sexta-feira, 16 de março de 2018

Marielle Franco l Lágrimas, luta e música I




Faz tempo que não escrevo aqui. Não escrevia porque não via motivo para escrever. Parece tolice, mas por mais que eu ensaiasse um rascunho, ouvisse algo novo, redescobrisse alguma coisa que há tempos não cantarolava, não via o porquê de escrever. Soava hipócrita.

Escrever é uma verdade. Escrever é transcrever a alma. É mais do que falar, porque podemos ensaiar diversas vezes uma mentira a ser pronunciada, mas escrever uma mentira corta como uma faca, pois te coloca de frente as palavras. As palavras escritas são tatuagem no papel, na tela e tinta ou imagem do que pensamos ou nos disfarçamos. O que escrevemos martela na nossa cabeça. Se é algo justo, digno, você se orgulha. Se é injustiça, mentira e falácia, você vai irremediavelmente levar consigo como martelada dissonante na mente. A palavra escrita é um legado.

Diante de todas as pancadas que temos recebido na cara desde o Golpe de 2016, há momentos que irracionalmente mergulhamos em uma letargia porque tudo parece cruel e doloroso demais para ser visto. As redes sociais são ambientes de reverberação do que vale a pena compartilhar e também do que machuca. É desumanidade em proporção industrial. É fascismo se travestindo de religião, moralismo e nacionalismo, ou seja, uma velha receita que os livros de História já nos alertaram, mas que imbecilmente – ou conscientemente – de tempos em tempos volta com força pisando na gente que está ao lado de quem luta contra opressão. Para além dos fascistas, também estamos lidando com o os representantes do “mercado”. Esses representantes estão instituídos de poder no Legislativo, Executivo e Judiciário, estão lá para garantir que nada desviará o natural curso do classicismo que está no cerne do Brasil. Esses representantes têm padrão, rostos que desde sempre ocuparam esses lugares de poder. Homens brancos, ricos, heteronormativos, que para além de apáticos ao que se passa a margem do sistema, são mandantes, cooexecutores de todas as chagas sociais desse país. No Brasil, os 3 poderes, ditos republicanos, têm árvore genealógica.  

Quarta-feira a chave girou. Girou dolorosamente. Em meio a inercia que me encontrava – e me envergonho disso – assisti do sofá a PM de São Paulo, o esquadrão da Morte do PSDB, não se fazer de rogada e quebrar, literalmente, a cara de servidores públicos com transmissão ao vivo. Servidores públicos (assim como os integrantes da própria PM) lutando para não ter direitos usurpados em meio a desgovernos que há tempos se engendram e fazem morada na Prefeitura de São Paulo e no Palácio dos Bandeirantes, foram brutalmente reprimidos. Um cala boca com cassetetes. Foi o primeiro murro do dia, como um jab para abrir a guarda ou um soco no fígado para enfraquecer, mas não era o golpe final.

O soco cruzado, de direita, veio no final da noite. Executaram a vereadora pelo PSOL e ativista Marielle Franco. Mulher negra, lésbica, da Favela da Maré, mãe, acadêmica e alguém que não estava na inercia. Marielle ousou mudar a ordem “natural” do sistema. Pautou sua vida política na tríade do direito a cidade, na igualdade de gênero e no tão necessário debate de raça, tudo isso exaltando principalmente a necessidade de discussão desses pontos para e com os moradores das favelas. Marielle era formada em Ciências Sociais, era mestra em Administração Pública e há mais de 10 anos vinha atuando na militância pela efetivação dos Direitos Humanos no Rio de Janeiro. Ela denunciava o Estado Penal, como ela mesma chamou em sua dissertação. Esse estado que vende a ideia de insegurança social para aplicar uma política de militarização para oprimir e controlar os mais pobres.

Marielle ocupava um importante lugar de fala e sua EXECUÇÃO foi claramente uma tentativa de silenciar Marielle e todos que lutam pelas mesmas pautas que ela. Além disso, fica um gostinho amargo de que os tiros que desfiguraram Marielle, e que também assassinaram Anderson, foram atirados na quarta-feira para acertar as eleições de outubro. Primeiro que, Marielle e sua luta traçavam caminho para o prédio anexo do Palácio da Guanabara, o que por si só iria cada vez mais engrossar o coro de suas denúncias contra a ação truculenta dos mecanismos de controle do Estado.

Além disso, vem se desenhando um panorama medonho para que se estenda a permanência da atual configuração do Planalto por mais 2 anos, em um verdadeiro regime de exceção.  Isso faz sentido, quando pensamos que o famigerado “mercado” não emplacou nem um candidato – tentou brotar alguns nomes que foram rechaçados com veemência, Luciano Hulk foi um desses – e claramente vai inviabilizar, através de mecanismos jurídicos e midiáticos, a candidatura sólida de Lula, além de não querer pagar para ver um fascista rasgado como Bolsonaro assumir o Planalto. Diante de tudo isso, tudo aponta para que o “Grande Acordo, com STF, com tudo” continuar do jeito que está.

