sexta-feira, 17 de junho de 2016

Rihanna| Man Down e a crônica sobre o estupro coletivo


A internet pode ser o melhor lugar para se viver em dias de memes, ativismo e toda a zoeira nossa de cada dia. O brasileiro tem por princípio pátrio a arte de não ter limite para a imaginação e a ação “sem vergonha” da falta de senso do ridículo. Gostamos de rir, rir muito e fazer piada sobre as nossas próprias agruras e frustrações. Talvez isso seja reflexo psicológico de uma sociedade que se “acostumou” com o silenciamento dos oprimidos. Ao mesmo tempo, as redes sociais também têm se tornado veículo de intolerância, ódio e nonsense

Em 2011, no álbum Loud, Rihanna lançou o single Man Down e acho que essa música pode ser bem didática para explicar duas coisas: a sensação de culpa de uma mulher estuprada e o endossamento da cultura do estupro. Primeiramente, todas as vezes que temos que nos deparar com notícias como a do ESTUPRO coletivo da jovem Beatriz, no Rio de Janeiro, é como se a agressão das nossas próprias vidas se repetisse. Toda mulher em algum momento de sua vida já sofreu uma agressão, seja ela sexual, física ou moral, motivada pelo simples fato de sermos mulheres e isso já se incutiu culturalmente como objeto e propriedade masculina. Lembre-se, crescemos em uma sociedade judaico-cristã, heteronormativa, onde ser mulher “deveria” ser sinônimo de bela, recatada e do lar.  


I didn't mean to end his life
I know it wasn't right
I can't even sleep at night
Can't get it off my mind
I need to get out of sight
Before I end up behind bars


Em seu clipe de Man Down, Rihanna nos dá um retrato da angústia de uma mulher após assassinar seu agressor. O contexto do vídeo mostra uma jovem caribenha - como a própria Rihanna - de vida simples e que tem sua diversão em bailes na cidade onde vive, vindo a ser estuprada após sair de uma dessas festas. O desenrolar da história seria o sentimento de vingança que toma a agredida que parte para assassinar o agressor, mas que depois de sua morte se sente culpada.


Cause I didn't mean to hurt him
Coulda been somebody's son
And I took his heart
When I pulled out that gun


A música e o clipe de Rihanna se encontram com o caso de Beatriz Pereira no momento em que nos deparamos com a tentativa insana por parte de uma parcela da sociedade que enche as redes sociais com vídeos e textos defendendo que a garota não havia sido estuprada, mas sim participado de uma orgia. O que essas pessoas parecem não ter entendido ainda - e não sei se estariam dispostas a entender - é que o estupro pode se configurar até mesmo quando uma esposa diz ao seu marido que não quer o sexo e ele mesmo assim comete o ato sem a vontade dela. É a visão da mulher como depósito.

No clipe a jovem interpretada por Rihanna é estuprada após sair de uma festa onde dançou sensualmente. O homem a segue e violenta. No caso do estupro coletivo, Beatriz pode ter dançado nua inúmeras vezes em bailes funk do Rio de Janeiro, isso não é da nossa conta, o que fica para ser pago é o fato de que se não há consentimento, o estupro é configurado SIM. Lembrem também de quando Mike Tyson foi condenado por estupro, tentou se defender afirmando que a jovem havia ido com ele para o quarto do hotel...  Mas ela desistiu do sexo e ele mesmo assim a tomou à força. Resumindo novamente: se ela não quiser e você forçar a barra, machinho, é estupro.

Na rua em que vivo existia uma família humilde formada por uma mãe e seus 6 filhos. Certo dia, um desses filhos foi até um famoso bordel do bairro e estuprou uma das garotas de programa que não aceitou praticar sexo anal. O caso nunca foi denunciado, porque quem levaria em conta o estupro de uma garota de programa? As pessoas diriam, “mas ele pagou!!”. No final das contas, a família do agressor foi que viu o absurdo que ocorreu e cuidou da mulher enquanto ela estava hospitalizada. O mínimo.


O que mais chama minha atenção na música é a culpa que ela carrega. Sim, ela narra um crime por parte da mulher também, não vamos ser imbecis de defender assassinato de ninguém, não estamos aqui para fazer lobby com Sheherazades e Bolsonaros, mas é de uma angustia pensar que, mesmo depois do que sofreu, a mulher ainda poderia se colocar na posição de culpa por causar dor à família de seu agressor, a quem acaba de assassinar. Isso poderia ser uma analogia à todas as mulheres que se sentem sujas e culpadas por serem violentadas, que não conseguem dormir carregando o peso da consciência de uma sociedade que a criminaliza pela própria agressão sofrida. Toda vez que esses casos se repetem nossa agressão pessoal ocorre novamente. 

1 comentários:

Vicente Melo disse...

A lentidão de nossa humanização contrasta com o nosso desenvolvimento tecnológico e, como se a vida fosse isso, projeta um futuro de luz e impõe um presente cinza. Sem a necessária expansão da consciência, ansiamos pela luz, enquanto nos debatemos presos a velhos estamentos. Alice, você está ajudando a desbloquear o nosso caminho.

Postar um comentário