Eu acho que
alguém precisa apertar o reset. Se o mundo foi planejamento de alguém, é
interessante que perceba o quanto essa apresentação em PowerPoint deu errado e
volte aqui pra desfazer esse equívoco de humanidade que se perdeu no meio do
caminho. A sensação é de que a vida virou um barco à deriva onde não adianta
ter sinalizadores para o resgate. Estamos todos cegos.
Tudo isso não é
de agora. É mais do mesmo, é feijão de ontem. Nossa estagnação é maior que nossa
revolta e ficamos aqui comendo em grandes colheradas dessa desumanidade fast food que o mundo se tornou. Nada anda
fazendo sentido. Não se vale mais os argumentos científicos, os livros, as estatísticas.
Viramos estatísticas. Somos mais um número em uma página de jornal, mais um
nome lamentado em uma mesa de café. Somos mais um em meio a tudo que se destrói,
que se perde em meio a falta de amor, a falta de respeito. Isso tudo tem
parecido um videogame que alguém repetidamente tem dado start, mas continua levando um game
over no meio da cara todos os dias.
É melancolia da
minha parte. Ela se tornou crônica em meio a todas as cacetadas que levamos
como sociedade diariamente. Fomos excluídos do debate político nacional. Os
senhores dos tronos de Brasília estão cagando e andando para nossa opinião, da
mesma forma que o fizeram para os nossos quase 55 milhões de votos. Semana passada
(mas poderia ter sido hoje já que todos os dias é um soco na cara diferente),
em meio as notícias acerca das privatizações e outras tantas manobras, eu só me
senti anestesiada por alguns segundos e pensei que eu só queria desligar, viver
em um mundo paralelo e não ter a menor ideia do que tá acontecendo. Sentir isso
é deprimente, pois é um retrato em cores de que eles venceram em nosso
subconsciente.
Me reanimo. Respiro.
Bebo um copo d’água e respiro fundo. Deixo passar. Sigo.
Em meio a tudo
isso, tô lá na Academia. A vida dentro dos muros da universidade é um paradoxo.
Sabe, em um momento a gente até acredita que vai ficar naquela bolha desfrutando
da presença de pessoas de esquerda, que dizem que foi golpe e gritam Fora
Temer! Mas aí a gente acorda, pega a nuvem e desce. Alice no pais das
maravilhas foi um sonho, lembrem disso. A Academia e essa ideia que o
conhecimento liberta ficou na teoria. Na prática, você tem que tá lidando com três
tipos de humanos, os que conhecidamente são o contrassenso (e desses não
esperamos nada além de ódio e apoio a todo tipo de lixo aka Bolsonaro, Trump e todas
as merdas afins), os camisas vermelhas por conveniência e os que ainda me fazem
está por lá. Sobre esses que resolveram por conveniência se proclamarem como
parte da luta, falar sobre desconstrução e bancar de entendidos dos problemas
do bairro só tenho isso a dizer: vocês não enganam ninguém. Sabemos muito bem
que fazem parte de um núcleo que só acredita em igualdade entre os pares, e que
nós não contamos entre eles. São apenas mentes cheias de textos, corpos sem
vivência e falta de empatia.
A parede da
Universidade é fria. A mente fica abarrotada. Há um vazio de humanidade lá.
Aí eu tenho que
chegar na escola na segunda-feira, entrar em uma sala de aula onde eu vou dar
de cara com aquele aluno estuprado e que a família ainda jogou a violência na
conta dele. FODA. O mundo é uma merda. Penso sobre do que estou servindo. Para
que estou ali? Me pergunto o que a academia me acrescenta, o que minha pesquisa
e todo falatório que transponho em páginas vai servir para essa criança. Meu lattes
vai ajudar ele em algo? Não tenho
respostas.
Fecho os olhos.
Choro. Respiro. Deixo passar.
Ontem fez 26
anos que o Pearl Jam lançou o álbum Ten e eu tenho pensado no Grunge. Nada tá isolado do fator
tempo/espaço. As incertezas que renasceram fortes hoje já passearam no final
dos anos 80 e começo de 90 e com certeza causaram essa mesma melancolia por lá.
O Grunge é a materialização disso. Uma
geração que sentiu tudo a flor da pele, tudo muito cru. Eles fizeram de letra
de música grito de socorro. Eu poderia tá falando do Nirvana, do Soundgarden,
mas só quero que o universo conserve o Eddie Vedder.
All
five horizons
Revolved
around her soul
As
the earth to the sun
Now
the air I tasted and breathed
Has taken a turn
Escutei Black diversas vezes nas férias. Poderia
ter entrado naquela playlist que
postei outro dia. Escrita por Stone Gossard, o que era para ser sobre um primeiro
amor ganhou notas de fim amargo de relacionamento mal resolvido. Tem uma dor
nessa letra, um desespero. É a tradução do ato de olhar para os lados e não
encontrar. É aquele vazio enlouquecedor e uma dor que precisa de uma outra dor
maior para ser capaz de ameniza-la. Dói muito.
Black foi uma das canções mais tocadas no ano em que eu nasci. Isso
é tão sintomático. As crianças dos anos 90 foram embaladas a aura melancólica de
um mundo enfrentando os paradigmas. Cada um tem o questionamento da própria existência.
O ser ou não ser não foi invenção shakespeariana,
mas já é sentimento crônico de cada vida que chora na boca de uma criança recém-nascida.
All
the love gone bad
Turned
my world to black
Tattooed
all I see
All
that I am
All that I'll be, yeah
Dia desses li algo que pra mim poderia ser musicada e cantada por Eddie e faria todo o sentido para tudo que o Grunge nos acostumou a ouvir. O texto dizia o seguinte:
"Eu sinto frio
Não sei porque sempre comento os mesmos erros.
Estou tão assustado que irei arruinar tudo.
Por que eu sou assim?
Eu sempre fui assim.
Eu nunca aprendo.
Eu desejo me cortar (mas eu vou passar sem isso)
Eu mereço.
Mas quando o sangue corre por mim, sinto-me calmo.
Eu esqueço quem eu realmente sou.
Cheio de escuridão e vergonha.
Nunca posso ser digno.
...
Me sinto desesperado
Por favor, faça essa dor desaparecer."
Não viemos programados para a dor, mas ela é realidade. A nossa insegurança dá as caras todos os dias e parece que mesmo não sabendo lidar com a dor terminamos por nos acostumar com esses percalços nossos de cada dia. Acostumar com a dor é algo deprimente.
Não há o que falar, tá tudo aí. No final de tudo, isso foi só um bloco de notas. Uma folha com registros soltos e desconexos de um dia que a melancolia se encontrou com a falta de humanidade.