Não conheci Marielle, não sabia sobre sua história e talvez isso faça tudo ainda mais difícil de digerir. Ela defendia ideias com quais eu partilho e tento aprender mais sobre todos os dias. Não sou uma mulher negra, e mesmo que eu tenha crescido em uma comunidade pobre, tive privilégios que com toda certeza não foram dados a muitos dos jovens que cresceram comigo, além de que, a realidade de uma lésbica negra é ainda mais difícil, pois é estar exposta a misoginia, lesbofobia e racismo a máxima potência (inclusive dentro da própria comunidade LGBTQ). Sendo assim, ouvir o que Marielle disse durante seus trabalhos de militância me enriquece e cresce em mim a vontade de ver se fortalecer e surgir outros nomes que deem continuidade a essa luta que precisa ser constante. Nomes como o de Maria Clara de Sena, mulher trans negra que está exilada no Canadá após sofrer ameaças em meio a sua luta por efetivação dos Direitos Humanos dentro do sistema penitenciário em Pernambuco e tantas outras mulheres que precisam ser ouvidas. E de tantas outras mulheres que precisam seguir o caminho de Marielle e ocuparem lugares de poder.

E com gosto de sague na boca e alguns sons na cabeça eu decidi escrever sobre tudo que já foi colocado acima, mas também sobre e para Marielle, com obras que sinceramente vão me lembrar dela para sempre. (Click para o segundo texto


Marielle Franco l Lágrimas, luta e música II




Vai teu caminho, que eu vou te seguindo no pensamento e aqui me deixo rente quando voltares, pela lua cheia para os braços sem fim do teu amigo. Vai tua vida, pássaro contente


Em 25 de setembro de 1956 estreava no Teatro Municipal do Rio de Janeiro a peça musical Orfeu da Conceição. Escrita por Vinicius de Moraes (músicas de Tom Jobim, cenário de Oscar Niemayer), foi apenas a segunda vez que uma peça protagonizada por atores negros subia ao palco do Municipal, que era um espaço claramente de uma elite. No palco, Ruth de Souza e Haroldo Costa (e outros atores do Teatro Experimental do Negro de Abdias Nascimento) encenavam em três atos uma adaptação – ambientada nas favelas cariocas – do mito grego de Orfeu e Eurídice. Monólogo de Orfeu, Lamento do Morro e Se todos fossem iguais a você fizeram parte da trilha sonora que três anos depois seria lançada em vinil. Orfeu da Conceição, dentro da realidade da época e todo seu contexto, dá protagonismo ao morro. É de uma beleza e simbolismo atemporal e nunca foi tão necessário revisitar essa obra. Em seu último ato ecoa:

Juntaram-se a Mulher, a Morte a Lua
Para matar Orfeu, com tanta sorte
Que mataram Orfeu, a alma da rua
Orfeu, o generoso, Orfeu, o forte.
Porém as três não sabem de uma coisa:
Para matar Orfeu não basta a Morte.
Tudo morre que nasce e que viveu
Só não morre no mundo a voz de Orfeu.

Marielle Franco lutou para desestigmatizar as populações das favelas, que poucas vezes são retratadas protagonizando algo que não seja ligado ao crime organizado. Lutou por uma política inclusiva, por uma cidade do Rio de Janeiro que oferecesse condições para que as populações dessas comunidades estivessem inclusas em um plano que estendesse a eles o direito a cidade. Era um dos pilares de seu mandato no legislativo municipal. A de insegurança social é plantada e cultivada pelo Estado para que esse faça seu controle social, oprimindo as populações mais vulneráveis. Marielle denunciava um sistema que trata a população negra, favelada, desassistida e tratada como gado, cercado, cerceado, que pasta sob vigilância e é abatido quando convém. 


Ela me conta que era militante e trabalhou por nós
Com algumas mulheres, foi feliz
Com outras foi mulher
Que tem muita luta no coração
Que tem dado muito amor
Espalhando a consciência
E o amor
Mas ela ao mesmo tempo diz que tudo vai mudar
Porque ela vai ser o que quis, inventando um lugar
Onde a gente e a natureza feliz vivam sempre em comunhão
E a tigresa possa mais do que o leão
           
            Estava sussurrando Tigresa há dias. E ontem Ana Cañas teve licença poética para colocar na letra um pouco de Marielle. Durante muito tempo se discutiu sobre para quem Caetano Veloso havia escrito Tigresa. Uns diziam que era para Sônia Braga, outros que era para Zezé Motta. Certa vez, Caetano falou que a letra tinha muito de ambas, mas não era apenas sobre elas, mas sobre muitas mulheres que ele conviveu ou viu naquela época. Essa mulher linda e forte parece ter ganho mais um rosto.  

Pouco tem se falado sobre o fato de que Marielle Franco era lésbica, algo que Ana Cañas fez questão de dizer poeticamente na sua interpretação da letra de Tigresa. Ser o L da sigla tem em si um peso gigantesco dentro de uma sociedade que ao mesmo tempo que é homofóbica é também misógina. A misoginia se encontra inclusive dentro da própria comunidade LGBTQ, que é um espectro da sociedade machista ao qual estão as margens. O racismo e a misoginia estão tão dentro da comunidade LGBTQ quanto da casa do nosso parente mais conservador. E embora saibamos muito bem que a EXECUÇÃO de Marielle não tenha sido exclusivamente por questões identitárias, mas uma associação de tudo isso com a representatividade de seu corpo político que para os mandantes era necessário silenciar, ainda ecoa também a necessidade de se fortalecer os debates em torno de questões de gênero, sexualidade e raça. 

O Estado não sabia de uma coisa:
Para matar Marielle não bastava a morte. Tudo morre, que nasce e que viveu. Só não vão matar, tirar do mundo a voz de Marielle.


