verga, mas nenhuma espada corta.
Não mexe comigo, que eu não ando só



Para Andrea Mendes, minha mãe de alma, e por isso eterna. A matriarca suprema da família urso. 

sexta-feira, 18 de março de 2016

Contracultura| Músicas de Aço para Tempos de Chumbo


Domingo, dia 13 de março de 2016. Fiquei aqui, de bobeira, nesse sofá no qual estou sentada agora a escrever. Foi um dia apático e eu não queria nada mais além de ouvir música e assistir futebol. Essa tal de depressão é uma escrota preguiçosa.

Nessa toada, saí escutando tudo que tinha direito. No sábado a Liebe/General Ana Seerig já havia me feito escutar Golden Boys, me tirando da inercia em que andavam meus dias musicais. Sim, eu estava há 2 meses ouvindo Ella Fitzgerald e Beatles. Não que isso seja motivo para me auto achincalhar, mas já estava matando minha curiosidade musical. Quando se passa tanto tempo ouvindo ases da história da música, você passa a achar que nada mais faz sentido, aquilo já é bom demais para ser trocado. E nisso seu pendrive fica nessa mesma pegada por meses.

Em meio aos acontecimentos do fatídico e depressivo dia 13, quase que instintivamente parti para o Youtube numa busca desenfreada para tudo que remetesse a musicalidade no Brasil entre os anos de 1968 e 1974. Então o que escutei o dia todo foram músicas de aço para tempos de chumbo.

Minha viagem progressiva começou por Mutantes, passou por Caetano, Gal, Bethânia e Secos e Molhados. Desaguou em Milton Nascimento, Macalé, Ave Sangria e Quinteto Violado. Os Novos Baianos, Alceu e o Som Imaginário também estavam lá. Tudo me levou para uma órbita diferente, onde a guitarra elétrica e os sintetizadores davam conta de toda força existente em forma de música. Foram anos loucos, onde tudo que foi produzido traduz exatamente o contrário do que se era exigido pelo governo ditatorial. Era um recado.
A semana tem passado, e estranhamente tudo se encaixa como peças de lego. Em meio a dias turbulentos na política nacional, só consigo pensar se as pessoas nunca ouviram essas canções, ou se sabem em que contextos elas foram feitas. Pois bem, foi para isso que estudei, para escrever narrativas históricas.

É uma narrativa simples, mas com cenas de terror. E peço, por favor, que sigam a ordem cronológica dos álbuns para perceber a musicalidade da tensão. O anjo da morte passou por aqui em 68, e sua jornada foi intensa e duradoura, 74 parece não ter terminado.

Acho apático, egoísta e de um retardo sobre-humano achar que “minha família viveu na ditadura e não aconteceu nada com eles. Era gente de bem, não bandidos”. Pois bem, fico feliz por sua família, eles não entraram na estatística das prisões, sequestros, torturas e desaparecimentos. Eles não tiveram dentes quebrados, corpos dilacerados e filhas estupradas por agentes “da lei”. Eles não tiveram de fugir com seus filhos pequenos para sobreviverem, não precisaram que seus filhos presenciassem seus espancamentos, e muito menos, que seus filhos crescessem órfãos de pais sem túmulos. E fico triste que você não possa perceber que mesmo não sofrendo tortura corporal a sua família sofreu o maior dos abusos, se tornou acéfala. A geração que viveu 68-74 e saiu de lá achando que tudo estava ok é uma geração que não estudou história, não porque quiseram, optaram, mas porque foram proibidos. Uma geração que teve a Filosofia trocada pela “Moral e Cívica” e acha que foi a mesma coisa. Uma geração que tem medo de receber um “Por que? ”. Faça um teste, tente questionar essas pessoas, o “por que? ” as cortam como punhal.

Eu cresci em uma dessas famílias que “nada de mal fizeram para apanhar da ditadura” e que muitas vezes desmerecem a luta daqueles que lá estiveram, na frente de batalha da democracia. E sinceramente, me sinto orgulhosa de que alguns elementos na minha formação me fizeram nadar ao contrário.

Sabe quando E.P. Thompson falou que a classe operária estava lá em seu nascimento? Pois é. O mitológico historiador inglês só queria nos dizer que começamos a lutar juntos quando percebemos o quanto temos em comum, como nossas experiências nos unem. Acho as vezes que fica difícil para alguns indivíduos conseguirem respeitar a luta alheia. Eu pareço ouvir meu Pai Tiago dizendo “Alice, se tem uma coisa que aprendi com meu pai e posso ensinar a você é, nunca desmereça a luta de ninguém e nunca esteja do lado dos opressores”.

Aprendam, jovens, esses álbuns não são feitos de músicas. Eles são feitos de manifestos. Não fiz esse post para exaltar músicos, cantores, produtores... fiz em honra de todos aqueles que ousaram sobreviver. Isso é música de sobrevivência. Ouça os riffs, na verdade eles são gritos.

Para José Roberto Gomes, por ter ousado sobreviver e por através de seu filho ter me ensinado tanto. Muito obrigado, Vô. A sua voz também pode ser ouvida em meio a esses manifestos.

https://www.youtube.com/watch?v=KIiwbHqtb7w TROPICÁLIA OU PANIS ET CIRCENCIS 68