Eu olhava para a estrada e era tão surreal que finalmente
eu tinha criado coragem pra tá ali. Quem convive comigo sabe o quanto foi sair
da minha zona de conforto e vencer alguns medos que a gente alimenta e pega pra
criar desde muito cedo. De fato, alguns são bem reais e se reafirmam dentro da dinâmica
da visita ao Tio Sam, mas outros foram se confirmaram como mito, verdadeiras
lendas urbanas no nosso imaginário.
Não seremos aqui nesse blog cuzão a ponto de ficar medindo
e dando impressões da cultura alheia, pois não existem parâmetros para tal. A única
coisa que sei, é que duas semanas depois eu já estava em crise de abstinência pelo
feijão/arroz e farofa de bacon, coisas simples, mas que já ligam o alerta para
a saudade das pessoas que conversam em fila de supermercado, os vizinhos que gritam/arengam
e de gente que sorri na rua sem nunca ter lhe visto antes. Casa é algo muito
sério.
Os históricos estados de Maryland e da Virginia foram meu
chão. A odisseia até chegar lá - por odisseia leia-se 9 horas de conexão no
aeroporto de Tocumen, no Panamá – eu deixarei para contar outra hora.
A família Kocinski se tornou minha família. Sabendo que o privado
é sagrado dentro de uma sociedade como a deles, ser recepcionada e acolhida por
eles (independentemente da situação imbuída) foi muito especial e também
gostaria de registrar isso aqui no meu lugar de memória e de fala.
Talvez seja algo muito simples para nós e dentro da nossa
lógica receber alguém para conversar e comer uma pizza, mas quando isso adentra
todo um imaginário permeado por uma lógica cultural distinta e mesmo assim
essas pessoas lhe deixam entrar e compartilhar com elas algumas histórias,
então devemos ser gratos. Acho que só o amor faz isso. Faz com que as pessoas
deixem as armaduras e o prejulgamentos caírem e despidas de qualquer pré-juízo
deixarem ser vistas, mostrando assim a alma e amago do que era antes
desconhecido. Aprendi com eles, que amor e respeito são gêmeos univitelinos.
E foi nas estradas que ligam Maryland e Virginia que eu fiz
as pazes com algumas memórias. Alguém me disse que eu deveria aproveitar todo
esse momento da vida como um presente, mas isso não era sobre coisas materiais,
mas sobre ver beleza nas coisas e até redescobrir o que se perdeu lá trás. Em
todas idas para Richmond e voltas para Leonardtown, a rádio Sirius estava
sintonizada no canal de rock dos anos 90 e “early” 2000. Músicas familiares,
mas que nunca me causaram nostalgia, já que data um período que eu tentei
passar um “errorex ” mental. Eu não reinventei essas memórias, eu criei novas e
me deixei ser marcada por elas.
Canções que em algum momento alguém esperou o exato momento
da rádio para apertar play/record e montar uma mixtape. Digo isso porque eu
mesma cansei de gravar música da rádio Transamerica. Final dos anos 90 e começo
dos anos 2000 pra uma criança/adolescente pobre não tinha essa de comprar cd
com facilidade, muito menos a comodidade do mp3. Quem quisesse ficar repetindo
aquele som maneiro da rádio, tinha que pôr o toca fitas para trabalhar. Aprendi
com meus primos mais velhos, foi uma contribuição do bem que eles fizeram em
meio a todas as cagadas.
Poderia muito bem ter sido uma viagem com minha fita de adolescência
tocando na k7, mas foi a playlist de um canal de uma rádio digital via satélite
em meio a railway 95. Não foi o som
da casa da minha tia, foi uma roadtrip com o amor da minha vida.
Chris Cornell foi para o outro plano continuar a jornada
dele, mas em 2002 já com o Audioslave lançou um álbum homônimo ao nome da banda
e que tinha como umas das faixas Like a
Stone. A música tem o sentimentalismo que remonta o grunge que Chris ajudou a fundar, mas com uma pegada sintética e
tem como base o riff inconfundível de
Tom Morelo. A letra poderia ser o epitáfio de Chris. Um homem se vê sozinho em
sua casa, não tem mais seus amigos e familiares. Todos morreram. A letra fala
sobre a saudade que ele sente e o quanto ele quer reencontra-los. A explicação
na época foi dada pelo próprio baixista e um dos autores da letra, Tim
Commerford.
In your house I long to be
Room by room patiently
I'll wait for you there
Like a stone
I'll wait for you there
Alone
No ano em que nasci o Radiohead lançou seu primeiro single.
Era 1992 e Creep já ganhava as rádios
inglesas, quer dizer nem todas. O som foi considerado muito depressivo e a BBC
Radio 1 se negou a tocar. A verdade é que essa característica melancólica marcou
muitas canções daquele período, era a tag
de uma geração que até hoje ainda se encontra em meio a doses de Sertralina.
When you were here before
Couldn't look you in the eyes
You're just like an angel
Your skin makes me cry
Dolores O'Riordan voltou ao um tema que vira e mexe as
bandas irlandesas brilhantemente trazem à tona. O conflito sociopolítico da
vizinha Irlanda do Norte é do que se trata a letra de Zombie. As questões na Irlanda do Norte estão para muito além da
explicação religiosa, é na verdade um duro entrave entre os súditos da Grã-Bretanha
e os que nunca quiseram se curvar a dominação inglesa. Ser católico ou ser
protestante é praticamente um aceno para quem não está de acordo com os
ingleses e quem está. A religião como representação. Um país dividido, com
feridas profundas e que insistentemente ainda se depara com mortes, agressões e
a segregação. Zombie é marcante, não
apenas por sua letra, mas pela interpretação de Dolores. O ano foi 1994.