Marielle,
PRESENTE. 

segunda-feira, 25 de setembro de 2017

Ben E. King| Uma amizade, um som e algumas palavras


Passei parte do dia adiando esse texto, mas sabia que ele era inevitável. Tenho tido pouco tempo para divagar por aqui, o blog é cheio dessas interrupções, pequenas e longas pausas e sempre que volto a escrever algo que é postado sinto que fica evidente em cada texto as transformações da minha vida. Minha vida transborda entre todas as linhas que já escrevi. Acho até engraçado quando algumas pessoas dizem que eu sou um enigma, que nunca falo sobre mim ou que não me conhecem mesmo depois de tantos anos de convívio. Eu não falo, e isso é um fato, mas eu me deixo ler. Como já diriam alguns teóricos da linguística e da História, também dizemos muito em meio ao não dito.
            Não fui a criança mais popular da escola, também não fui a adolescente mais descolada, mas não posso dizer que não tive muitas pessoas ao meu redor. Aos poucos a gente aprende que a vida é um vai e vem de pessoas, que muitas vezes entram em nossas vidas, nos marcam e passam. Se tornam memórias boas ou ruins, mas se tornam parte da nossa história e de todo um processo que é a nossa passagem por essa vida. Não há como fazê-las ficarem muitas vezes, elas simplesmente ficam o tempo que for necessário para o nosso aprendizado. Pessoas não são coisas, não nos pertencem. Elas simplesmente fluem, seguem um ritmo e o caminho que a vida as destinam. Ninguém entra, passa e marca nossa vida à toa. Pessoas nos ensinam, seja a cair ou a levantar, mas elas nos ensinam
            Sou avessa a telefonemas, as crises de depressão muitas vezes não me fazem ter a menor vontade de sair e claro que tudo isso faz com que muitas pessoas me entendam como uma descompromissada com os vínculos de amizade. Tudo bem, as entendo, de fato deve ser muito difícil de lidar, não parece que sirvo para amizade, mas pareço um criptograma ambulante. Essas pessoas simplesmente passam, como já havia de certa forma explicado acima.
            Sendo quem eu sou, rabugenta, supersticiosa, idealista e um par mais de coisas que ninguém normalmente tá muito afim, eu não tenho mais que uma mão de amigos. Sim, uma mão, pois conto nos dedos de uma mão e nem sei se posso dizer que é uma mão cheia.
            Há alguns anos eu ficava imaginando que as poucas pessoas que eu de fato poderia chamar de amigas de fato ficariam na minha vida. Em um determinado momento eu até cheguei ao ponto de querer me acostumar com a falta dessas pessoas, porque não sabia se poderia contar com elas, porque para algumas pessoas a amizade termina na virgula.
            Esses dias eu estava assistindo um desses filmes imortais que na infância passaram mil vezes na famigerada Sessão da Tarde. Conta Comigo foi um desses clássicos do final dos anos 80 que moldaram uma geração de adolescentes e crianças. Mas o que sempre me fez lembrar do filme não era a história em si, mas a música homônima que estava na soundtrack.

If the sky that we look upon
Should tumble and fall
Or the mountain
Should crumble to the sea
I won't cry, I won't cry
No, I won't shed a tear
Just as long as you stand
Stand by me
           
Stand by me foi escrita em 1960 por Ben E. King, dono da voz que também a imortalizou. Gravada no disco Don't Play That Song!, em 1961, é uma canção que fluem entre o R&B e o Soul. A música já foi inúmeras vezes regravada, desde John Lennon a Prince Royce. Alguns versos na música remetem a trechos do Salmo 46 (Portanto não temeremos, ainda que a terra se mude, e ainda que os montes se transportem para o meio dos mares. Ainda que as águas rujam e se perturbem, ainda que os montes se abalem pela sua braveza).
            É uma música romântica, mas é impossível não a associar também a uma amizade com a qual se pode contar em todos os momentos. Assim como aos poucos descobrimos que algumas pessoas nos marcam e passam, também nos encontramos com aquelas ou aquela que indubitavelmente podemos contar sempre (e oxalá, para sempre). E é por essas pessoas que vivemos e não podemos deixar de acreditar na vida.
            Uma certa tarde, há algum tempo, sentei em um café com uma amiga. Eu estava vivendo um dos momentos mais complicados que a vida já me apresentou e tudo na minha mente era ainda tão desorganizado, confuso. Ela só sentou lá e esperou a tarde inteira para que eu falasse. Não falei, simplesmente porque não tinha palavras. Eu tinha medo, porque a gente as vezes se acostuma em meio as pessoas que são nossos “amigos” até o porém. Temos medo do julgamento. Naquela tarde eu descobri na prática o significado da palavra amigo. Aprendi com ela que amizade não é sobre frequência de palavras trocadas ou a quantidade de vezes que vamos nos encontrar, mas sobre a certeza e a segurança de que o respeito, o carinho e a compreensão não são negociáveis.  
Sobre a minha definição de amigo:
Amigo: pessoa que se faz entender em meio ao silêncio, que chora pela dor que não sente e carrega consigo angustias, sabores e dessabores de um outro ser. Indivíduo que ama sem porém, frase onde não se usa virgula.

            Que as pessoas se respeitem mais, que se amem mais e que valorizem os momentos, porque a eternidade vive neles. A gente nunca sabe o nosso verdadeiro significado para existência de alguém, ou como nossas palavras de conforto, nosso silencio acolhedor ou nosso abraço pode mudar o dia de alguém. 

segunda-feira, 28 de agosto de 2017

Pearl Jam| Notas mentais do cronograma de um dia qualquer


Eu acho que alguém precisa apertar o reset. Se o mundo foi planejamento de alguém, é interessante que perceba o quanto essa apresentação em PowerPoint deu errado e volte aqui pra desfazer esse equívoco de humanidade que se perdeu no meio do caminho. A sensação é de que a vida virou um barco à deriva onde não adianta ter sinalizadores para o resgate. Estamos todos cegos.

Tudo isso não é de agora. É mais do mesmo, é feijão de ontem. Nossa estagnação é maior que nossa revolta e ficamos aqui comendo em grandes colheradas dessa desumanidade fast food que o mundo se tornou. Nada anda fazendo sentido. Não se vale mais os argumentos científicos, os livros, as estatísticas. Viramos estatísticas. Somos mais um número em uma página de jornal, mais um nome lamentado em uma mesa de café. Somos mais um em meio a tudo que se destrói, que se perde em meio a falta de amor, a falta de respeito. Isso tudo tem parecido um videogame que alguém repetidamente tem dado start, mas continua levando um game over no meio da cara todos os dias.

É melancolia da minha parte. Ela se tornou crônica em meio a todas as cacetadas que levamos como sociedade diariamente. Fomos excluídos do debate político nacional. Os senhores dos tronos de Brasília estão cagando e andando para nossa opinião, da mesma forma que o fizeram para os nossos quase 55 milhões de votos. Semana passada (mas poderia ter sido hoje já que todos os dias é um soco na cara diferente), em meio as notícias acerca das privatizações e outras tantas manobras, eu só me senti anestesiada por alguns segundos e pensei que eu só queria desligar, viver em um mundo paralelo e não ter a menor ideia do que tá acontecendo. Sentir isso é deprimente, pois é um retrato em cores de que eles venceram em nosso subconsciente.

Me reanimo. Respiro. Bebo um copo d’água e respiro fundo. Deixo passar. Sigo.

Em meio a tudo isso, tô lá na Academia. A vida dentro dos muros da universidade é um paradoxo. Sabe, em um momento a gente até acredita que vai ficar naquela bolha desfrutando da presença de pessoas de esquerda, que dizem que foi golpe e gritam Fora Temer! Mas aí a gente acorda, pega a nuvem e desce. Alice no pais das maravilhas foi um sonho, lembrem disso. A Academia e essa ideia que o conhecimento liberta ficou na teoria. Na prática, você tem que tá lidando com três tipos de humanos, os que conhecidamente são o contrassenso (e desses não esperamos nada além de ódio e apoio a todo tipo de lixo aka Bolsonaro, Trump e todas as merdas afins), os camisas vermelhas por conveniência e os que ainda me fazem está por lá. Sobre esses que resolveram por conveniência se proclamarem como parte da luta, falar sobre desconstrução e bancar de entendidos dos problemas do bairro só tenho isso a dizer: vocês não enganam ninguém. Sabemos muito bem que fazem parte de um núcleo que só acredita em igualdade entre os pares, e que nós não contamos entre eles. São apenas mentes cheias de textos, corpos sem vivência e falta de empatia.

A parede da Universidade é fria. A mente fica abarrotada. Há um vazio de humanidade lá.
Aí eu tenho que chegar na escola na segunda-feira, entrar em uma sala de aula onde eu vou dar de cara com aquele aluno estuprado e que a família ainda jogou a violência na conta dele. FODA. O mundo é uma merda. Penso sobre do que estou servindo. Para que estou ali? Me pergunto o que a academia me acrescenta, o que minha pesquisa e todo falatório que transponho em páginas vai servir para essa criança. Meu lattes vai ajudar ele em algo?  Não tenho respostas.

Fecho os olhos. Choro. Respiro. Deixo passar.

Ontem fez 26 anos que o Pearl Jam lançou o álbum Ten e eu tenho pensado no Grunge. Nada tá isolado do fator tempo/espaço. As incertezas que renasceram fortes hoje já passearam no final dos anos 80 e começo de 90 e com certeza causaram essa mesma melancolia por lá. O Grunge é a materialização disso. Uma geração que sentiu tudo a flor da pele, tudo muito cru. Eles fizeram de letra de música grito de socorro. Eu poderia tá falando do Nirvana, do Soundgarden, mas só quero que o universo conserve o Eddie Vedder.

All five horizons
Revolved around her soul
As the earth to the sun
Now the air I tasted and breathed
Has taken a turn

Escutei Black diversas vezes nas férias. Poderia ter entrado naquela playlist que postei outro dia. Escrita por Stone Gossard, o que era para ser sobre um primeiro amor ganhou notas de fim amargo de relacionamento mal resolvido. Tem uma dor nessa letra, um desespero. É a tradução do ato de olhar para os lados e não encontrar. É aquele vazio enlouquecedor e uma dor que precisa de uma outra dor maior para ser capaz de ameniza-la. Dói muito.

Black foi uma das canções mais tocadas no ano em que eu nasci. Isso é tão sintomático. As crianças dos anos 90 foram embaladas a aura melancólica de um mundo enfrentando os paradigmas. Cada um tem o questionamento da própria existência. O ser ou não ser não foi invenção shakespeariana, mas já é sentimento crônico de cada vida que chora na boca de uma criança recém-nascida.