It's the same old theme since 1916
In your head, in your head
They're still fighting
Falar de Guns nos
dias de hoje se tornou algo bem fora de mão. Na verdade, eu ainda não entendi o
porquê se tornou quase uma piada dizer que se gosta ou que algum dia se gostou
do som dos caras. Não sei se eu cresci em um universo alternativo, mas todo
mundo ouvia muito Guns ao meu redor.
A guitarra de Slash e a voz de Axl sempre foram recorrentes aqui. Axl e Izzy
Stradlin foram os autores de Don’t Cry,
que ao lado de November Rain e Estranged formam uma trilogia sobre o
relacionamento conturbado de Axl e Erin Everly (Sweet Child O'Mine e This I
Love foram inspiradas em Everly também). A gente se machuca em relacionamentos,
mas machucamos bastante também. Eu não sei se vocês dividem essa opinião comigo,
mas dói tanto ver quem a gente ama chorar. Me sinto um embuste quando isso acontece.
Foi uma das músicas mais tocadas de 1992, o ano em que nasci.
Talk to
me softly
There's
something in your eyes
Don't
hang your head in sorrow
And,
please, don't cry
Um ano antes, 1991, o R.E.M dominou as paradas norte-americanas
com Losing My Religion. A tradução
literal não explica e nada tem a ver com o sentido buscado pelos autores para a
música. Quando Bill Berry, Peter Buck, Mike Mills e Michael Stipe compuseram a
faixa pra o álbum Out of Time,
estavam falando sobre perder a cabeça, a civilidade (Losing My Religion é uma expressão do Sul dos EUA se referindo aos
sentidos já citados). Michael Stipe já falou sobre isso em uma entrevista para
o The New York Times. Era uma música patinho feio, um baladão pop que destoa do
trabalho do R.E.M, mas fez um sucesso danado nos anos 90, tendo o Grammy Awards
como umas das premiações recebidas.
That's me in the corner
That's me in the spotlight
Losing my religion
Trying to keep up with you
And I don't know if I can do it
Liam Gallagher é persona
non grata do mundo da música. O Oasis não é uma das minhas bandas
favoritas, porém acho o som dos caras bem honesto. Wonderwall, por sua vez, é uma obra prima. É como o gol do Gilberto
na final do campeonato Pernambucano 2011, um lapso de genialidade. Na verdade,
eu estou sendo injusta e falastrona. A letra foi escrita por Noel Gallagher e
se trata de um amigo imaginário que virá salvar o indivíduo (eu lírico). Eu já
coloquei essa música em uma playlist das indigestas e até já falei para não
atrelar essas canções a pessoas, mas é impossível. Músicas, assim como sabores,
toques e cheiros são marcadores. Te fazem lembrar de dias, momentos e sorrisos.
Não tem jeito.
And all the roads we have to walk are winding
And all the lights that lead us there are blinding
There are many things that I
Would like to say to you, but I don't know how
Em 1995, Gwen Stefani e Tony Kanal terminaram
um relacionamento de 7 anos. A separação tomou corpo e notas na canção Don’t Speak, esctira por Gwen e o irmão Eric.
Foi a terceira faixa do álbum Tragic
Kingdom a se tornar um single. Eu já chorei ouvindo essa música. Nem sei
porque resolvi coloca-la nessa lista, porque já estou chorando novamente.
You and me
We used to be together
Everyday together always
I really feel
That I'm losing my best friend
I can't believe this could be the end
Como já disse, não existe parâmetros. Mas dessa vez me pego
falando sobre a experiência. Não o fato de ser uma viagem, mas de pegar a estrada,
de segurar a mão de alguém e estar feliz o suficiente pra não se importar com o
que pode acontecer no minuto seguinte. Foi um presente ter vivido tudo, de ter
recebido tanto amor, de todas as formas que esse amor se apresentou a mim nessa
jornada. Eu me sinto grata. Escrever sobre isso já me faz sentir saudades, mas
me coloca também como apreciadora de momentos que só parecem reais em minha
mente quando os organizo. Quando os traduzo em sons.
1 comentários:
Alice,
Por mais que eu já tenha me programado mil vezes aqui pra revirar teu blog, acabo nunca executando o planejamento. Mas o título desse post me chamou, ainda mais quando eu vi que a inspiração veio da tua viagem. Fiz uma anotação mental pra ligar o pc e vir ler e ouvir detalhadamente teu post.
Guria, sei bem do que tu tá falando sobre a adorável surpresa de ser tão carinhosamente recebida em outro canto do mundo. Como, no meu caso, nunca teve questões românticas envolvidas, acho ainda mais inesperado e surpreendente.
Quanto às músicas: que viagem no tempo! Apesar de não ter acompanhado de perto nenhuma das bandas, essas músicas eram tocadas na época em que me fascinava com o prazer de ter um rádio só pra mim e estava com ele conectado em uma estação daqui sempre que possível. Descobri e me encantei pelo cenário independente do RS nesse período. Enfim, mesmo que essas músicas não estejam presentes na minha memória musical, elas despertaram um sentimento de nostalgia que não tenho como esclarecer aqui.
Fico muito, muito feliz em saber que a viagem foi ótima! Agora vem a parte difícil: ter que aceitar a realidade que tu não pode estar em dois lugares ao mesmo tempo e, pior, que é praticamente impossível reunir todas as pessoas queridas pra ti em um lugar só. Então, força para lidar com tudo isso e bem-vinda ao mundo de quem poupa moedinhas para comprar dinheiro estrangeiro e matar a saudadezinha de lá (e levando em conta o querido do Temer, não há perspectiva do câmbio ficar menos doloroso tão em breve).
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