All the love gone bad
Turned my world to black
Tattooed all I see
All that I am
All that I'll be, yeah


Dia desses li algo que pra mim poderia ser musicada e cantada por Eddie e faria todo o sentido para tudo que o Grunge nos acostumou a ouvir. O texto dizia o seguinte:

  "Eu sinto frio
   Não sei porque sempre comento os mesmos erros.
   Estou tão assustado que irei arruinar tudo.
   Por que eu sou assim?
   Eu sempre fui assim.
   Eu nunca aprendo.
   
   Eu desejo me cortar (mas eu vou passar sem isso)
   Eu mereço.
   Mas quando o sangue corre por mim, sinto-me calmo.
   Eu esqueço quem eu realmente sou.
   Cheio de escuridão e vergonha.
   Nunca posso ser digno.
   ...
   Me sinto desesperado
   Por favor, faça essa dor desaparecer."

Não viemos programados para a dor, mas ela é realidade. A nossa insegurança dá as caras todos os dias e parece que mesmo não sabendo lidar com a dor terminamos por nos acostumar com esses percalços nossos de cada dia. Acostumar com a dor é algo deprimente.


Não há o que falar, tá tudo aí. No final de tudo, isso foi só um bloco de notas. Uma folha com registros soltos e desconexos de um dia que a melancolia se encontrou com a falta de humanidade. 


domingo, 6 de agosto de 2017

Goo Goo Dolls| Quando a saudade tem cheiro


Nas duas últimas semanas eu tenho tentado digerir uma série de sentimentos e experiências. Como já havia dito antes, provavelmente a música é o que me ajuda a organizar essas ideias. Às vezes eu acho que elas não ajudam essa organização pondo ordem, pois parecem remexer mais com tudo que já estava inquieto. Mas elas ajudam a encontrar palavras, a dar sentido poético a um mar de abstração. É como ouvir algo e pensar “É isso! É exatamente isso que eu estou sentindo. ”

Eu tenho 25 anos, mas posso dizer que já deia volta no quarteirão da vida usando salto alto. Essa vida já foi dolorosa um bocado. A pior coisa que existe é a gente se acostumar com a dor, e simplesmente achar ela normal e agradecer pelas pequenas alegrias esporádicas. Já tive perda que levou parte de mim junto, já passei por desilusões e a minha cara já foi quebrada e rebocada algumas vezes, mas nada nunca foi o suficiente para me fazer acreditar menos no amor e nas pessoas. É algo quase instintivo e acho que o dia que eu perder isso já não serei mais eu mesma.

E em um misto de entrega e medo de me machucar eu vou vivendo. Tudo muito a flor da pele. Nunca soube medir nada. Sempre fui do muito temendo ser insuficiente. E esse muito sempre teve pressa, uma rapidez e um movimento de um sentimento que não cabe dentro de mim. Se reprimir, morro sufocada. E para não morrer, escrevo.

Se o amor não for querer viver no cheiro do cabelo de alguém, porque isso cheira a um lar para você eu não sei o que é amor. Amor é um abraço que não te deixa ir, é um beijo que te faz esquecer a dor. Amor é chegar em um aeroporto lotado e teus olhos acertarem diretamente naquele par de olhos verdes nos quais você mergulharia. O amor te tira da inercia, te coloca em movimento. O meu amor me tirou da minha zona de conforto, girou meu mundo em 180º e me fez sentir a vida novamente.

Sendo assim, eu não me importo com que pode acontecer na semana que vem, pode ser que algumas coisas não surjam para ficar. Pessoas não são souvenirs, não podemos prende-las. Se um dia elas precisarem ir, elas irão e isso não fará que todo o amor seja menor. O amor é a capacidade que o outro tem de melhorar sua vida pelo simples fato de existir. Por isso mesmo não existe arrependimento em amar, porque tudo que de fato é verdadeiro vale a pena.

 Certa vez, uma grande amiga me disse que eu precisava abrir mão do amor platônico. Eu a entendi. Ela temia que eu me machucasse, porque ela se referia ao amor platônico do medievo, aquele amor Tristão e Isolda. O amor que dói pela ausência.  Mas não posso mudar minha natureza, por mais que isso possa me custar algumas lágrimas hipoteticamente.

Na semana passada eu fiz uma playlist com algumas canções que se tornaram uma trilha para minhas férias. Todas elas tinham algo em comum, foram músicas que cansei de ouvir durante a infância e adolescência e que me reencontraram em meio a um lugar onde eu me reencontrei com um sentimento muito especial. Uma música em especial eu deixei de fora porque o que ela me causa não caberia em poucas linhas daquela outra publicação.

Em 1997, a produção do filme Cidade dos Anjos chamou os caras do Goo Goo Dolls para fazer parte da trilha sonora. John Rzeznik, líder da banda, escreveu uma canção inédita para essa soundtrack. Até então a banda fundada por Rzeznik seguia os passos do movimento Grunge e fazia um som típico do Rock alternativo das bandas americanas surgidas no final dos anos 80 e começo dos anos 90.

Por capricho do destino, foi com Iris que a banda alcançou a fama a nível mundial. Eu digo capricho porque Iris é quase uma balada romântica, algo entre o indie rock e o soft rock (também conhecido como adult contemporary). A letra segue o contexto do filme, onde o personagem principal se vê entre o amor e a eternidade. O nome da música seria uma referência a Iris DeMent, uma cantora folk norte-americana que fez sucesso nos anos 90. No embalo do sucesso, o Goo Goo Dolls incluiu a música no álbum Dizzy Up the Girl em 1998.

And I'd give up forever to touch you
'Cause I know that you feel me somehow
You're the closest to heaven that I'll ever be
And I don't want to go home right now

Eu procrastinei para escrever esse texto, e agora que estou aqui sentada tentando fazer minhas palavras terem algum sentido percebo que não era apenas uma questão de preguiça. É que tudo ainda tá muito sensível. Então desde já me perdoem, eu não sei se esse texto de fato vai fazer sentido para vocês, mas pra mim ele é uma tentativa de descomprimir uma gama de emoções que estão abarrotadas aqui dentro.

O amor nos é apresentado de diversas formas. A gente pode se preparar a vida toda ou simplesmente ignorar a sua existência, mas se tiver de ser, não tem racionalidade certa. Vem de onde você menos espera. Do jeito que você menos pensa. Para mim veio aleatoriamente, em uma mensagem despretensiosa, em um dia qualquer.

And I don't want to go home right now
And all I can taste is this moment
And all I can breathe is your life
And sooner or later it's over
I just don't want to miss you tonight

Eu comecei pensando sobre amor, mas no momento todo o amor do mundo que existe em mim se depara com uma convidada indigesta que costuma acompanha-lo. E eu faria qualquer coisa que fosse possível para não ter que a sentir.


Saudade é uma palavra de sentido profundo e não traduzível. A gente até tenta explicar, expressar, mas não dá. Saudade é uma palavra que mesmo não se traduzindo para outro idioma pode, ainda sim, ter endereço, cheiro e voz. Saudade pode ter nome e sorriso. Saudade pode tá lá do outro lado do continente, ou dentro da gente. Eu tenho saudade e é irremediável. 

domingo, 30 de julho de 2017

PLAYLIST| Sons de uma playlist que já foi mixtape de alguém



Eu olhava para a estrada e era tão surreal que finalmente eu tinha criado coragem pra tá ali. Quem convive comigo sabe o quanto foi sair da minha zona de conforto e vencer alguns medos que a gente alimenta e pega pra criar desde muito cedo. De fato, alguns são bem reais e se reafirmam dentro da dinâmica da visita ao Tio Sam, mas outros foram se confirmaram como mito, verdadeiras lendas urbanas no nosso imaginário.

Não seremos aqui nesse blog cuzão a ponto de ficar medindo e dando impressões da cultura alheia, pois não existem parâmetros para tal. A única coisa que sei, é que duas semanas depois eu já estava em crise de abstinência pelo feijão/arroz e farofa de bacon, coisas simples, mas que já ligam o alerta para a saudade das pessoas que conversam em fila de supermercado, os vizinhos que gritam/arengam e de gente que sorri na rua sem nunca ter lhe visto antes. Casa é algo muito sério.

Os históricos estados de Maryland e da Virginia foram meu chão. A odisseia até chegar lá - por odisseia leia-se 9 horas de conexão no aeroporto de Tocumen, no Panamá – eu deixarei para contar outra hora.

A família Kocinski se tornou minha família. Sabendo que o privado é sagrado dentro de uma sociedade como a deles, ser recepcionada e acolhida por eles (independentemente da situação imbuída) foi muito especial e também gostaria de registrar isso aqui no meu lugar de memória e de fala.

Talvez seja algo muito simples para nós e dentro da nossa lógica receber alguém para conversar e comer uma pizza, mas quando isso adentra todo um imaginário permeado por uma lógica cultural distinta e mesmo assim essas pessoas lhe deixam entrar e compartilhar com elas algumas histórias, então devemos ser gratos. Acho que só o amor faz isso. Faz com que as pessoas deixem as armaduras e o prejulgamentos caírem e despidas de qualquer pré-juízo deixarem ser vistas, mostrando assim a alma e amago do que era antes desconhecido. Aprendi com eles, que amor e respeito são gêmeos univitelinos.

E foi nas estradas que ligam Maryland e Virginia que eu fiz as pazes com algumas memórias. Alguém me disse que eu deveria aproveitar todo esse momento da vida como um presente, mas isso não era sobre coisas materiais, mas sobre ver beleza nas coisas e até redescobrir o que se perdeu lá trás. Em todas idas para Richmond e voltas para Leonardtown, a rádio Sirius estava sintonizada no canal de rock dos anos 90 e “early” 2000. Músicas familiares, mas que nunca me causaram nostalgia, já que data um período que eu tentei passar um “errorex ” mental. Eu não reinventei essas memórias, eu criei novas e me deixei ser marcada por elas.

Canções que em algum momento alguém esperou o exato momento da rádio para apertar play/record e montar uma mixtape. Digo isso porque eu mesma cansei de gravar música da rádio Transamerica. Final dos anos 90 e começo dos anos 2000 pra uma criança/adolescente pobre não tinha essa de comprar cd com facilidade, muito menos a comodidade do mp3. Quem quisesse ficar repetindo aquele som maneiro da rádio, tinha que pôr o toca fitas para trabalhar. Aprendi com meus primos mais velhos, foi uma contribuição do bem que eles fizeram em meio a todas as cagadas.

Poderia muito bem ter sido uma viagem com minha fita de adolescência tocando na k7, mas foi a playlist de um canal de uma rádio digital via satélite em meio a railway 95. Não foi o som da casa da minha tia, foi uma roadtrip com o amor da minha vida.

Chris Cornell foi para o outro plano continuar a jornada dele, mas em 2002 já com o Audioslave lançou um álbum homônimo ao nome da banda e que tinha como umas das faixas Like a Stone. A música tem o sentimentalismo que remonta o grunge que Chris ajudou a fundar, mas com uma pegada sintética e tem como base o riff inconfundível de Tom Morelo. A letra poderia ser o epitáfio de Chris. Um homem se vê sozinho em sua casa, não tem mais seus amigos e familiares. Todos morreram. A letra fala sobre a saudade que ele sente e o quanto ele quer reencontra-los. A explicação na época foi dada pelo próprio baixista e um dos autores da letra, Tim Commerford.  

In your house I long to be
Room by room patiently
I'll wait for you there
Like a stone
I'll wait for you there
Alone

No ano em que nasci o Radiohead lançou seu primeiro single. Era 1992 e Creep já ganhava as rádios inglesas, quer dizer nem todas. O som foi considerado muito depressivo e a BBC Radio 1 se negou a tocar. A verdade é que essa característica melancólica marcou muitas canções daquele período, era a tag de uma geração que até hoje ainda se encontra em meio a doses de Sertralina.

When you were here before
Couldn't look you in the eyes
You're just like an angel
Your skin makes me cry


Dolores O'Riordan voltou ao um tema que vira e mexe as bandas irlandesas brilhantemente trazem à tona. O conflito sociopolítico da vizinha Irlanda do Norte é do que se trata a letra de Zombie. As questões na Irlanda do Norte estão para muito além da explicação religiosa, é na verdade um duro entrave entre os súditos da Grã-Bretanha e os que nunca quiseram se curvar a dominação inglesa. Ser católico ou ser protestante é praticamente um aceno para quem não está de acordo com os ingleses e quem está. A religião como representação. Um país dividido, com feridas profundas e que insistentemente ainda se depara com mortes, agressões e a segregação. Zombie é marcante, não apenas por sua letra, mas pela interpretação de Dolores. O ano foi 1994.


It's the same old theme since 1916
In your head, in your head
They're still fighting


Falar de Guns nos dias de hoje se tornou algo bem fora de mão. Na verdade, eu ainda não entendi o porquê se tornou quase uma piada dizer que se gosta ou que algum dia se gostou do som dos caras. Não sei se eu cresci em um universo alternativo, mas todo mundo ouvia muito Guns ao meu redor. A guitarra de Slash e a voz de Axl sempre foram recorrentes aqui. Axl e Izzy Stradlin foram os autores de Don’t Cry, que ao lado de November Rain e Estranged formam uma trilogia sobre o relacionamento conturbado de Axl e Erin Everly (Sweet Child O'Mine e This I Love foram inspiradas em Everly também). A gente se machuca em relacionamentos, mas machucamos bastante também. Eu não sei se vocês dividem essa opinião comigo, mas dói tanto ver quem a gente ama chorar. Me sinto um embuste quando isso acontece. Foi uma das músicas mais tocadas de 1992, o ano em que nasci.

Talk to me softly
There's something in your eyes
Don't hang your head in sorrow
And, please, don't cry


Um ano antes, 1991, o R.E.M dominou as paradas norte-americanas com Losing My Religion. A tradução literal não explica e nada tem a ver com o sentido buscado pelos autores para a música. Quando Bill Berry, Peter Buck, Mike Mills e Michael Stipe compuseram a faixa pra o álbum Out of Time, estavam falando sobre perder a cabeça, a civilidade (Losing My Religion é uma expressão do Sul dos EUA se referindo aos sentidos já citados). Michael Stipe já falou sobre isso em uma entrevista para o The New York Times. Era uma música patinho feio, um baladão pop que destoa do trabalho do R.E.M, mas fez um sucesso danado nos anos 90, tendo o Grammy Awards como umas das premiações recebidas.

That's me in the corner
That's me in the spotlight
Losing my religion
Trying to keep up with you
And I don't know if I can do it


Liam Gallagher é persona non grata do mundo da música. O Oasis não é uma das minhas bandas favoritas, porém acho o som dos caras bem honesto. Wonderwall, por sua vez, é uma obra prima. É como o gol do Gilberto na final do campeonato Pernambucano 2011, um lapso de genialidade. Na verdade, eu estou sendo injusta e falastrona. A letra foi escrita por Noel Gallagher e se trata de um amigo imaginário que virá salvar o indivíduo (eu lírico). Eu já coloquei essa música em uma playlist das indigestas e até já falei para não atrelar essas canções a pessoas, mas é impossível. Músicas, assim como sabores, toques e cheiros são marcadores. Te fazem lembrar de dias, momentos e sorrisos. Não tem jeito.


And all the roads we have to walk are winding
And all the lights that lead us there are blinding
There are many things that I
Would like to say to you, but I don't know how



Em 1995, Gwen Stefani e Tony Kanal terminaram um relacionamento de 7 anos. A separação tomou corpo e notas na canção Don’t Speak, esctira por Gwen e o irmão Eric. Foi a terceira faixa do álbum Tragic Kingdom a se tornar um single. Eu já chorei ouvindo essa música. Nem sei porque resolvi coloca-la nessa lista, porque já estou chorando novamente.

You and me
We used to be together
Everyday together always
I really feel
That I'm losing my best friend
I can't believe this could be the end



Como já disse, não existe parâmetros. Mas dessa vez me pego falando sobre a experiência. Não o fato de ser uma viagem, mas de pegar a estrada, de segurar a mão de alguém e estar feliz o suficiente pra não se importar com o que pode acontecer no minuto seguinte. Foi um presente ter vivido tudo, de ter recebido tanto amor, de todas as formas que esse amor se apresentou a mim nessa jornada. Eu me sinto grata. Escrever sobre isso já me faz sentir saudades, mas me coloca também como apreciadora de momentos que só parecem reais em minha mente quando os organizo. Quando os traduzo em sons. 

sexta-feira, 12 de maio de 2017

Rihanna | A culpa não é nossa


Quando eu tinha 5 anos de idade a vida se apresentou para mim. Sem pedir licença, sem sutileza, apenas veio e deixou em mim o medo. O medo se tornou algo intrínseco a mim. Algumas pessoas falam que o medo é uma demonstração de que existe vida pulsando, mas para mim o medo é a tensão de não querer ser ferida, o pavor da reprovação de um olhar, o temor de um gesto ou uma palavra que reprime. O medo é como tocar uma ferida aberta, que por mais que se aproxime com toque cuidadoso, a dor ainda vai estar lá. Esse pavor é uma dor que calcifica.

A adolescência veio, e toda a ferida que já estava aberta apenas ganhou profundidade. Essa dor que se aprofundou, tomou contorno e preenchimento de melancolia. Você senta e passa a apenas aceitar, o que não a vida, mas o que momento oferece. A mente cria estratégias para sobreviver em meio ao caos, você entra em estado de automação. Replica gestos, falas e sorriso porque no fundo, por mais que não pareça, você quer sobreviver.

Quando tudo se torna apenas uma questão de sobrevivência o prazer dá lugar a uma couraça que tenta desesperadamente servir como cobertura para todas essas feridas que nos marcam ao longo do caminho. Tudo se torna uma questão de viver defensivamente, se protegendo, nem que para isso seja necessário mostrar os dentes e ferir alguém. Não passamos mais a viver, estamos só nessa guerrilha emocional, que é um processo cíclico e autodestrutivo.

And you got me like, oh
What you want from me?
(What you want from me?)
And I tried to buy your pretty heart
But the price is too high

Rihanna transpões tudo isso para uma música. Em seu oitavo álbum de estúdio, Anti, ela em parceria com Fred Ball e Joseph Angel lançou Love on the Brain. A décima primeira faixa do álbum foi também o 4º single da barbadense para esse trabalho lançado em 2015. Pelo que tudo indica, todo trabalho seria acompanhado de vídeos e reflexões da própria Rihanna que ajudariam a interpreta esse lançamento, mas o vazamento do material na internet interrompeu esse processo criativo da artista. Ficamos então sem o vídeo que fecharia esse processo de composição e interpretação da música. Mas a letra toma vida e folego na mente de cada um que já viveu ou vive o que ela está cantando.

Love on the Brain é sobre uma relação abusiva. Na letra ela deixa claro os vários estágios desse abuso, como a forma que sua vida está atrelada a dele (No matter what I do, I’m not good without you) e como isso a leva a aceitar a dor (So you can put me together and throw me against the wall). Ele parece como um personagem que vem e vai, aparece quando é conveniente a ele, mas a prende emocionalmente e a usa como objeto de satisfação pessoal.

E por mais que se tente ser didática, é difícil explicar para quem está de fora o mecanismo de atuação de um abuso na mente de quem sofre. Talvez algumas pessoas apenas se perguntem a motivação da permanência em uma relação abusiva, o que essas pessoas não entendem é como o abusador se utiliza de mecanismo para atrelar aquela pessoa psicologicamente a ele através da baixa autoestima, medo e inversão. Isso não ocorre apenas em relacionamentos abusivos, mas também em outros tipos de abusos, onde quem sofre o abuso não reage ou denuncia por se ver em uma dessas situações.

That’s got me feeling this way
(Feeling this way)
It beats me black and blue, but it fucks me so good

Essa dor serve como estopim de uma crise de ansiedade que toma o folego. Esse medo fomenta uma depressão, o autoflagelo da mente que carrega em si todo peso do mundo. E você se afunda, ficar só consigo mesmo se torna a solução viável de quem não aguenta mais tudo isso. Você ali, encolhido, fechado em sua concha é intocável no estratagema da sua consciência.  O que você não se dá conta é da força que carrega em si. Você sobreviveu a tudo isso e tem o direito de seguir em frente. Existe uma força interna muito maior que a dor, e essa força nos mantém vivos.


Em um dos vídeos de lançamento de Anti, Rihanna aparece ao redor de uma criança que interage com ela e lhe entrega uma coroa. Todos temos uma criança que nos espreita. A nossa criança interna que foi machucada, abatida e que sofreu com a apresentação dessa vida para ela. Alguém muito especial me disse ”olha, antes essa criança estava sozinha e não tinha como se defender. Agora essa criança tem você e você não precisa mais ter medo. Você tem como se defender”. Toda ansiedade, melancolia e o temor de enfrentar a vida não são mais um perigo real, aquele risco ao qual ficamos expostos, mas sim a memória de todo sofrimento que já foi enfrentado.